Tenda dos Milagres
Capítulo 13
Xangô sumiu no mato, o ombro em sangue, a.dança de chicotes. Os bandidos espalharam-se atrás dos fugitivos. Ah! se pegassem Felipe Muxelê com seu Xangô! Ah! se pusessem as mãos em cima de Manuel de Praxedes, que maravilha! Nem rastro no mato escuro, apenas o pio das corujas.
A destruição dos objetos rituais não acalmou a fúria, o ódio dos cruzados. Era pouco. Puseram fogo no barracão, as chamas consumiram o Terreiro de Sabaji. Para exemplo.
Por muitos anos prolongou-se a guerra santa, a cruzada civilizadora. Durante o império de Pedrito Gordo, dândi e delegado, bacharel com leituras e teorias, a violência foi quotidiana, sem apelo ou proteção. O doutor Pedrito prometera acabar com a feitiçaria, o samba, a negralhada. “Vou limpar a cidade da Bahia.”
13
Dias depois, ao sair de casa no Beco das Baronesas, após o almoço, Manuel de Praxedes recebeu nas costas a carga inteira do revólver de Samuel Cobra Coral. Um tiro atrás do outro, seis ao todo. Caiu de bruços, nem disse ai.
Acorreu gente de todos os lados, o assassino informou: — Para deixar de ser valente. Abram caminho que vou passar.
O povo não abriu caminho. Aos gritos de vingança cercou o criminoso e a indignação era tamanha que a empáfia do matador se desfez em mijo. Teve medo de morrer, justiçado ali na rua. Largou a arma, pediu clemência,pôs-se de joelhos. Vieram os guardas, afastaram a turba, conduziram o preso. Alguns populares acompanharam a patrulha até à Chefia de Polícia.
Entregues às autoridades competentes o criminoso e a arma do crime, os populares foram mandados embora. O administrador de um cinema da Baixa dos Sapateiros ainda reafirmou ao delegado:
— Foi preso em flagrante no ato de matar.
— Deixe conosco, vá descansado.
Na mesma tarde, por volta das dezoito horas, em companhia de Zé Alma Grande, Inocêncio Sete Mortes, Mirandolino, Zacarias da Gomeia, Ricardo Cotó, em risadas e ameaças, o secreta da delegacia auxiliar Samuel Cobra Coral, assassino preso em flagrante e entregue à polícia para ser posto à disposição da justiça, passou em frente ao Beco das Baronesas onde o corpo de Manuel de Praxedes estava sendo velado por companheiros e amigos.
O delegado Pedrito Gordo perguntara: — O que foi que aconteceu?
— Um macumbeiro me atacou na rua, xingou a mãe do senhor, meu Chefe, e quis meter a mão na minha cara. Atirei nele, não ia apanhar de feiticeiro.
Guerra é guerra, disse o delegado auxiliar. A escolta de secretas subiu e desceu a rua, fez ponto num botequim,bebeu não pagou. Guerra é guerra e soldado em guerra santa tem direito a regalias.
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Entrevada de reumatismo, Zabela explodia em dores e indignação: — Tadeu é um ser civilizado, esses Gomes são uns cascas-grossas, uns jagunços do Sertão. Por que esse não? Por que são ricos?
— Porque são brancos.
— Brancos? Mestre Pedro, não me venha com brancuras na Bahia. Não me faça rir, que não posso, as dores me cortam. Quantas vezes já lhe disse que branco puro na Bahia é como açúcar de engenho: tudo mascavo. Isso no Recôncavo, quanto mais no Sertão. Esses Gomes não merecem um rapaz como Tadeu. Se não fosse Lu, um amor de moça que vem aqui me visitar, leva horas conversando... Se não fosse por ela, eu aconselharia Tadeu a procurar família melhor. Esses Gomes, francamente. Eu os conheço muito bem, a avó, mon cher, essa velha Eufrásia que agora não sai da igreja, foi da pá virada...
Pedro Archanjo não escondia o ressentimento:
— Essa casta é toda igual. Uns dizem o que pensam: negro e mulato só na senzala. Outros declaram-se liberais, igualitários, vai-se ver e a falta de preconceito dura até a hora em que se fala em casamento. Mais cordial e sem besteira do que foi essa família com Tadeu, ninguém podia ter sido. Quando estudante, Tadeu não saía de lá. Almoçava, jantava, dormiu muitas noites no quarto do colega, era mesmo que um filho. Mas falou em casamento, a coisa muda de figura. Zabela, me diga com franqueza; se tivesse uma filha, você a daria em casamento a um negro,a um mulato? Responda a verdade.
