Tenda dos Milagres
Capítulo 5
— Já soube e já mandei a mulher levar uma ajuda. Quando ela voltar, vou na igreja ver Pedro.
— Meu tio, vosmicê não está em condições.
— Cala a boca. Como não havia de ir? Sou mais velho que ele um bocado de anos, lhe ensinei capoeira, mas tudo que sei devo a Pedro. Foi o homem mais cumpridor e mais sério.
— Sério? Tão festeiro que era.
— Falo que era sério de retidão, não de cara fechada.
Perdido nas trevas, preso nas pernas bambas, mestre Budião enxerga o moço Archanjo às voltas com os livros, sempre com os livros, estudando sozinho, nunca teve professor:
— Nem precisava, aprendia por si.
A mulher do capoeirista, cinquentona robusta, sobe as escadas, sua voz enche a sala:
— Está bonitão, de roupa nova, todo cheio de flores.Vai ir para a igreja e tem gente assim, O enterro sai às três.
— Entregou a quantia?
— Na mão do santeiro Miguel, é ele quem está cuidando.
Lá seguiu Rosália, de casa em casa, de loja em loja, de bar em bar, de castelo em castelo; atravessou as Portas do Carmo, desceu o Tabuão. Onde fora a oficina de Lídio Corró, agora um bazar de miudezas, fez uma pausa na caminhada.
Acontecera há mais de vinte anos, de vinte e cinco ou trinta, quem sabe? Para que contar o tempo, de nada adianta. Também ela, Rosália, era moderna e linda, não mais menina-e-moça, porém mulher feita e apetecível, na força da idade; Archanjo beirando os cinquenta. Um xodó desmedido, paixão de loucura, de desespero.
Na oficina de Lídio Corró, passavam parte do tempo:os dois homens nas caixas dos tipos, com o pequeno ajudante. De quando em quando, um trago para esquentar o trabalho. Rosália acendia o fogo, cozinhavam quitutes, de noite apareciam os amigos trazendo bebidas.
Mais adiante, na esquina da ladeira, erguia-se o sobradão, já não existe. Da mansarda, no alto, viam a aurora surgir sobre o cais, os navios e os saveiros. Pelos vidros rotos da janela penetravam a chuva, a brisa do mar, a lua amarela, as estrelas. Morriam os ais de amor nas dobras da manhã. Pedro Archanjo, um retado na cama, e que delicadeza!
Já não existe o sobrado, a mansarda, a janela sobre o mar. Rosália retoma a caminhada, não mais solitária, porém, nem triste tampouco. Dois homens sobem apressados: — Conheci um filho dele, meu chapa nas docas, depois embarcadiço num navio.
— Mas se ele nunca foi casado.
— Fez para mais de vinte filhos, era um pai d’égua.
Riu com vontade, o companheiro também, o homem era o cão. E esse outro riso, mais sonoro e claro, de onde vem, Rosália? Somente vinte? Bote filho nisso, camarado,não se acanhe; estrovenga poderosa, pastor de donzelas, sedutor de casadas, patriarca de putas, Pedro Archanjo, com umas e outras, povoou o mundo, meu bom.
5
A igreja toda azul no meio da tarde, igreja dos escravos no largo onde se ergueram tronco e pelourinho. É o reflexo do sol ou um laivo de sangue no chão de pedras? Tanto sangue correu sobre essas pedras, tanto gemido de dor subiu para esse céu, tanta súplica e tanta praga ressoaram nas paredes da Igreja azul do Rosário dos Pretos.
Faz muito não se reunia tamanha multidão no Pelourinho, sobrando da igreja, do adro, da escadaria, espalhada nos passeios e na rua. Os dois ônibus serão suficientes? Com o racionamento da gasolina não fora fácil obtê-los, o Major teve de se mexer, usar influências. Um povaréu pelo menos igual espera na Ladeira das Quintas,ao pé do cemitério. Muitos vêm até a igreja, fitam o rosto sereno do finado, alguns beijam-lhe a mão; depois, na Baixa dos Sapateiros, tomam o bonde das Quintas, onde aguardarão o cortejo. Uma faixa de pano negro, de lado a lado, na sede do afoxé.
