Tenda dos Milagres
Capítulo 5
Certa feita, sumiu durante dias, quando os amigos deram tento foi um rebuliço. Procura que procura, em toda parte, e nada: onde estará vivendo? Desde que deixara a mansarda sobre o mar, moradia de trinta anos, nunca mais teve dormida certa, mudou de quarto e cama cada mês, viveu ao deus-dará. Finalmente descoberto por Ester, dona de casa de mulheres no Maciel de Cima, casteleira respeitada e sua filha pequena. Quando mocinha e garçonete de café, fizera santo. Já a velha Majé Bassan mal podia andar e Ojuobá muito a ajudou a conduzir aquele barco de iaôs ao porto seguro do ôrunkó, dia do nome. Na hora de raspar Ester, Majé Bassan, sem forças, tomou de empréstimo a mão de Ojuobá, deu-lhe a navalha.
Numa pocilga infecta, sem leito, sem colchão, um cobertor rasgado, um trapo, o caixote com livros — miséria assim Ester ainda não vira —, Archanjo queimava de febre e dizia que não era nada, simples resfriado. O médico diagnosticou princípio de pneumonia, receitou pílulas e injeções e o imediato traslado do enfermo. Para hospital jamais, opôs-se Archanjo, em hospital não punha os pés. Pobre em hospital ,é defunto certo. O médico sacudiu os ombros: para qualquer lugar onde um cristão possa viver, não pode de maneira alguma permanecer nesse buraco úmido onde nem os ratos resistem.
Nos fundos do castelo, Ester tinha um quartinho destinado ao garção que servia cerveja, vermute e conhaque aos fregueses, assegurava a ordem e protegia as raparigas.Funções tão várias e responsáveis achavam-se entregues à competência de Mário Formigão. Sarará dobrado e pai de família exemplar, residia com a mulher e os filhos. O quartinho encontrava-se vago. Casa de putas, não era lugar para pai Ojuobá, mas outro jeito não viu Ester já que o velho cabeçudo não admitia falar em hospital.
Naquele quarto dos fundos do castelo de Ester, um cubículo estreito, viveu os últimos tempos, feliz da vida.De emprego em emprego .— não eram mais empregos: bicos, biscates — atravessou sem comemorações os setenta anos de idade; antes de completar os setenta e um a guerra teve começo e foi seu emprego único, ocupou-lhe os dias,as horas, os minutos.
Em todos os recantos da cidade, dos castelos aos mercados, das feiras às tendas, das oficinas aos terreiros, nas casas e nas ruas, discutiu e se exaltou. Tudo quanto pensara e fizera estava em jogo, corria perigo, perigo mortal.
Foi soldado e general, ele, o paisano mais paisano. Tático e estrategista, traçou e desenvolveu batalhas. Quando todos desanimaram e se deram por vencidos, ele assumiu o comando de um exército de mulatos, de judeus, de negros, de árabes, de chineses, e partiu a enfrentar as hordas do nazismo. Vamos, meu bom, vencer a morte desatada, a infame!
5
Inveterado andarilho, o velho acompanhou o desfile, do ponto de partida no Campo Grande até à Praça da Sé onde a imponente manifestação pela passagem do quarto aniversário da Segunda Guerra Mundial se encerrou num Comício Monstro. Para aguentar a caminhada, forrara com pedaços de papel os sapatos furados na sola, já não procurava esconder as manchas do paletó, os rasgões da calça.
As forças antifascistas haviam reunido milhares de manifestantes, um jornal falou em vinte e cinco mil pessoas, outro em trinta mil. Estudantes, intelectuais, operários, homens públicos, gente do povo de todas as categorias sociais. À luz de archotes acesos com o proibido petróleo brasileiro — cuja existência era oficialmente negada; muitos foram vítimas de processo e cumpriram pena de prisão porque a afirmaram —, em imensa e vagarosa procissão, a massa se deslocava a repetir slogans, em gritos de viva e morra.
Bandeiras dos países aliados, cartazes e faixas, enormes retratos dos líderes da guerra contra o nazi-fascismo. Abrindo o cortejo, aos ombros dos membros da diretoria da Frente Médica, o retrato de Franklin Delano Roosevelt. O velho reconheceu, a segurar os varais daquela espécie de andor, o professor Fraga Neto, a cabeça erguida, o cavanhaque polêmico, o bigode ruivo. Fora dos primeiros a romper com as proibições policiais e a reclamar em praça pública o envio de tropas brasileiras para os campos de batalha.
