Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 30 de 77

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Tenda dos Milagres

Capítulo 3

Não foram às bofetadas, desiludindo mais uma vez os empregados, sempre na esperança de ver um dia o patrão embolar em luta corporal; ao contrário, juntos retrabalharam o texto e depois partiram rua a fora, no fim da tarde, quando a viração chega do mar e sobe pelas ladeiras. “Gosta de antiguidades?”, perguntou-lhe o comerciante. “Sou mais do modernismo”, confessou Amo, mas foi com o rabugento aos antiquários, em ruelas e becos — pela primeira vez entrava num bric-à-brac. Viu lampiões arcaicos, navetas de prata, anéis, joias mirabolantes, bancos e marquesas, pinhas de cristal, gravuras de Londres e de Armsterdam, um oratório pintado à mão e um santo de madeira, antigo. Amo obteve de súbito o condão da beleza.

No dia seguinte, no escritório, sujeitando o layout reformulado à aprovação final de Gastão Simas, Arno Melo lhe disse: — Meu velho, você é quem tem razão: na Bahia não há clima para esse troço, não dá pé. Se eu tivesse um jeito, largava essa merda, ia bater pernas pelas ruas. Me digauma coisa, Gastão: você já viu a fachada da Igreja da Ordem Terceira?

— Porra!, menino, eu nasci aqui.

— Pois eu já fiz um ano de Bahia, já passei por alimais de mil vezes, e nunca tinha parado para reparar ever. Sou um cavalo, seu Gastão, um animal, um infeliz, um filho da puta de agência de publicidade.

Gastão Simas suspirou: assim não era possível.

3

O comparecimento à segunda reunião da Executiva reduziu-se de muito; assim sucede sempre: segunda reunião não dá direito a fotógrafo nem a noticiário de primeira página — duas linhas, se muito, em página interna.

Os presidentes da Academia e do Instituto fizeram-se representar pelo professor Calazans, integrante das diretorias das duas instituições. Também os diretores da Faculdade de Medicina e de Filosofia e o Superintendente do Turismo desculparam-se, alegando compromissos anteriores, ao mesmo tempo em que empenhavam acordo e apoio a qualquer medida ou decisão.

Da Faculdade de Filosofia veio o professor Azevedo, em caráter pessoal, trazido pelo projeto de seminário, entusiasta da ideia. O professor Ramos escrevera-lhe do Rio, pedindo sua ajuda para a organização do simpósio: “pode resultar num acontecimento magno para a cultura brasileira — o primeiro debate sistematizado e em bases realmente científicas a propósito do problema racial, mais em evidência e candente do que nunca, explodindo em conflito por todas as partes, especialmente nos Estados Unidos onde o Poder Negro é um fator novo e sério; agravando-se na África do Sul onde parece ter se fixado a herança do nazismo”. O professor Azevedo tinha em preparo documentada tese sobre a contribuição de Archanjo à solução brasileira do problema, a ser sujeita ao conclave que, conforme propusera ao professor Ramos, podia usar como epígrafe uma frase de mestre Pedro nos “Apontamentos Sobre a Mestiçagem nas Famílias Baianas”: “Se o Brasil concorreu com alguma coisa válida para o enriquecimento da cultura universal, foi com a miscigenação — ela marca nossa presença no acervo do humanismo, é a nossa contribuição maior para a humanidade”.

A secretária do Centro de Estudos Folclóricos compareceu: lutando bravamente por um lugar ao sol entre tantos etnólogos, antropólogos, sociólogos, todos de mestrado feito, a maioria beneficiária de bolsas de estudo em universidades e boates estrangeiras, apoiados em equipes,em batalhões de alunos e assistentes, — ela, autodidata e artesã, escoteira a vasculhar e a cavar sozinha suas pesquisas, não podia perder aquela oportunidade. Mocetona forte e disposta, Edelweiss Vieira figurava entre as poucas pessoas a conhecer na Bahia a obra de Archanjo. Além dela e do professor Azevedo, apenas o secretário-geral Calazans: “quando aceito uma responsabilidade é para levá-la a sério”.

Viera também o gerente da Doping S.A., armado com pasta de couro, papéis, esquemas, Organogramas, layouts; apenas chegado; trancara-se em companhia do gerente do jornal, no gabinete do diretor. Doutor Zezinho mandou pedir a Calazans e a seus colegas que “aguardassem um minuto, por favor”. Ficaram batendo papo na redação.

