Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 41 de 77

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Tenda dos Milagres

Capítulo 9

— Com prazer, Madama. Amanhã passarei lá.

— Argolo de Araújo é o nome do gato? Que engraçado... O sobrenome do professor — constata Archanjo.

— Refere-se o amigo a Nilo d’Ávila Argolo de Araújo? Conheço demais esse micróbio. Somos primos pelo lado dos Araújos, fui noiva de seu tio Ernesto; no entanto, passa a meu lado e faz que não me vê. Vende-se por muita coisa, arrota fidalguia, mas não em minha frente. Conheço os podres da família, tintim por tintim, as descarações, as roubalheiras, oh! mon cher, quelle famille! Um dia lhe conto, se quiser ouvir.

Que mais hei de querer, Madama, hoje é um dia abençoado: quarta-feira, dia de Xangô, e eu sou Ojuobá, seus olhos bem abertos para tudo ver e de tudo saber, dos pobres com preferência mas também dos ricos, quando necessário.

— Leve-me a assistir macumba e lhe conto a história da nobreza da Bahia.

Tadeu vem ajudá-la a descer os dois degraus da saída.

— Velha não presta para nada e nem assim sinto vontade de morrer — com a mão tratada tocou o queixo do rapaz: — Foi por um moreno assim que minha avó Virgínia Martins perdeu o siso e temperou o sangue da família.

Abre a sombrinha deslumbrante, firma o passo na ladeira íngreme do Tabuão, seu passo belle époque: vai pelas ruas de Paris, desfila no Boulevard des Capucines.

9

Em meio a tanto embeleco, uma coisa é certa: a presença de Zabela na festa de Ogun em que se deu o encantamento. Divergem os relatos de narrador para narrador. Todos viram o bafafá com os olhos que a terra um dia há de comer mas cada qual o enxergou à sua maneira. Os mais afirmativos, são, é claro, os que não estavam e não presenciaram; sabem tudo e melhor do que ninguém, são as testemunhas principais.

Ausentes e presentes, acordes todos num pormenor:

— Quem não me deixa mentir é a ricaça da Lapa, a fidalga coberta de joias, senhora de maior. Estava lá e viu.

Fidalga, de alto coturno, com certeza. Ricaça sem dúvida, no passado. As joias, porém, eram falsas. Imitações e cópias, muitas e multicores: voltas, contas, adereços; tão enfeitada de colares e pulseiras só a mãe-de-santo. Num gesto muito do seu, ao despedir-se (para voltar diversas vezes), a condessa da Água Brusca, retirou um colar do pescoço e o ofereceu a Majé Bassan:

— Não vale nada mas fique com ele, por favor.

Pimpona na cadeira de braços reservada aos convidados de honra, Zabela acompanhou as cerimônias com extremo interesse. Punha-se de pé para ver melhor, em gestos nervosos, a mão no peito, exclamações francesas, nom de Dieu!, zut, alors!: na hora da descida dos orixás ao som do adarrum, no choque das espadas dos Oguns em luta, na dança de Oxumarê, cobra de ventre preso à terra, meio homem meio mulher, macho e fêmea ao mesmo tempo.

— O que foi que aconteceu com aquela moça tão bonita que veio falar com você e depois dançou tão animada? Estava parada na porta e sumiu. Por que não dança mais, que fim levou?

Se Pedro Archanjo possuía a decifração da alegoria, não a revelou à bisbilhoteira. “Não reparei, Madama”.

— Não me faça de boba. Vi um homem perto dela, por detrás do fogo, branco e altaneiro, nervoso, impaciente. Vamos, me diga.

— Sumiu — e nada mais acrescentou.

Apurando opiniões e tirando os noves-fora, Doroteia foi vista na roda das feitas, volteando no barracão, em disputa com Rosa de Oxalá na delicadeza do passo e em formosura. Havia também Stela de Oxossi, Paula de Euá e outras de bastante soberbia.

Desceu Oxossi com o erukerê de rabo de cavalo e montou Stela. Euá uniu-se ao corpo de Paula, vento de laguna, água da fonte. Num estremeção, Rosa fez-se Oxolufan, Oxalá velho. Três Omolus, dois Oxumarês, duas Yemanjás, um Ossain e um Xangô. Chegaram ao mesmo tempo seis Oguns — era treze de junho, dia de sua festa, na Bahia Ogun é Santo Antônio —, e o povo os saudou de pé, alegremente: Ogunyê!

Quando, num assovio longo, silvo de trem, apito de navio, Yansan lhe deu o aviso, Doroteia avexou-se veio beijar a mão de Archanjo:

— Por que não trouxe meu rapaz?

