Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 55 de 77

Páginas do PDF

Tenda dos Milagres

Capítulo 7

Lídio Corró assume a flauta, estende o violão a Pedro Archanjo, a roda do samba se compõe. Onde andarão Kirsi e Doroteia, Risoleta e Dedé? Sabina dos Anjos mudou-se para o Rio de Janeiro, o filho é embarcadiço. Ivone casou com mestre de saveiro, vive em Muritiba. Inutilmente as novatas devoram com os olhos o moço Tadeu vestido de doutor.

A brincadeira atravessou a noite, mas bem cedo o do-no da festa, o motivo da reunião, o alvo das homenagens, o doutor Tadeu Canhoto, engenheiro civil, mecânico, geógrafo, arquiteto, astrônomo, engenheiro de pontes e canais, de ferrovias e estradas de rodagem, politécnico, pediu licença e retirou-se. Nos salões do Cruz Vermelha, o clube da elite, o paraninfo, o ilustre e rico professor Tarquínio, oferece o baile de formatura aos novos engenheiros.

— Preciso ir, padrinho. O baile começou faz tempo.

— Não é cedo ainda? Por que não fica mais um pouco? Todos aqui lhe estimam e vieram para lhe ver. — Archanjo não queria dizer e disse, por que o fez?

— Bem sei e gostaria de ficar. Mas.. Zabela bate com o leque no braço de Archanjo: — Deixe o menino ir embora, não seja rabugento.

— Diabo de velha arrelienta, até onde sabe o segredo de Tadeu? Não será por acaso parente também desses Gomes metidos a sebo e a farromba?

— Você, mestre Pedro, é um devasso, um libertino. Nada sabe do amor, só sabe de mulheres — a ex-Princesa do Recôncavo, a ex-Rainha do Cancã suspira: — Igual a mim, sei de homens, saberei do amor?

Ficou um instante em silêncio, olhando Tadeu atravessar a porta: — Chamava-se Ernesto Argolo de Araújo, meu primo, eu era mocinha e tonta e por demais o quis, tanto e tanto que o levei à morte nas mãos de um espadachim, só para lhe fazer ciúmes e medir até onde ia seu amor.

Tadeu sumiu na escuridão, ressoam os passos na ladeira, sapatos de verniz. Ninguém poderá detê-lo em seu caminho. Não tentarei, Zabela, para quê? Vai subir os degraus da escada, um a um, e leva pressa. Adeus, Tadeu Canhoto, a festa foi de despedida.

7

O juiz Santos Cruz, cujo saber e senso de humor eram tão louvados quanto a inteligência e a integridade, sentiu-se realmente irritado: o escrivão viera lhe comunicar, no gabinete onde esperava o início, da sessão do júri,a renovada ausência do advogado ex-ofício. O causídico rabiscara um bilhete de desculpas, às pressas.

— Doente... Gripe... Deve estar bêbado num bar qualquer. Não faz outra coisa. Não é possível que essa farsa continue. Quantas vezes esse pobre desgraçado veio e voltou para a Detenção? Não lhe permitem nem o descanso da cadeia...

O escrivão, parado ante a mesa, esperava as ordens. O Meritíssimo perguntou:

— Que advogados estão aí, pelos corredores?

— Quando passei, não vi nenhum. Aliás, vi o doutor Artur Sampaio mas ia saindo para a rua.

— Estudantes?

— Só o Costinha, aquele quartanista...

— Não, esse não serve, é melhor para o réu não ter defesa. Costinha condena até a Virgem Santíssima, se um dia a defender. Será que não tem ninguém que se encarregue desse infeliz? Será que vou ser obrigado a adiar o julgamento mais uma vez? É intolerável!

Eis que, nesse momento exato, penetra no gabinete do juiz o jovem Damião de Souza em sua roupa branca, já de colarinho de ponta virada, a personagem mais conhecida do Fórum, uma espécie de ajudante-geral, às ordens de juízes, advogados, escrivães, meirinhos. Duas ou três vezes empregara-se em escritório de advocacia mas sempre por pouco tempo, preferia os biscates certos e variados do Palácio da Justiça. Aprendeu nos corredores e cartórios, nas sessões de júri, em portas de xadrez, nas delegacias, tudo quanto se relacionasse com crimes e criminosos, processos e autos, petições, requerimentos. Rapazola, aos dezenove anos era a salvação de jovens advogados ainda com aftim da Faculdade, bêbados de teoria, ignorantes de qualquer prática. Damião não chegava para as encomendas.

Ao vê-lo, sorridente, uma folha de papel na mão:“Doutor Santos Cruz, o senhor poderia despachar esta petição do doutor Marino?”, o juiz recordou-se de uma conversa com o rapaz, quando, certa feita, o recebera em casa, em noite de São João:

— Deixe a petição aí, depois eu vejo. Diga-me uma coisa, Damião, com que idade você está?

— Acabo de completar dezenove, doutor.

— Continua disposto a requerer carta de rábula?

— Se o Senhor do Bonfim me ajudar. Tão certo como um e um são dois.

