Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 2 de 77

Páginas do PDF

Tenda dos Milagres

De como o poeta Fausto Pena, bacharel em ciências sociais, foi encarregado de uma pesquisa e a levou a cabo

De como o poeta Fausto Pena, bacharel em ciências sociais, foi encarregado de uma pesquisa e a

 

levou a cabo

 

ENCONTRARÃO os leitores, nas páginas que se seguem, o resultado de minha pesquisa em torno da vida e da obra de Pedro Archanjo. Este trabalho foi-me encomendado pelo grande James D. Levenson, e pago em dólares. Impõem-se alguns esclarecimentos preliminares, pois tal assunto resultou, do começo ao fim, um tanto absurdo, insensato jogo de equívocos. Ao rever minhas notas, não posso fugir à evidência nelas expressa: sob muitos aspectos o contrassenso e o disparate permanecem, tudo confuso e obscuro apesar de meu esforço, real e ingente, creiam-me ou não. Ao falar em dúvidas e incertezas, em imprecisões e mentiras, não me refiro apenas à vida do mestre baiano e, sim, ao conjunto de fatos, em sua complexidade: dos sucessos do passado distante às ocorrências dos dias de hoje com a sensacional entrevista de Levenson, da inaudita bebedeira nos festejos dos cinquenta anos até a noite do solene encerramento das comemorações do centenário. No que se refere à reconstituição da vida de Pedro Archanjo, a tanto não me propus nem o exigiu o sábio da Colúmbia, cujo interesse reduzia-se aos métodos de pesquisa e estudo e às condições de trabalho capazes de gerar e permitir a criação de obra tão viva e original. Encomendou-me apenas a colheita de dados através dos quais pudesse ter melhor ideia da personalidade de Archanjo, sobre quem ia escrever algumas páginas, espécie de prefácio à tradução de suas obras.

Da existência de Archanjo escaparam-me não só detalhes mas fatos importantes, talvez vitais. Com frequência encontrei-me ante o vazio, um hiato no espaço e no tempo, ou em face de acontecimentos inexplicáveis, múltiplas versões, interpretações disparatadas, completa desordem no material recolhido, informações e informantes contraditórios. Nunca cheguei a saber, por exemplo, se a negra Rosa de Oxalá foi ou não a mesma mulata Risoleta descendente de malês, ou a tal de Doroteia do pacto com

o diabo. Houve quem a personificasse em Rosenda Batista dos Reis, vinde de Muritiba, enquanto outros atribuíam a narrativa à formosa Sabina dos Anjos, “de todos os anjos o mais belo”, no galanteio de mestre Archanjo. Afinal, era uma única mulher ou eram criaturas diferentes?Desisti de saber e, ao demais, não creio que ninguém o saiba.

Confesso ter renunciado, por cansaço ou irritação, a elucidar certas hipóteses, a pôr a limpo pormenores quem sabe definitivos, tal a barafunda dos relatos e a discordância das notícias. Tudo se resumia em “talvez”, “pode ser”, “se não foi assim, foi assado” — absoluta falta de consistência e segurança, como se aquela gente não tivesse os pés na terra e visse no finado não um ser de carne e osso e, sim, uma coorte de heróis e mágicos, tantas e tais façanhas lhe atribuem. Jamais consegui estabelecer o limite entre a informação e a invenção, a realidade e a fantasia.

Quanto a seus livros, eu os li, de cabo a rabo, tarefa aliás de pouca monta — apenas quatro livrinhos, e o mais volumoso não alcança sequer as duzentas páginas (um editor de São Paulo vem de reunir três deles num único tomo, deixando à parte apenas o de culinária, já que seu caráter especial possibilita-lhe público mais amplo). Não vou opinar sobre a obra de Archanjo, hoje acima de qualquer debate ou restrição; ninguém se atreve a negá-la, após sua definitiva consagração por Levenson, e as várias traduções, o sucesso em toda parte. Ainda ontem li no serviço telegráfico dos jornais: “Archanjo publicado em Moscou com louvores do Pravda”.

Posso, quando muito, acrescentar meus elogios ao elogio universal. Direi ter-me agradado a leitura: muita coisa referida por Archanjo ainda hoje é parte de nossa vida, do quotidiano da cidade. Diverti-me, e muito, com o penúltimo de seus quatro livros (consta que ao morrer preparava novo volume), aquele que lhe trouxe tantos aborrecimentos, tantas dificuldades. Agora, ao ver certos tipos arrotando sangue azul, árvore genealógica, brasões, avoengos nobres e outras tolices, pergunto-lhe o nome da família e lá vou eu encontrá-lo na lista estabelecida por Archanjo, tão meticuloso e sério, tão apaixonado pela verdade em sua obra.

Resta-me explicar como entrei em contacto com o sábio norte-americano e vi-me honrado com sua escolha. O nome de James D. Levenson dispensa qualquer apresentação ou comentário, e o fato de haver-me confiado o difícil encargo, deixa-me vaidoso e grato. De nosso breve convívio, guardo amável lembrança, apesar dos pesares.Simples, risonho e cordial, bem posto e elegante, é a negação dos sábios das caricaturas, velhos, bolorentos, enfadonhos.

Aproveito para pôr os pontos nos ii num aspecto dessa minha colaboração com o ilustre professor da Colúmbia, miseravelmente explorada pela maledicência dos invejosos e recalcados. Não satisfeitos com se imiscuírem em minha vida íntima, em arrastar na lama, onde se cozem viver, o nome de Ana Mercedes, tentaram incompatibilizar-me com a esquerda, alardeando ter-me eu vendi-do, a mim próprio e à memória de Archanjo, ao imperialismo norte-americano, por um punhado de dólares.