Seguiam-se os retratos de Churchill, de Stalin, entre delirantes aclamações, de De Gaulle, de Vargas. Duas palavras de ordem dominavam a passeata. A primeira, exigia a formação imediata de um Corpo Expedicionário, capaz de retirar à declaração de guerra do Brasil às potências do Eixo o caráter puramente simbólico para transformá-la em participante realidade. A outra, reclamava medidas que efetivassem a pesquisa e a exploração do petróleo brasileiro, já provadamente descoberto no Recôncavo. Ouviam-se também os primeiros apelos de anistia aos presos políticos. Quanto à liberdade, o povo a estava conquistando na prática, em passeatas e comícios. O velho esmolambado e vagaroso não perdia manifestação, tinha preferência por determinados oradores, era capaz de distinguir a coloração política de cada um, todos agora em frente única pela vitória na guerra.
Diante da Escola Politécnica, em São Pedro, o desfile fez breve parada e de uma janela no primeiro andar elevou voz fogosa na denúncia dos crimes do nazismo racista e totalitário, no elogio dos soldados da democracia e do socialismo. Cada palavra arrancava aplausos. Com esforço, o velho subira num banco para ver melhor o orador, um de seus preferidos, Fernando de Sant’Ana, aluno de engenharia e líder inconteste dos estudantes, voz cheia, frases redondas. Magro e moreno, da mesma cor de Tadeu. Muitos anos antes, quando da Primeira Guerra Mundial, o velho ouvira o estudante Tadeu Canhoto exigir daquela mesma janela a participação do Brasil no conflito contra o militarismo germânico. Aquela primeira grande guerra não o afetara maiormente, se bem houvesse gasto saliva e argumentos a favor da França e da Inglaterra. Vibrava, isso sim, com os discursos de Tadeu, a fascinante inteligência do rapaz, a frase justa, o raciocínio claro. Há poucos dias, lera nos jornais, entre elogios ao “talento do notável urbanista baiano”, a notícia da nomeação do engenheiro Tadeu Canhoto para Secretário de Obras Públicas da Prefeitura do Distrito Federal. Os Gomes haviam-se mudado para o Rio de Janeiro, a fim de ajudar na criação dos netos finalmente nascidos. Tratamento de Lu, na França, ou promessa de dona Emilia ao Senhor do Bonfim, na Bahia?
Agora é diferente: o velho bebe, ávido, cada palavra do moço estudante, árdego mestiço a acusar o racismo, juventude impetuosa a vislumbrar o futuro. Desce do banco: nessa guerra é veterano, nela combate há muitos anos, em suas trincheiras consumiu a vida.
Novamente deteve-se o cortejo na Praça Castro Alves e a multidão sobrou para a Barroquinha, a Montanha, uma parte ainda na Ladeira de São Bento. Dali, do meio da ladeira, o velho de passo tardo viu o Major no pedestal do monumento ao Poeta, o dedo em riste. O velho só pôde ouvir os aplausos, até ele não chegavam as palavras do orador. Nem era necessário: conhecia-as todas, termos e frases, os adjetivos grandiloquentes, as interjeições, oh!povo, povo da Bahia! Distribuído na cidade inteira, justiça dos pobres, esperança dos presos, providência dos necessitados, saber dos analfabetos, Rábula do Povo, o seu menino Damião, de pé no pequeno degrau da estátua. Já um tanto quente àquela hora, uma boa quantidade de cachaça no bucho, lúcido e brilhante, jamais alguém conseguiu surpreendê-lo bêbado. Cada um dos outros oradores era representante dessa ou daquela organização, frente, sindicato, classe, união, partido perseguido e clandestino. Só o Major falava pelo povo. Quase ao nível da rua, sobre o pequeno degrau da estátua.
Em serpenteio gigantesco a passeata subiu a Rua Chile, da sacada do Palácio o Interventor acenou para a multidão. Da Prefeitura, o professor Luís Rogério dirigiu a palavra à massa: Venceremos! O velho lembra-se dele, mocinho, estudante de medicina no pândego enterro simbólico do professor racista; no Terreiro, em discurso contra a demissão do bedel.
Na Praça da Sé, em alegre palanque de bandeiras, o comício de encerramento. O velho se infiltra no aperto, pede passagem, quando por acaso o reconhecem abrem-lhe caminho. Consegue aproximar-se do tablado. Jovem,alto e belo mulato cabo verde, voz de baixo, discursa em nome da Frente Médica antifascista, seu nome é doutor Divaldo Miranda. Formado recentemente, o velho não o conhecera mas eis que, naquele primeiro de setembro de 1943, o rapaz evoca acontecimentos esquecidos, desenterra sombras e fantasmas. Refere-se a estudo para projeto de lei de autoria de um certo professor da Faculdade de Medicina, Nilo Argolo de Araújo, pelo qual os mestiços brasileiros seriam isolados em regiões inóspitas do país e os que resistissem vivos ao clima e às enfermidades deportados para a África. A proposta não teve seguimento, provocou riso e indignação. Quando Hitler assumiu o poder na Alemanha e anunciou o começo do milênio racista, o professor ainda era vivo e o saudou em delirante artigo: O ENVIADO DE DEUS. Enviado de Deus para exterminar negros e judeus, árabes e mestiços, a mulataria sórdida, para transformar em lei o projetado genocídio.