O macabro Ferreirinha, arrastando o secretário-geral da Executiva para o vão de uma janela, confidenciou-lhe aziagos receios: as coisas não iam bem, “o czar está com cara de cemitério”. Conhecedor da fama de alarmista do secretário de redação, o sergipano não lhe deu maior crédito. Os tempos eram de boataria solta, de previsões pessimistas, de quotidiano melancólico e intranquilo. Mas,quando finalmente a porta do gabinete se abriu, dando saída a Gastão Simas e ao gerente do- matutino, Calazans notou restos de vigília e sobressalto no disfarce do rosto aparentemente aberto e cordial do doutor Zezinho. “Por favor, disse ele, entrem e desculpem-me a demora”.

Ainda de pé, Calazans informou: — Mestre Neto não pôde vir e o senador está em Brasília — o presidente da Academia fora eleito senador da República. Estou autorizado a representá-lo. O diretor da Faculdade de Medicina e o Superintendente...

— Telefonaram explicando a ausência. — interrompeu o magnata. — Não tem importância, é até melhor. Em petit comité pode-se conversar mais tranquilamente, pôr em ordem as ideias e resolver os problemas de nossa grande promoção. Sentemo-nos, meus amigos.

O professor Azevedo tomou a palavra, em tom quase oratório: — Deixe que o felicite, doutor Pinto, pela iniciativa das comemorações, digna de todos os encômios. Saliento, particularmente o seminário sobre miscigenação e apartheid, acontecimento da maior importância, de extrema atualidade; vai ser a realização científica mais séria do Brasil nos últimos anos. Estamos todos de parabéns e o senhor em primeiro lugar.

Doutor Zezinho recebeu os elogios com o ar modesto de quem apenas cumpre seu dever para com a Pátria e a cultura, sem medir sacrifícios: — Muito obrigado, caro professor. Suas palavras me confortam. Mas, já que o senhor falou no seminário, desejo expressar algumas breves opiniões sobre o assunto: andei reestudando a ideia, aprofundando-lhe as implicações e cheguei a certas conclusões que venho sujeitar ao bom senso e ao patriotismo dos senhores. Quero consignar antes de tudo minha admiração pelo professor Ramos, por sua obra magistral A melhor prova disso é que fui eu quem o procurou, solicitando sua colaboração para as homenagens a Pedro Archanjo. O conclave que ele nos propõe reunir, no entanto, sendo sem dúvida de interesse científico, não me parece o mais indicado na conjuntura atual.

O professor Azevedo sentiu um frio na espinha: todas as vezes que ouvira pronunciar aquelas palavras fatais, conjuntura atual, alguma coisa ruim acontecera. Os últimos anos não tinham sido amenos nem fáceis para o professor Azevedo e para seus colegas de Universidade. Por isso mesmo, atalhou, antes de ouvir o resto, o pior certamente:

— O momento, ao contrário, doutor Pinto, é o mais indicado: quando as lutas raciais atingem quase a condição de guerra civil nos Estados Unidos, quando os novos países da África começam a desempenhar importante papel na política mundial, quando...

— Exatamente, meu caro professor e amigo; exatamente esses argumentos que para o senhor indicam a oportunidade do seminário, são os mesmos que, a meu ver, o transformam num perigo, num sério perigo.

— Perigo? — interpunha-se agora Calazans. — Não vejo onde.

— Perigo e grande. Esse seminário, com uma temática explosiva — mestiçagem e apartheid é perigosíssimo foco de agitação, dele pode nascer um incêndio de proporções imprevisíveis, meus caros. Pensem nos ra pazes da Universidade, nos meninos dos ginásios. Não lhes nego razão em certos reclamos e o nosso jornal o tem dito, corajosamente. Mas, convenhamos que qualquer pretexto serve para os agitadores infiltrados no meio estudantil, para os profissionais da desordem e da baderna.

“Está tudo perdido”, deu-se conta o professor Azevedo, mas ainda lutou: a ideia de Ramos merecia um derradeiro esforço: — Pelo amor de Deus, doutor Pinto: os estudantes, inclusive os de esquerda, vão apoiar em massa o simpósio, vão lhe dar cobertura total, eu próprio já conversei com vários deles e todos mostram-se favoráveis e interessados. Trata-se de uma assembleia puramente científica.

