Tenda dos Milagres
Capítulo 8
— Kirsi vive no gelo?
— Uma cidade chamada Helsinque, na Finlândia.
— Eu sei, Kirsi é sueca, tão boazinha. Mandou carta?
Saca do envelope o retrato do menino: carta não tem, apenas umas frases em francês, palavras em português. Sabina toma da fotografia, que sedução de criatura! Tão delicado e terno, a cabeleira crespa, os olhos de Kirsi, um donaire, esplêndida e perturbadora beleza. Sabina eleva os olhos do retrato para o filho na rua, em correria.
— Também é bonito... — a qual dos dois se refere? — São diferentes e parecidos, é engraçado. Por que tu só faz filho homem, Pedro?
Sorri Archanjo, junto à boca aflita de Sabina, na porta.
— Entra. Vem. — a voz pesada, morna.
— Tenho muito que fazer.
— Desde quando tu não tem mais tempo para fazer menino? — passa-lhe o braço em torno do pescoço — Tomei banho agorinha, ainda estou molhada.
No cheiro do cangote, na carnação maciça, lá se perdeu o destino de Pedro Archanjo — a que horas desembocará na Tenda dos Milagres onde Lídio e Tadeu o esperam? Sabina dos Anjos, dos anjos o mais belo, rainha de Sabá no império de seu leito. Cada uma sua vez e o imprevisto. Houve um tempo em que ele foi inteiramente livre, tendo de ofício apenas o amor vadio. Agora,não.
8
— Diga-me, meu amigo, quanto vai custar. Sou pior do que pobre, sou arruinada, sabe o que isso significa Durante muito tempo, fui mão-aberta, esbanjei dinheiro, agora sou forreta. Faça um preço camarada, não abuse deuma velha coroca.
Lídio não é barateiro: ninguém se lhe compara no risco de milagres, contenta o freguês e o santo, nunca ouviu reclamação, é o predileto de Nosso Senhor do Bonfim. Chovem as encomendas e, em certos meses, rende mais a pintura das promessas do que a tipografia. Já recebeu fregueses do Recife e do Rio e um inglês lhe encomendou quatro peças de uma vez.
— Qual foi o santo milagreiro e o que fez?
— Ponha os santos que quiser, as doenças que lhe apetecer.
Tão maluco o gringo quanto a patusca senhora em sua frente, a ameaçá-lo com a sombrinha, os cabelos brancos de algodão, a pele encarquilhada, as pelancas e a magrém, a idade à mostra, mais de sessenta feitos, certamente. Sessenta ou trinta? Petulante, falastrona, disposta: a energia férrea e a história do gato libertino com sua nojenta safra de perebas:
— Sou uma velha arruinada mas não me queixo.
Um dia fora a riquíssima Princesa do Recôncavo em pompa e luxo. Dona de plantações de cana, de engenhos de açúcar, de escravos, de sobrados nas cidades de Santo Amaro, Cachoeira e Salvador. Por ela suspiraram os galãs da corte e em duelo um oficial feriu de morte o noivo da catita, bacharel em direito. Depois, no encalço de seus favores, arruinaram-se banqueiros e barões. Teve vida acidentada, muitos amores, palmilhou o mundo; títulos, cargos e fortunas aos seus pés. Nunca se deu por dinheiro e os que, para tê-la, gastaram loucamente em joias, palacetes, carruagens, só a tiveram quando conseguiram lhe acender no peito a chama do desejo ou inspirar-lhe ao menos breve inclinação; amorosa insaciável era de capricho fácil e coração volúvel.
Com a chegada das rugas, das cãs e dos dentes falsos, dissolveu a fortuna em régios presentes, dando-os aos gigolôs com a mesma non chalança com que em moça os recebera. O festim da vida passou a lhe custar absurdamente caro e, sem vacilar, pagara o preço exigido:valia a pena. Reduzida por fim a ossos magros, no físico e nas finanças, retornou à Bahia, com o gatarrão e a lembrança do deboche desatinado e diminuto. Por que tão parco, por que não fora mais?
Viera tratar o risco de um milagre: preço, prazo, condições. O felino, Argolo de Araújo de nome, recolhera nos telhados e no cio das gatas abominável carrego de sarna. Em poucos dias caíra-lhe o pelo, aquele veludo negro-azul onde a velhota afunda os dedos recordando amores. Até médicos consultara, “nessa terra não tem veterinário”; dispendera dinheiro nas farmácias, em pomadas e poções, tudo inútil. A cura se deveu a São Francisco de Assis, de quem era devota — entre beijos, em Veneza, um poeta lhe ensinara a amar o mendigo de Deus; repetia-lhe na cama o sermão às aves, e, ao fugir, levou-lhe a bolsa, o poverello!
Confuso em meio a tanto palavreado e riso, mestre Lídio dá o preço do trabalho. — a velhota mais parece cômica de teatro. Ei-la a pedinchar, a discutir, sem cerimônia, dona de indefinível encanto. Em certos momentos some-se a velhice, fulge a mocidade e a sedução;a arrogante Princesa do Recôncavo faz-se gentil mundana aposentada, familiar, encantadora. A barganha prolongou-se pois a anciã sentara-se para melhor regatear e, ao fazê-lo, deu com o cartaz do Moulin Rouge, na parede, teve um choque:
— Oh, mon Dieu, c’est le Moulin!
