Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 45 de 77

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Tenda dos Milagres

Capítulo 3

— Não é fácil — repetiu o sergipano — estamos em época de provas, como vou arranjar tempo?

— Meia página, professor, coisa sucinta, apenas o essencial. Desejo esclarecer que se trata de uma encomenda:a agência lhe pagará o texto.

O professor Calazans elevou a voz, sério, quase ofendido:

— Isso, jamais! Não estou metido nesse assunto para ganhar dinheiro e, sim, para servir à memória de Pedro Archanjo. Não me fale em dinheiro.

Arno Melo sacudiu a cabeça: aquele não tinha jeito, um caso perdido. Por que diabo, então, o achava tão simpático? Gastão Simas desculpava-se:

— Não está mais aqui quem falou em pagamento, professor. Perdoe-me. Posso mandar buscar o texto amanhã pela manhã?

— Não dá, Gastão. Hoje vou corrigir provas, amanhã, de oito ao meio-dia, estarei na Faculdade. Onde vou arranjar tempo para redigir um texto?

— Pelo menos, professor, algumas notas, alguns dados. Aqui faremos a redação.

— Dados, notas? Bem, isso pode ser. Mande um portador à minha casa, amanhã. Deixarei com Lúcia.

A fulva secretária trouxe copos de gelo. Tão muda e queda mas para que gastar em palavras a boca de sorrisos e promessas, cansar em vil trabalho o corpo de ver-se e regalar-se?

3

DADOS FORNECIDOS À AGÊNCIA DOPING S.A. PELO PROFESSOR CALAZANS.

Nome:

Pedro Archanjo.

Data e local de nascimento:

18 de dezembro de 1868, na Cidade do Salvador, Estado da Bahia.

Filiação:

Filho de Antônio Archanjo e de Noemia de Tal, mais conhecida por Noca de Logunedê. Do pai sabe-se apenas ter sido recruta na Guerra do Paraguai na qual morreu durante a travessia do Chaco, deixando a companheira grávida de Pedro, primeiro e único filho.

Estudos

Tendo aprendido sozinho a ler, frequentou o Liceu de Artes e Ofícios onde adquiriu noções .de diversas matérias e da arte tipográfica. Distinguiu-se em português e desde cedo foi dado à leitura. Já homem maduro aprofundou-se no estudo da antropologia, da etnologia e da sociologia. Para fazê-lo aprendeu francês, inglês e espanhol. Seus conhecimentos da vida e dos costumes do povo eram praticamente ilimitados.

Livros:

Publicou quatro livros — “A vida popular na Bahia” (1907); “Influências Africanas nos Costumes da Bahia”(1918); “Apontamentos Sobre a Mestiçagem nas Famílias Baianas” (1928); “A Culinária Baiana: origens e preceitos” (1930), livros hoje considerados fundamentais para o estudo do folclore, o conhecimento da vida brasileira nos fins do século passado e nos começos do atual, e sobretudo para a compreensão do problema de raças no Brasil. Ardente defensor da miscigenação, da fusão de raças, Pedro Archanjo foi, na opinião do sábio norte-americano (Prêmio Nobel), James D. Levenson, “um dos criadores da moderna etnologia”. Sua obra completa acaba de ser reeditada, em dois volumes, pela Editora Martins, de São Paulo, na “Coleção Mestres do Brasil”, anotada e comentada pelo professor Artur Ramos, da Faculdade de Letras da Universidade do Brasil. Os três primeiros livros foram reunidos num tomo sob o título geral de “Brasil, País Mestiço” (título dado pelo professor Ramos), enquanto o livro sobre culinária constitui tomo à parte. Relegada ao esquecimento durante muitos anos, a obra de Pedro Archanjo tornou-se internacionalmente conhecida e admirada. Foi publicada em inglês, nos Estados Unidos, integrando a notável Enciclopédia sobre a vida dos povos subdesenvolvidos, editada sob os auspícios da Columbia University (Nova Iorque). Neste ano de 1968, nas comemorações de seu centenário de nascimento, muito se tem escrito sobre Pedro Archanjo. Destacam-se os trabalhos do professor Ramos e o prefácio à tradução americana de seus livros, de autoria de Levenson: “Pedro Archanjo, um criador de ciência”.