Sobrepondo-se às dores, “estou sendo devorada por uma matilha de cães, mordem-me o corpo todo”, a velha ergueu-se na cadeira:
— Pedro Archanjo, não admito! Se eu tivesse vivido minha vida em Santo Amaro, em Cachoeira ou aqui, nomeio dos Argolos, dos Ávilas, dos Gonçalves, talvez você pudesse me fazer essa pergunta. Você se esquece que vivi a maior parte de minha vida em Paris? Se eu tivesse uma filha, mestre Pedro, ela casava com quem quisesse, branco, preto, chinês, turco de prestação, judeu de sinagoga, com quem ela quisesse. E se não quisesse, não casava — gemia de dores, arriava na cadeira: — Ouça um segredo, mestre Pedro: na cama não há como um bom negro, já dizia minha avó Virgínia — piscou o olho redondo de malícia: — Minha avó Virgínia Argolo, casada com o coronel Fortunato Araújo, o Negro Araújo. Mulher sem papas na língua, esfregava vovô Fortunato nas fuças daquelas baronesas mascavas de engenho de açúcar: “Não troco um ovo do meu Negro por duas dúzias dos brancos de vocês!“ — outra vez indignada, a velha retornava ao assunto da conversa: — Recusar Tadeu, um ser civilizado, que absurdo!
— Não recusei Tadeu, vou casar com ele, se Deus quiser! — a voz de Lu respondeu do corredor.
Exclamações patéticas de Zabela, “ma chérie, ma pauvre filie, mon petit”, um sorriso no rosto turvo de Archanjo:
— Por aqui, Lu?
— Bom dia, Zabela. A benção, meu pai.
Meu pai: assim Lu o tratava há bastante tempo. Em folia de amigas, reinação de moças, aos cuidados de Archanjo, Lídio e frei Timóteo, fora ao candomblé. Vira as feitas, as iaôs e mesmo homens, alguns de cabeça branca,beijarem a mão de Archanjo: a benção, meu pai. Por que pai? — perguntou a Lídio Corró. Pelo respeito que devem e devotam a Ojuobá; a família de Pedro Archanjo é esse povo todo e muito mais. Daí em diante ela lhe disse “meu pai” e lhe pediu a benção, meio em brincadeira, meio a sério.
No cais, na primeira despedida de Tadeu, Lu comparara as duas faces, a de seu namorado e a de Archanjo. Tamanha semelhança e são apenas padrinho e afilhado,mais parecem pai e filho, valha-me Deus!
Sempre reticente nas referências à família, conversa pouco de seu agrado, Tadeu nunca aludia ao pai, não conhecera aquele misterioso Canhoto de quem provinha. Quanto à mãe, recordava-lhe apenas a beleza. “Meu pai morreu deixando-me pequenino, nem me lembro dele;minha mãe era bonitona, quando se deu conta de meu desejo de estudar, me entregou a padrinho Archanjo. Pouco depois faleceu, eu ainda estava tirando os preparatórios.”Assunto encerrado, ponto final.
Curiosa, Lu rondou a confusa adivinha dos Canhotos.Por pouco tempo, porém, pois em seguida sentiu o desgosto de Tadeu, ferido em seus melindres:
— Querida, é comigo ou é com meus pais que você vai se casar?
Nunca mais Lu tocou no assunto, mas, quem sabe, talvez a princípio houvesse dito “meu pai” com malícia ou secreta intenção. Archanjo não se deu por achado, a sorrir consentiu no tratamento. Punha-lhe a benção e, para corresponder no mesmo tom de gracejo ao afeto e ao respeito contidos na expressão da moça, dizia-lhe “minha filha pequena, axé !“, como se ela fosse filha-de-santo de Terreiro.
Na sala, arrodilhada aos pés de Zabela, Lu explica:
— Lá em casa o ambiente ainda está um tanto pesado.Aproveitei que o velho saiu e vim correndo até aqui para respirar. Agora que Tadeu voltou para. o Rio, Mamãe afrouxou um pouco a vigilância, já não tem tanto medo que eu fuja para casar com ele.
— Se fugisse, era seu direito. E o dele.
— O melhor é mesmo aguardar, são somente oito meses, passam depressa para quem já esperou três anos. No dia em que eu completar vinte e um e for maior de idade,ninguém poderá me impedir.