— Veja, professor, é o senhor mesmo quem me dá razão e me oferece novos argumentos. O perigo está exatamente no apoio estudantil, O assunto é pura dinamite, uma bomba. Nada mais fácil do que transformar esse seminário de caráter científico em passeatas, manifestações de rua, de apoio aos negros norte-americanos e contra os Estados Unidos; se o realizássemos, poderia terminar com o incêndio do Consulado Americano. O senhor mesmo disse, professor, que se trata de um simpósio de esquerda.

— Não disse isso. A ciência não é de esquerda ou de direita, é ciência. Disse que os estudantes...

— É a mesma coisa: o senhor disse que os estudantes de esquerda, a massa estudantil apoia a ideia. Aí reside o perigo, professor.

— Mas, nesse caso, já não se pode... — mais uma vez Calazans em apoio ao colega.

Visivelmente contrafeito, o doutor Zezinho resolveu liquidar o assunto: — Perdão, professor Calazans, se o interrompo: estamos todos a perder tempo. Mesmo que os senhores me convencessem, e talvez não fosse tão difícil convencer-me... — fez um silêncio, estava realmente constrangido. — Mesmo assim o seminário não poderia ser realizado. — Cada vez mais a contragosto continuou: — Fui... bem... fui procurado... e tive ocasião de discutir o assunto em todos os seus aspectos.

— Procurado? Por quem? — quis saber a secretária do Centro Folclórico, inteiramente por fora das sutilezas da política.

— Por quem de direito, minha boa amiga. Professor Azevedo, creio que agora o senhor me compreende e justifica minha posição. Aliás, quero lhe pedir que a explique ao professor Ramos, não desejo que ele faça mau juízo a meu respeito.

Olhou pela janela, no botequim defronte redatores do jornal engoliam médias com pão e manteiga: — Certas coisas nos escapam, não estamos a par de detalhes que tornam indesejável, em determinado momento, aquilo que, em aparência, é uma boa ideia. Vou lhes revelar algo, algo muito confidencial: a diplomacia brasileira neste preciso instante está trabalhando num acordo de grandes proporções com a África do Sul. Temos o maior interesse em ampliar nossas relações com esse poderoso país, de extraordinário índice de crescimento.Mesmo uma aliança política contra o comunismo não está fora de cogitações, afinal na ONU já somos aliados, defendemos os mesmos pontos de vista. Uma linha aérea, direta, ligando o Rio a Johannesburgo, vai ser estabelecida nos próximos dias. Dão-se conta? Como então reunir nesta hora os sábios brasileiros para que eles baixem o pau no apartheid ou seja, na República da África do Sul?Não vou sequer me referir aos Estados Unidos, aos nossos compromissos com a grande nação americana. Exatamente quando aumentam suas dificuldades com os negros,também nós vamos mandar-lhe lenha? Do racismo ao Vietnã é um passo. Um passinho de nada. São argumentos sérios, meus amigos, e por mais que eu desejasse defender a nossa ideia, não pude discutir.

— Quer dizer que proibiram o seminário? — reincidiu a secretária do Folclore, sem medir palavras, no vício da fala popular, direta e simples.

Doutor Zezinho, mais refeito, levantou os braços: — Ninguém proibiu nada, dona Edelweiss, pelo amor de Deus. Estamos numa democracia, ninguém proíbe nada no Brasil, faça-me o favor! Nós é que, agora, aqui, examinando o assunto, à base de novos dados, decidimos — nós, a Comissão Executiva e mais ninguém — suspender o seminário. Nem por isso, no entanto, deixaremos de comemorar o centenário de Pedro Archanjo. Os suplementos estão em marcha, o Gastão trouxe-me alentadoras notícias, as perspectivas são boas. A sessão solene dará os toques científico e oratório indispensáveis. Além do que, nada nos impede de pensar em outra coisa desde que não tenha o mesmo caráter subversivo do simpósio.

No silêncio tão próprio da conjuntura atual, o doutor Zezinho renasceu mais uma vez das cinzas do desagradável assunto: — Eu peço aos senhores que pensem, por exemplo, um grande concurso, a ser lançado entre os secundaristas, uma redação versando sobre tema patriótico, atual. Seria o “Prêmio Pedro Archanjo”, um prêmio valioso, cobiçável: passagens de avião e estada de uma semana em Portugal para o vencedor e um acompanhante. Que lhes parece? Pensem nisso, meus amigos, e muito obrigado.