Ora, qual a ligação entre Levenson e o Departamento de Estado ou o Pentágono? Longe disso, a posição de Levenson é considerada bem pouco ortodoxa pelos reacionários e conservadores, e seu nome ligado a movimentos progressistas, a manifestações contra a guerra. Quando lhe foi concedido o Prêmio Nobel por sua contribuição ao desenvolvimento das ciências sociais e humanas, a imprensa europeia ressaltou exatamente a juventude — mal atingira a casa dos quarenta — e a independência política do laureado, a torná-lo suspeito em certos meios oficiais. Aliás, a obra de Levenson está aí, ao alcance de qualquer um, esse imenso panorama da vida dos povos primitivos e subdesenvolvidos, que alguém classificou de “dramático clamor de protesto contra um mundo injusto e errado”.

Em nada concorri para a divulgação dos livros de Archanjo nos Estados Unidos, mas considero tal divulgação uma vitória do pensamento progressista, tendo sido o baiano, como foi, um libertário, sem ideologia, é certo, mas de incomparável paixão popular, bandeira de luta contra o racismo, o preconceito, a miséria e a tristeza.

Cheguei a Levenson pelas mãos de Ana Mercedes, autêntico valor da jovem poesia, hoje dedicada por completo à música popular brasileira, redatora na época de um matutino local e encarregada de cobrir a curta estada do sábio em nossa cidade. Tão bem cumpriu o mandato de seu diretor, que se fez inseparável do americano, acompanhante e intérprete, dia e noite. Sua recomendação pesou certamente na minha escolha, mas dai a dizerem o que disseram dela e de mim alguns canalhas, vai grande distância e um mar de infâmia: antes de contratar-me, Levenson teve ocasião de medir minha capacidade.

Juntos fomos os três à festa de Yansan no terreiro do Alaketu e ali pude exibir minha cultura especializada,demonstrando-lhe meus conhecimentos e minha valia. Num misto de português e espanhol, somando meu parco inglês ao de Ana, ainda mais parco, expliquei-lhe as diversas cerimônias, disse-lhe os nomes dos orixás, a razão de movimentos, gestos e posições, falei de danças e cantigas, das cores dos trajes, e de tanta coisa mais — quando estou de veia, sou bom de prosa, e o que não sabia, inventei, pois não me encontrava em estado de perder os prometidos dólares, dólares e não desvalorizados cruzeiros, metade dos quais me foram pagos pouco depois, no hall do hotel, onde, um tanto a contragosto me despedi.

Já nada mais tenho a explicar, tudo está dito. Acrescento apenas, com certa melancolia, não ter sido meu trabalho, este meu trabalho, levado em consideração pelo grande Levenson. Tão logo o concluí, dele lhe enviei cópia a máquina, conforme o acertado, juntando um dos dois únicos documentos fotográficos que me foi possível descobrir e obter: no descolorido retrato, vê-se um mulato pardo, jovem e forte, metido em roupa escura, posudo — eis Archanjo, recém-nomeado bedel da Faculdade de Medicina da Bahia. Achei por bem não enviar a outra foto, onde mestre Pedro, já velho e descuidado, um trapo, é vis-to em companhia de duvidosas mulheres empinando o copo, em evidente esbórnia.

Uns quinze dias depois, entregou-me o correio carta assinada pela secretária de Levenson, acusando o recebimento de meu texto e remetendo um cheque em dólares, correspondente à metade ainda por pagar e a umas quantas despesas, que fiz ou poderia ter feito, necessárias ao sucesso da pesquisa. Pagaram tudo sem discutir centavo e mais pagariam com certeza, não fosse eu tão modesto em minhas pretensões, tão tímido em minha lista de despesas.

De todo o material enviado, o sábio usou apenas a fotografia ao publicar em inglês a tradução de boa parte da obra de Pedro Archanjo, num dos volumes de sua monumental enciclopédia sobre a vida dos povos da África, da Ásia e da América Latina (“ENCYCLOPEDIA OF LIFE IN THE TROPICAL AND UNDERDEVELOPED COUNTRIES”), na qual colaboraram os maiores nomes do nosso tempo. Nas páginas introdutórias, Levenson praticamente não se preocupou com a análise dos livros do baiano; pouquíssimas são as referências à sua vida. Bastante, porém, para demonstrar-me não ter ele sequer lançado um golpe de vista em meu texto. Em seu prefácio, Archanjo é promovido a professor, a membro eminente da Congregação da Faculdade de Medicina (“distinguished Professor, member of the Teacher’s Council”), por cuja conta e encargo realizara suas pesquisas e publicara seus livros, imagine-se! Quem impingiu tais patranhas a Levenson, não o sei, mas houvesse ele ao menos folheado meus originais, não teria incorrido em erro assim grosseiro — de bedel a professor, ah! meu pobre Archanjo, só te faltava mais esta!

Nem uma vez ao menos meu nome é citado nem há referências a este trabalho nas páginas de James D. Levenson. Assim sendo, sinto-me livre e à vontade para aceitar a proposta que vem de me fazer o senhor Dmeval Chaves, o próspero livreiro da Rua da Ajuda, agora também editor, para a editoração e comércio destas despretensiosas páginas. Impus uma única condição: o estabelecimento de contrato em termos pois, segundo dizem, o senhor Chaves, tão opulento e rico, é duro no pagamento dos direitos autorais, seguindo aliás uma tradição local — já o nosso Archanjo foi vítima de um tal Bonfanti, também livreiro e editor, com negócio no Largo da Sé, em tempos idos, como se verá adiante.