De quem teria sido a ideia da conveniência dessa espera, de Lu ou de Tadeu? Pedro Archanjo gostaria de saber. Gostaria, realmente?
— Pode ser que nesse meio tempo as coisas mudem lá em casa. Tadeu acha que pode acontecer. Afinal, será melhor casar com o consentimento da família, viver em harmonia.
Ideias tão cordatas, de quem partiam? Da moça, do engenheiro? Ah! Tadeu Canhoto, sobes a escada, com pressa e com prudência
Ganhando bem, carreira iniciada com sucesso, cercado de consideração, benquisto pelo Chefe e pelos colegas de trabalho, Tadeu obtivera suas primeiras férias em três anos, e partira para a Bahia, portador de uma carta de Paulo de Frontin para o coronel Gomes: “Caro senhor,tomei conhecimento da intenção do doutor Tadeu Canhoto de solicitar em casamento a mão de sua digna filha e desejo antecipar-lhe os parabéns. O pretendente trabalha comigo há três anos, é um dos engenheiros mais dotados e capazes entre quantos estão transformando a velha cidade do Rio de Janeiro em grande e moderna capital”.Prosseguia em elogios ao rapaz: “moral ilibada, caráter adamantino, talento fulgurante”, para ele estavam abertas todas as estradas do sucesso. Voltava a congratular se com a família Gomes pelos felizes esponsais, certo de que genro melhor não podiam o coronel e sua excelentíssima esposa desejar.
De nada adiantaram carta e louvação do ilustre personagem. Recebido entre demonstrações de alegria, “olhe quem nos aparece, Tadeu, esse ingrato”, o ambiente se transformou por completo quando, tendo pedido para falar a sós com o coronel, Tadeu lhe entregou a carta de seu Chefe e pediu a mão de Lu.
Foi tal a surpresa inicial do fazendeiro que não só leu a carta até o fim como escutou sem interromper as breves palavras complementares do engenheiro:
— ... pedir a mão de sua filha Lu. Só então o sorriso se apagou nos lábios do coronel:
— Você diz que quer casar com Lu? — a voz do fazendeiro continha apenas surpresa, voz neutra, perplexa.
— Exatamente, coronel. Nós nos amamos e queremos nos casar.
— Você... — de repente a mudança foi total, a voz ganhou duro acento de cólera: — O senhor quer dizer que Lu está a par dessa sua ridícula pretensão?
— Eu não viria à presença do senhor, coronel, sem estar por ela autorizado e não consideramos ridícula a nossa
— acentuou o possessivo — pretensão.
Urro de animal ferido e perigoso, o grito do coronel Gomes atravessou a casa:
— Emilia, venha cá, depressa! Traga Lu! Depressa! Olhos de inimigo, fitou Tadeu como se antes jamais o houvesse visto. Dona Emília entrou enxugando as mãos no avental; dirigia a cozinheira na confecção de sobremesas ao agrado de Tadeu que certamente jantaria com a família do colega, fraternal amigo. Quase ao mesmo tempo, apareceu Lu a sorrir, nervosa e tensa. A ela se dirigia o fazendeiro:
— Minha filha, este senhor aqui presente surpreende-me com absurdo pedido e diz que o faz com teu consentimento. É mentira dele, não é?
— Se o senhor quer dizer que Tadeu veio pedir minha mão, é verdade tudo que ele lhe disse. Amo Tadeu e quero casar com ele.
Era visível o esforço do coronel para se controlar e não partir para a moça, às bofetadas. Uma boa surra é o que ela merecia.
— Retire-se. Depois conversaremos.
Lu sorriu animosa para Tadeu, deixou a sala. Dona Emília, ao ouvir a espantosa novidade, gemera uma espécie de grunhido surdo: ai, Senhor!
— Você sabia alguma coisa sobre isso, Emilia? Sabia e me escondeu?
— Sabia tanto quanto você, não sabia nada. Para mim é a maior surpresa. Ela nunca deixou transparecer.
Não lhe perguntou o coronel a opinião ou por imaginar conhecê-la ou, porque, a seu ver, esposa é para os cuidados da casa e não para dar parecer .em assuntos graves. Dirigiu-se a Tadeu:
— O senhor abusou da confiança que em si depositamos. Por ser colega de meu filho, nós o recebemos em casa sem levar em conta sua cor e sua procedência. Dizem que o senhor é inteligente, como então não se deu conta que não criamos filha para negro? Agora saia e não volte nunca mais a esta casa senão será posto na rua a pontapés.
— Ainda bem que o defeito de que me acusa é somente minha cor.