A língua solta e dissoluta dispara a contar quanto vi-vera, o mundo por onde andara, as maravilhas vistas e havidas; a relembrar músicas, peças de teatro, exposições, passeios, festas, queijos, vinhos e amantes. Entregue ao prazer das recordações, alegria dupla porque não lhe restava outra e, sendo pobre e velha, um dia fora opulenta e louca. No entusiasmo dos detalhes mistura francês e português na narrativa pontilhada de exclamações em espanhol, inglês e italiano.
Pedro Archanjo chegou do reino de Sabá na hora exata da partida da vetusta marinheira em sua viagem de circunavegação e com ela embarcara em riso deslumbrado. Levantaram âncoras em Montmartre, com escalas em cabarés, teatros, restaurantes, galerias de Paris e de seus arredores ou seja, o resto do mundo. Porque, saibam os amigos, existe Paris e o resto: o resto, oh! la, la! c’est la banlieu.
Feliz de contar: os sobrinhos-netos não tinham paciência de escutá-la nas raras e rápidas visitas a seu tugúrio, casinha fronteira ao convento da Lapa, onde vegetava com o gato e uma empregada broca. Velha da pá virada, seu nome completo era Senhora Dona Isabel Tereza Gonçalves Martins de Araújo e Pinho, de direito condessa da Água Brusca. Para os íntimos, Zabela.
Pergunta-lhe Pedro Archanjo se conhecia Helsinque.Não, em Helsinque não estivera. Em Petrograd, sim, eem Estocolmo, Oslo, e Copenhague. Por que o amigo fala da Finlândia com essa intimidade? Andou por lá, de embarcadiço? Mas o amigo não parece homem do mar,seu jeito é de professor ou bacharel.
Archanjo ri seu riso cordial. Nem bacharel nem professor — quem sou eu, Madama! —, tampouco embarcadiço; simples contínuo da Faculdade e um abelhudo das letras, um curioso. A ligação com a Finlândia, ai, era de amor. Exibe-lhe o retrato e a condessa demorou-se a admirar a face do menino: lavor e sedução. Numa caligrafia culta, Kirsi traçara palavras em português, poucas e categóricas, a cobrir a distância do mar e do tempo: amor, saudade, Bahia. Uma frase inteira em francês; Isabel Tereza faz a tradução, inútil, pois. Archanjo a sabe de memória: nosso filho cresce belo e forte, chama-se Oju como o pai, Oju Kekkonen, comanda os garotos e enamora as meninas, um pequeno feiticeiro.
— O amigo chama-se Oju?
— Meu nome de cristão é Pedro Archanjo mas em nagô sou Ojuobá.
— Tenho vontade de ver macumba. Nunca assisti.
— Quando quiser, terei gosto em acompanhá-la.
— Tem coisa nenhuma, não seja mentiroso. Quem deseja a companhia de uma velha caduca? — ri com malícia, mede o mulato forte e bonito, o amante da finlandesa: — O menino é sua cara.
— Mas parece também com Kirsi. Vai ser o Rei da Escandinávia. — Archanjo solta o riso e a Princesa do Recôncavo, Zabela para os íntimos, o acompanha na gaitada, encantadíssima.
— Peça a seu Lídio pra fazer um desconto no preço, tão caro não posso pagar mas reconheço que vale mais. — era tão gentil quanto Corró e Archanjo, quanto um homem do povo da Bahia.
Lídio correspondeu, de imediato: — Dê o preço a senhora mesma.
— Isso também não quero.
— Então, não se preocupe. Risco o milagre e, quando ficar pronto, a senhora paga o que quiser.
— O que quiser, não: o que puder.
Tadeu atravessa a porta, com livros e cadernos. Zabela o compara com Archanjo, sorri discreta. Crescera o aprendiz em adolescente robusto e airoso; quando ria, um sedutor.
— Meu afilhado, Tadeu Canhoto.
— Canhoto? É nome ou apelido?
— Foi o nome que a mãe lhe pôs, quando nasceu. Tadeu entrara para os fundos da casa.
— Estudante?
— Trabalha aqui, ajuda compadre Lídio na oficina, e estuda. No ano passado fez quatro preparatórios, teve um oito, dois noves e uma distinção — o orgulho vibra por detrás da voz de Archanjo: — Vai fazer mais quatro este ano e, no próximo, termina. Quer entrar para a Faculdade.
— Vai estudar o quê?
— Quer fazer engenharia. Vimos ver se será possível. Para um pobre, não é fácil cursar a Faculdade, Madama. A despesa é grande.
Tadeu volta à sala, abre livros sobre a mesa mas percebe o retrato:
— Posso ver? Quem é, padrinho?
— Um parente meu... distante. — tão distante, do outro lado do mundo.
— É o menino mais bonito que já vi — toma dos cadernos, tem deveres a estudar.
A condessa da Água Brusca, a Senhora Isabel Tereza Gonçalves Martins de Araújo e Pinho, torna-se cada vez mais íntima Zabela. Explica verbos franceses a Tadeu, ensina-lhe gíria. Degusta o licor caseiro — licor de cacau, fabrico de Rosa de Oxalá, néctar sublime! — como se provasse a melhor champanha. Quando partiu deixou saudades.
— O melhor, seu Lídio — disse, despedindo-se — é o amigo passar lá em casa para conhecer Argolo de Araújo, assim poderá pintá-lo fielmente, é o gato mais lindo da Bahia. E o de pior caráter.