— Você se sente capaz de subir na tribuna do júri e defender um réu?

— Se sou capaz? Doutor, sem lhe faltar o respeito, vou lhe dizer: posso fazer melhor do que todos esses estudantes de direito que praticam mandando os pobres pra cadeia. E digo mais: melhor do que muito advogado.

— Você conhece os autos do crime cujo julgamento está em pauta na sessão de hoje? Sabe alguma coisa do caso?

— Para dizer a verdade, dos autos não sei nada, do crime ouvi falar. Mas se é para defender o homem, baixe a portaria me designando, doutor, me dê meia hora para uma vista nos autos e uma conversa com o réu .e lhe juro que boto ele na rua. Se quiser tirar a prova, experimente.

O juiz voltou-se para o escrivão, num ímpeto: — Teixeira, lavre em termo a designação de Damião para defender o réu, ex-ofício, à falta de outro defensor. Entregue-lhe os autos para que ele. possa tomar conhecimento da matéria, e reúna o júri daqui a uma hora, exatamente. Enquanto isso, vou despachar outros assuntos, aqui mesmo. Arranje-me café quente. Se você se sair bem,Damião, conte com sua carta de rábula.

Zé da Inácia praticara crime feio e no primeiro júri tinha sido condenado a trinta anos de prisão por frio assassinato. O Conselho de Sentença não lhe reconhecera atenuantes nem levara em conta seus bons antecedentes.

Carregando a mala de um mascate sírio, ladeira abaixo, ladeira acima, a troco de algumas moedas que mal davam para o de-comer de Caçula, companheira de muitos anos, Zé da Inácia, aos domingos, tomava invariavelmente seu porre semanal, chegava em casa às quedas. Na segunda-feira, de retorno à mala, seguia seu Ibrahim de freguês em freguês, calado, pacato, incapaz de discutir, de reclamar, sob a chuva e sob o sol a pino.

Num domingo qualquer, em botequim de canto de rua, travou conhecimento comum certo Afonso Boca Suja e juntos esvaziaram uma garrafa de branquinha. Foram beber a segunda em casa de Zé da Inácia, na companhia de Caçula. De começo muito cordial, Boca Suja revelou-se implicante e insolente e quando Zé da Inácia se deu conta, estava ferrado numa discussão com xingos de cabrão, engole-taca e nome de mãe. Na delegacia, ao lhe perguntarem o motivo da briga, Zé da Inácia não soube responder. O assunto da discussão perdera-se na cachaça: viu-se de faca em punho, gasta e afiada lâmina de cozinha. Em sua frente, empunhando uma acha de lenha, Boca Suja a ameaçá-lo: “vou lhe rachar no meio, seu chibungo!“ Caiu de um lado Boca Suja, varado pela faca, morto de vez, caiu do outro Zé da Inácia, inconsciente da cachaça e da paulada. Quando voltou a si era assassino preso em flagrante delito, e na delegacia, para começo de conversa, aplicaram-lhe uma surra das boas.

No primeiro júri, após mais de um ano de espera na cadeia, o promotor falara em perversidade congênita, exibira o seu Lombroso. Observem, Senhores Jurados, a cabeça do indigitado réu: crânio típico de assassino. Sem falar na cor escura: as teorias mais modernas, defendidas pelo ilustre professor de Medicina Legal de nossa colenda Faculdade, doutor Nilo Argolo, autoridade inconteste, assinalam o alto percentual de criminalidade dos mestiços. Ali, no banco dos réus, encontra-se uma prova a mais do acerto dessas teses.

Descrevera a vítima, Afonso da Conceição, um pobre trabalhador, estimado na vizinhança, incapaz de fazer mala quem quer que fosse. Passaram em casa do réu para dois dedos de prosa, fora alvo da sanha assassina do monstro ali sentado. Observem-lhe a face: nem um traço de remorso. Pediu a pena máxima.

Não tinha Zé da Inácia dinheiro para advogado, na cadeia fazia pentes de chifre, espátulas, recebia umas poucas moedas, mal davam para os cigarros. Caçula arranjara trabalho em casa de umas sobrinhas do falecido Major Pestana, em cuja fazenda nascera. Para ela o Major era símbolo da bondade e da grandeza: “enquanto o Major foi vivo nada me faltou, êta homem mais bom !“ Alguma coisa de bom devia ter também Zé da Inácia pois Caçula não o abandonou, aos domingos ia vê-lo na prisão, transmitia-lhe ânimo e esperança: “quando vier o júri tu sai livre se Deus quiser”. E dinheiro para doutor advogado? “O juiz me disse que ele mesmo bota um, tu pode ficar com o pensamento em paz.”