— Saia! Rua!
Em passo comedido, Tadeu se retirou enquanto dona Emília arriava com tonturas. Os gritos do coronel em fúria vinham morrer na calçada. Lu ia enfrentar as feras,pensou Tadeu. Era forte e estava preparada. Na véspera, em casa de Zabela, haviam examinado o problema em todos os detalhes, na previsão das diversas possibilidades, para cada uma buscando solução. Tadeu Canhoto amava os cálculos matemáticos, o traçado de linhas justas, as decisões nascidas do estudo e da análise.
A despeito de esperar a recusa, Pedro Archanjo ficou fora de si, deblaterou, perdeu a cabeça, coisa que tão raramente acontecia. “Só perco a cabeça por mulher”, costumava dizer.
— Hipócritas! Corja de ignorantes! Brancos de merda! Foi Tadeu quem o conteve:
— Que é isso, Padrinho? Calma, não insulte meus parentes. São uma família de fazendeiros ricos como outra qualquer, possuem os mesmos preconceitos. Para o coronel, casar a filha com um mulato é uma desgraça, prefere que ela viva histérica e morra solteirona. Nem por isso são más pessoas, e, no fundo, penso que mesmo esse preconceito é superficial, não resiste ao tempo.
— Você ainda os desculpa, toma a defesa deles! Tadeu Canhoto, agora sou eu quem se surpreende.
— Não tomo a defesa deles nem os desculpo, Padrinho. Não há, a meu ver, nada pior do que o preconceito de cor, nada melhor do que a mistura de raças, aprendi com o senhor em seus livros e em seu comportamento. Apenas não quero, por isso, fazer dos Gomes uns monstros, eles são boa gente. Tenho certeza de que Astério, a quem nada comuniquei, pois queria lhe fazer uma surpresa, vai nos apoiar. Não faz outra coisa nas cartas que me envia senão criticar o racismo norte-americano, “inaceitável para um brasileiro”, segundo escreve.
— “Inaceitável para um brasileiro!” Mas na hora de dar a mão da filha ou da irmã em casamento a um mulato ou a um negro, agem igualzinho a um racista norte-americano.
— Padrinho, afinal quem se surpreende sou eu. Não foi o senhor quem sempre disse que o problema de raças e sua solução situavam-se de maneira não só diferente mas oposta no Brasil e nos Estados Unidos, que a tendência aqui, apesar dos obstáculos, era a comunhão de raças, a mistura? E então? Só porque surge um desses obstáculos, o senhor muda de opinião?
— A verdade é que fiquei com raiva, Tadeu, com mais raiva do que esperava. E agora o que você pensa fazer?
— Casar com Lu, é claro.
Tanto bastou para que a cólera de Pedro Archanjo se transformasse em ação: — Traço um plano de rapto e fuga num instante.
— Rapto e fuga? Não é fácil.
— Já fiz coisas mais difíceis.
Via-se à frente da romanesca operação: capoeiristas guardando a rua, Lu fugindo de casa pela madrugada, envolta em susto e em negro albornoz, um saveiro de velas enfunadas a levar os noivos para esconderijos no Recôncavo, o casamento às escondidas, a raiva dos Gomes. Não por acaso mestre Pedro Archanjo misturava às suas leituras científicas os romances de Alexandre Dumas: “aliás um mulato, filho de francês e negra, feliz combinação !“
— Não, Padrinho. Nem rapto nem fuga. Lu e eu já decidimos tudo. Daqui a oito meses Lu completará vinte e um anos, será maior de idade, dona de seu destino. Se até lá não se tiver quebrado a resistência dos velhos, e para isso espero contar com Astério, no mesmo dia do aniversário ela sairá de casa para ser minha esposa. Será melhor assim.
— Você acha?
— Nós achamos, Lu e eu. Mesmo que não se consiga até lá o beneplácito do coronel, o fato de termos esperado a maioridade de Lu facilitará as coisas depois. Para mim também tem certas conveniências. Volto amanhã. Para o Rio, regressarei daqui a oito meses.
Pedro Archanjo não disse sim nem não, aliás ninguém lhe pedira conselho. Na Tenda dos Milagres, Lídio Corró deslumbrava os amigos contando os êxitos de Tadeu na Capital: Paulo de Frontin nada resolvia, nenhum detalhe dos grandes planos urbanísticos, sem lhe ouvir a opinião, nomeara-o responsável pelas tarefas mais difíceis. Na prática, Tadeu construía o novo Rio de Janeiro.