Na Praça a admirar o moço tão belo e impetuoso, o velho recordou um diálogo, antigo de mais de trinta e cinco anos. Vinha de publicar seu primeiro livro e o professor Argolo o interpelara no corredor da Escola. “Trata-se de um cancro — dissera o lente, referindo-se à mestiçagem —, há que extirpá-lo. A cirurgia aparenta ser forma cruel de exercer-se a medicina, em realidade é benéfica e indispensável.” Archanjo, jovem de peito aberto igual ao moço na tribuna, prendera o riso e perguntara: “Matar-nos a todos, um a um, professor?” Luz amarela, de fanatismo, acendera-se nos olhos do catedrático. Pronunciou a impiedosa, implacável condenação: “Eliminar a todos,um mundo só de arianos, de seres superiores, conservar apenas os escravos indispensáveis às tarefas torpes”. Um gênio, um líder, um enviado de Deus tomaria em suas mãos a espantosa ideia, invicto senhor da guerra a cumprir missão suprema: limpar o mundo de judeus árabes e amarelos, varrer do Brasil “essa escória africana que nos enlameia”.
Tudo quanto o professor reclamara e previra fizera-se realidade. Tudo quanto o velho pregara e defendera estava em perigo. Teses e ideias em confronto, novamente. Não.mais num debate intelectual, agora de armas na mão. Corria o sangue, as legiões de soldados empunhavam a morte.
Se Hitler vencesse, Hitler ou outro qualquer fanático racista, poderia terminar com todos eles, na morte e na escravidão? O professor disse que sim, conclamou o líder capaz de fazê-lo, das brumas da Alemanha Hitler respondeu: Presente! Se vencesse, poderia acabar com o povo, em mortos e escravos? O velho busca uma resposta nas palavras dos oradores.
Giocondo Dias, revolucionário provado na ação, saudou os combatentes do mundo livre em nome dos trabalhadores brasileiros e disse a palavra anistia, repetida pela massa num clamor contínuo que só foi se extinguir quando as portas das prisões se abriram, às vésperas da vitória. Nestor Duarte, professor de direito, escritor, a voz rouca, a palavra candente, atacou as limitações à liberdade, produtos da ditadura, reclamou democracia, “em defesa da democracia os soldados empunham as armas contra o nazismo”. Rosto apaixonado e sofrido, na voz a dor dos ghetos e dos pogroms, o professor Tzalie Jucht representa os judeus. Figura popular e benquista, orador de vôo largo, Edgard Mata encerra o comício em gongórico vaticínio:“Flagelo de Satanás, Besta do Apocalipse, Hitler rastejará na lama da derrota !“
A multidão aplaude, gritos, palmas, entusiasmo e pressa. Movimenta-se a massa colossal, comprime-se,começa a evacuar a Praça. Aos empurrões, o velho busca saída, lá se vai com a pergunta sem resposta: alguém poderá realmente terminar com todos eles? Hitler ou um outro qualquer, hoje ou amanhã? Quase esmagado, aproveita o caminho aberto por um marinheiro, escapa, respira com dificuldade.
Inicia a marcha em direção ao Terreiro de Jesus, a dor o atinge, brusca. Não é a primeira vez. Tenta apoiar- se na parede do Palácio Episcopal mas não a alcança. Vai cair, a moça acorre e o sustém. Refaz-se o velho, o coração se recompõe, a dor cede, agora é fino corte de punhal, distante.
— Obrigado.
— O que é que o senhor está sentindo? Diga, sou estudante de medicina. Quer que o leve a um hospital?
Tinha horror aos hospitais, pobre em hospital é encomenda de caixão de defunto. Não foi nada, apenas no meio do aperto fiquei com falta de ar senti-me sufocado. Nada sério, muito obrigado.
Os olhos gastos fitam a moça morena que o ampara. Beleza sua conhecida, íntima, familiar. Ah! só pode ser a neta de Rosa! A doçura, o dengue, a ânsia, a sedução, a extrema formosura, ele a reconhece inteira:
— Você é a neta de Rosa? A filha de Miminha? — a voz infinitamente cansada porém alegre.
— Como sabe?
Tão igual e tão diferente, quantos sangues se misturaram para fazê-la assim perfeita? Os longos cabelos sedosos, a pele fina, os olhos azuis e o denso mistério do corpo esguio e abundante.
— Fui amigo de sua avó. Assisti ao casamento de sua mãe. Como é seu nome?
— Sou Rosa, como ela. Rosa Alcântara Lavigne.
— Estuda medicina?
— Estou no terceiro ano.
— Pensei que nunca fosse ver mulher tão bonita quanto sua avó. Rosa Alcântara Lavigne... — olhou a moça nos olhos azuis, francos e curiosos, herança dos Lavigne. Ou dos Alcântara? Olhos azuis, pele morena: — Rosa de Oxalá Alcântara Lavigne...