— Ficou estudando, tem muito o que estudar.

— Vou embora, Pedro. Vou hoje mesmo. Esta noite ainda.

— Vem lhe buscar? Vai de vez?

— É de vez e vou com ele. Não conte nada a Tadeu, passe mel na boca e diga a ele que eu morri, é melhor assim: dói uma vez só e se acabou.

Pôs-se de joelhos, curvou a cabeça sobre a terra. Archanjo tocou-lhe a carapinha e ergueu a negra Doroteia em sua altura. Nem de todo se firmara e já Yansan a possuía num grito que acordou os mortos. Consta que do fundo do terreiro os eguns responderam, lamentos de arrepio.

No barracão bem poucos repararam na cena a preceder a chegada de Yansan. Zabela, porém, a seguira do começo ao fim, para ela tudo aquilo era novidade e excitação. As ékédes conduziram os encantados para as camarinhas onde mudariam as vestimentas, após dançarem as cantigas rituais. Quem mais dançou foi Yansan emmeio aos seis Oguns. Era em despedida mas ninguém sabia.

No intervalo da troca de roupa, em outra sala, serviram a comida de Ogun, régio banquete. Zabela beliscou de cada prato, adorava comida de dendê, infelizmente fazia-lhe mal ao fígado. Quando os foguetes começaram a subir, anunciando o regresso dos orixás, a anciã saiu quase a correr, não queria perder o menor detalhe da macumba.

Aproximou-se a majestosa procissão dos encantados, à frente um dos seis Oguns, o de Epifania. Roncaram os atabaques, o povo ficou de pé, batendo palmas, um clarão iluminou os ares, foguetes, bombas e rojões — o mês de junho na Bahia é a mês do milho e dos fogos de artifício. No estouro e no relâmpago dos foguetes, um a um entraram no barracão os orixás com emblemas, armas, ferramentas. Mãe Majé Bassan puxou o canto, Oxossi deu começo à dança.

Cadê Yansan, por que não voltara ao barracão? Dela se ouviu o eco de um ruído na distância. Silvo de trem? Não, o apito de um navio. No vão da porta todos viram Doroteia pela derradeira vez. Não ostentava os trajes de Yansan, embora muitos o afirmem e jurem pela luz dos olhos; tampouco a saia engomada e a bata de rendas, a roupa de baiana. Em trinques de senhora, exibia indumentária de lordeza, vestido de cauda longa e da melhor fazenda, jabô de babadinhos. O peito arfante, os olhos em brasas.

Todos se referem ao homem postado atrás de Doroteia e coincidem nos chifres pequenos, de diabo. No resto, desacordo e discussão. Alguns viram o rabo qual bengala, a ponta curva a lhe pender do braço; outros falam dos pés-de-cabra; a maioria o descreve cor de carvão. No depoimento de Evandro Café, velho e respeitável tio, o canhoto era vermelho, de um encarnado vivo, fulgurante. Os olhos curiosos e atentos de Zabela enxergaram-no branco e loiro, na testa dois bucles de cabelos,um pedaço de homem! Igualavam-se a condessa e o ex-escravo em idade e experiência, os dois merecem fé.

Tudo se passou ao resplendor dos fogos de artifício, à luz do foguetório, luz e fogo que cegavam. Naquele incêndio, ao fulgor daquela aurora, na chama, no trovão e no relâmpago, em passaladagem, Doroteia se desfez no ar. Estava à porta e no mesmo instante, não estava: a porta vazia, apenas um cheiro de enxofre, o clarão e o estouro. De bomba, de foguete? Quem ouviu, sabe que não.

Doroteia nunca mais foi vista. Nem o mal-assombrado. Percebeu-se um barulho: para Zabela, galope de cascos de cavalos, fuga de amantes para terras longínquas; para Evandro Café, ruído de pés-de-cabra em correria, era o Cão por sua iaba. Assim ou assado, acabou-se Doroteia.

Durante dias permaneceu vago o ponto da Misericórdia onde os fregueses do abará, acarajé, cocada e pé de moleque encontraram, anos a fio, a negra Doroteia com o colar de Yansan e uma conta vermelha e branca, de Xangô. Depois ali assentou-se Miquelina, pacata e alva, o tabuleiro enfeitado e os olhos garços.

Na Tenda dos Milagres, debruçado sobre livros, um adolescente chora a mãe para ele morta. Para outros encantada, de retorno a seu princípio. Cada qual com sua sina. Se Archanjo guardava a chave da adivinha, nada disse.