Advogado ex-ofício, o doutor Alberto Alves roía as unhas na sala de júri: não lera os autos, sequer, e deixara a esposa, a trêfega Odete em cochichos e risinhos com Félix Bordalo, um canalha. Naquela hora já estariam aos beijos e ele sem poder fazer nada para impedir os cornos, amarrado ali, à obrigação de defender o criminoso sentado no banco dos réus. Bastava ver-lhe a cara, as medidas do crânio, para dar toda razão ao promotor: aquela fera solta era um perigo para a sociedade. Será que Odete? Mas, que dúvida, não era a primeira vez, antes houvera o caso com o tal de Dilton. As juras de fidelidade de Odete valem menos do que as de inocência do réu confesso, do criminoso de cabeça baixa: reincidentes por natureza, uma e outro. Vida de merda!

Defesa abaixo da crítica, vazia de argumentos. Doutor Alves nada negou, nada contestou, ao júri pediu apenas clemência na aplicação da justiça. Parece mais um ajudante da promotoria, pensou o juiz, doutor Lobato, na hora de ditar a sentença condenatória, trinta anos de prisão: os jurados exigiam a pena máxima.

— O advogado de defesa não vai apelar da sentença? — perguntou, indignado ante a indiferença do criminalista. — Creio que deve fazê-lo.

— Apelar? Com certeza. — Não fosse a reprimenda do juiz, Alberto Alves nem se lembraria da apelação: — Apelo da sentença para o Egrégio Tribunal.

Voltava agora Zé da Inácia a segundo julgamento, por três vezes adiado devido à ausência do advogado ex- oficio. Na tribuna de defesa, senta-se Damião de Souza.

Era outro o promotor e, igual ao doutor Alberto Alves no primeiro júri, o bacharel Augusto Leivas na tribuna da acusação pensava em mulher mas não em termos de chifrudo e, sim, de feliz amante. Marília rendera-se final-mente e o promotor via o mundo azul. Não percebeu na cor de Zé da Inácia a predestinação fatal ao crime nem lhe mediu com Lombroso o crânio de assassino. Cumpriu a tarefa com o pensamento longe, nos encantos de Marília: adorável de impudor, sentada nua na cama.

Preocupado com a designação do defensor ex-ofício, resultante de um impulso, o juiz respirou ante o fraco libelo acusatório e deu por certa a redução da pena para dezoito ou doze anos, talvez seis, por pior que fosse a defesa do jovem Damião.

Acontece, porém, que a estreia de Damião de Souza na tribuna do júri converteu-se na maior sensação da temporada, comentada na Justiça durante longo tempo, no dia seguinte notícia de gazeta. Notícia de gazeta seria Damião daí por diante, a vida inteira.

Manuel de Praxedes ia passando em frente ao Fórum, viu o movimento, perguntou o porquê de tanta gente e soube que lá dentro estreava um novo advogado, mocinho ainda mas que colosso na tribuna! Manuel de Praxedes entrou para ver, Damião atingia o momento culminante. Ao final, o bom gigante não se conteve: bateu palmas, pediu bis aos gritos, foi expulso do recinto.

Aliás, por mais de uma vez, o juiz viu-se obrigado a tocar a sineta, exigir silêncio, ameaçar a assistência com a evacuação da sala, mas o fez sorrindo. Há muito não se via júri com assistência tão rumorosa e emocionada.

A defesa de Damião foi uma epopeia, participou do romance de amor, da tragédia grega, do folhetim barato, da Bíblia e houve a citação na hora certa de comentada sentença do “Meritíssimo Juiz, nobre mestre do Direito, doutor Santos Cruz”. Resumindo, viu-se o boníssimo Zé da Inácia levado ao crime para salvar a honra de seu lar e a própria vida, uma e outra ameaçadas pelo vil traidor Afonso Boca Suja. Uma vítima do destino, o réu ali sentado: esposo amantíssimo, homem trabalhador por excelência, sob o sol ardente com a mala do mascate, a ganhar com o suor de seu rosto — do rosto só, não, Senhores do Conselho de Sentença, do corpo inteiro, porque a mala do turco pesa toneladas! — o sustento da esposa adorada. Um dia, esse cidadão generoso e probo abriu as portas de sua amizade e confiança a uma víbora: Afonso Boca Suja — o nome já diz tudo, Senhores Jurados, boca suja, sujo coração! Hiena feroz, ébrio contumaz, violento e libertino, pretendeu roubar a Zé da Inácia o amor da esposa, manchar-lhe a honra do lar. Imaginai, Senhores, essa tragédia grega! Ao chegar da rua, cansado da labuta — apesar de ser dia de domingo, fora trabalhar —, depara-se Zé da Inácia com a cena dantesca: a pobre Caçula a lutar contra o infame que, armado com a faca da cozinha, tentava possuí-la à força já que a santa criatura repelira, indignada, suas propostas desonrosas. Corre Zé da Inácia em socorro da esposa. Deu-se a luta e, em defesa da honra de seu lar e da própria vida, Zé da Inácia, pacífico trabalhador, esmagou a serpente imunda.

Damião abre os braços e pergunta: Senhores do Conselho de Sentença, sois esposos e pais, homens de honra, respondei: Qual de vós ficaria impassível se, ao chegar em casa, visse a esposa em luta com um canalha? Qual? Nenhum, tenho certeza.