Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 65 de 77

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Tenda dos Milagres

Capítulo 18

De xeretas no casamento, só uma: a avó de Lu. Doida por um dedo de prosa sobre a loucura da neta, menina de cabeça dura a abandonar a família por um escurinho pé- rapado, dirigira-se à casa de Zabela, amiga dos tempos de mocinha, que amiga!

— Ah! dona Eufrásia, a madama foi para o casamento. Quem me dera assistir! — a empregada desfazia-se em excitação.

— O casamento? De minha neta? De Lu? É hoje? Onde?

Na casa de Silva Virajá? Depressa, chofer! Talvez ainda chegue a tempo de ver alguma coisa. Chegou quando frei Timóteo abençoava os noivos, na hora do beijo.

Zabela percebeu um vulto na outra sala: nom de Dieu, parece Eufrásia.

— Minha gente, chers amis, chegou a representante da família, la grand-mére veio abençoar a neta. Entrez, Eufrásia, entrez!

Hesitou por uma fração de segundo. Logo sorriu para a senhora Silva Virajá, deu um passo à frente e contemplou a neta: linda no vestido de noiva, véu e grinalda sobre os cachos loiros, a sorrir pelos lábios e pelos grandes olhos, ao lado do marido tão distinto no fraque bem talhado, o rosto sério, um morenaço e tanto. Andou para Lu e Tadeu, que se danasse o bobalhão do genro! Afinal aquele não era o primeiro mulato a barrunchar nos leitos da família. Quem bem sabe sou eu, não é mesmo, Zabela?

Por detrás dos outros convidados, Pedro Archanjo e Lídio Corró viram Tadeu cair nos braços da avó Eufrásia Maria Leal da Paiva Mendes.

18

A guerra santa do delegado auxiliar Pedrito Gordo prosseguiu anos a fora e aos poucos a tenaz resistência de mães e pais-de-santo começou a ceder. Na crônica da vida urbana, na roda de samba, na cantiga de capoeira, o povo registrava os lances da perseguição:

“Não gosto de candomblé

Que é festa de feiticeiro

Quando a cabeça me dói

Serei um dos primeiros.”

Muitos babalorixás e iyalorixás levaram axé e santos para longe, expulsos do centro/ e dos bairros vizinhos para as roças distantes, locais de difícil acesso. Outros tomaram dos orixás, dos instrumentos, dos trajes, dos itás, das cantigas e danças, do baticum, dos ritmos, e se transferiram para o Rio de Janeiro — assim chegou o samba à então capital do país, nas caravanas de baianos fugitivos. Alguns terreiros menores não puderam resistira tanta perseguição, desapareceram de vez. Vários reduziram o calendário de festas às obrigações imprescindíveis, realizadas às escondidas.

Somente uns poucos persistiram em luta de morte: as grandes casas de tradição antiga, com dezenas e dezenas de feitas. Nos dias de festa, quando os atabaques batiam no chamado dos santos, o povo desses terreiros enfrentava as incursões da polícia, a prisão, as surras:

“Acabe coeste

Santo Pedrito vem aí

Lá vem cantando ca ô cabieci

Lá vem cantando ca ô cabieci.”

Os secretas, às vezes sob o comando do próprio Pedrito, infestavam a noite da Bahia em busca de candomblés e batuques, o pau comia solto:

“Toca o pandeiro

Sacuda o caxixi

Anda depressa

Que Pedrito Evém ai.”

De 1920 a 1926, enquanto durou o reinado do todo- poderoso delegado auxiliar, os costumes de origem negra, sem exceção, das vendedoras de comida até os orixás, foram objeto de violência contínua e crescente. O delegado mantinha-se disposto a acabar com as tradições populares, a porrete e a facão, a bala se preciso.

O samba de roda foi exilado para o fim do mundo, ruelas e casebres perdidos. As escolas de capoeira fecharam suas portas, quase todas. Budião andou uns tempos escondido, Valdeloir comeu da banda podre. Com os capoeiristas, a coisa fiava mais fino, os secretas não os enfrentavam de peito aberto, tinham medo. De longe e pelas costas, era mais seguro. De quando em vez o corpo de um capoeirista aparecia crivado de balas na madrugada, tiros de tocaia, obra da malta de facínoras. Assim morreram Neco Dendê, Porco Espinho, João Grauçá, Cassiano do Boné.

Entre as vítimas de atropelos e brutalidades, nesse período de fúria desatada, encontrava-se o pai-de-santo Procópio Xavier de Souza, babalorixá do Ilê Ogunjá, um dos grandes candomblés da Bahia. Enfrentou Pedrito e foi por ele perseguido e castigado sem tréguas. Constantemente preso, tinha nas costas as marcas de chicotes de couro cru, lanhos de sangue. Nada o abateu, não se deixou derrotar. O povo cantava nas ruas:

“Procópio tava na sala

Esperando Santo chegá

Quando chegou seu Pedrito

Procópio passa pra cá.”

“Galinha tem força n’asa

O galo no esporão

Procópio no candomblé

Pedrito é no facão.”

Procópio não silenciou os atabaques, não fugiu de casa para o mato ou para o Rio de Janeiro, A roda das feitas diminuiu, de enorme ficou pequena, ogans se recolheram à espera de melhores tempos. Procópio prosseguiu: — Meu santo ninguém vai me impedir de festejar.

Banhado em sangue, a roupa em trapos, em frente a Pedrito Gordo, na sala da Delegacia Auxiliar, renova o desafio: sou babalorixá, festejo meu santo, meu pai Oxossi.

— Por que não deixa de ser cabeçudo, imbecil? Não vê que seus santos não valem nada? Quer morrer de apanhar?

— Tenho de venerar meus orixás, nos dias de festa tenho de bater para eles, é minha obrigação. Mesmo que o senhor me mate.

— Ouça, animal sem inteligência: vou lhe soltar mas se ousar bater candomblé outra vez, atente bem, será a última. A última!

— Não vou morrer antes do dia determinado por Deus. Oxossi me defende..

— Não vai? Esses santos de vocês não valem nada, se valessem já teriam me matado. Acabo com todos eles no chicote e estou aqui, bem vivo. Cadê o feitiço que ia me matar?