Na escadaria da igreja, o Major fuma seu charuto de tostão, resmunga boas tardes, não está de humor para conversa fiada. Lá dentro, Pedro Archanjo pronto para o enterro, limpo e bem trajado, decente. Assim, nos trinques, ia às cerimônias dos terreiros, às festas de rua, aos aniversários, casamentos, velórios e funerais. Só no fim da vida desleixou-se um pouco, obrigado pela extrema miséria. O que jamais perdeu, foi a alegria.
Rapaz de trinta anos, vinha cada manhã ao Mercado do Ouro, à barraca da comadre Terência, mãe do mole-que Damião, tomar café com cuscuz de puba e beiju de tapioca. De graça, quem ia cobrar? De cedo se acostumara a não pagar certas despesas, ou melhor, a pagá-las com a moeda de seu riso, de sua prosa, diversão e ensinamento. Não por avarícia — mão aberta, esbanjador — e,sim, porque não lhe cobravam ou porque o mais das vezes não tinha com que satisfazer; dinheiro não esquentava em seus bolsos e para que serve dinheiro senão para gastar, meu bom?
O moleque Damião apenas percebia o som do riso claro, abandonava tudo, a briga mais emocionante, para vir sentar-se no chão à espera das histórias. Dos orixás, Archanjo sabia a completa intimidade; de outros heróis também: Hércules e Perseu, Aquiles e Ulisses. Demônio travesso, terror dos vizinhos, debochado e perdido, chefe de malta sem lei, Damião não aprenderia a ler não fosse Archanjo lhe ensinar. Nenhuma escola o reteve, nenhuma palmatória o convenceu, três vezes fugiu do patronato. Mas os livros de Archanjo — a “Mitologia Grega”, “O Velho Testamento”, “Os Três Mosqueteiros”, “As Viagens de Guliver”, “Dom Quixote de La Mancha” —, a risada tão comunicativa, a voz quente e fraterna: “sente aqui, meu camaradinho, venha ler comigo uma história batuta”, ganharam o vadio para a leitura e as contas.
Archanjo sabia de cor uma quantidade de versos, e sabia dizê-los, um ator. Poemas de Castro Alves: “... Era um sonho dantesco. .. O tombadilho que das luzernas avermelha o brilho, em sangue a se banhar”; de Gonçalves Dias: “Não chores, meu filho; não chores que a vida é luta renhida: viver é lutar” — a molecada a ouvir de boca aberta, num assombro de interesse.
Quando acontecia Terência estar de calundu, a cabeça no marido que a largara por outra e sumira no mundo, o compadre forçava-lhe o sorriso nos lábios formosos, declamando versos líricos, poemas de amor: “... sua boca era um pássaro escarlate onde cantava festival sorriso...” Comadre Terência em sua barraca de comidas,vivendo para aquele filho Damião, punha no compadre os olhos pensativos — que jeito senão sorrir, deixar as tristezas de lado? Na tenda de Miro, a impulsiva Ivone largava os embrulhos, no enlevo das rimas: “Uma noite,eu me lembro... Ela dormia numa rede encostada mole-mente... Quase aberto o roupão, solto o cabelo...” Os olhos de Terência, pensativos.
No Mercado do Ouro, certa manhã de temporal, o céu de breu e o vento solto, deu-se o encontro de Pedro Archanjo com a sueca Kirsi. O Major parece revê-la: fascinante visão, parada na porta, batida de chuva, o vestido colado ao corpo, cheia de curiosidade e espanto. O menino nunca vira cabelos assim tão lisos e loiros, loiríssimos, a pele de rosa, os olhos de infinito azul, azuis como essa Igreja do Rosário dos Pretos.
Dentro da igreja um zumzum, um vaivém, gente que entra, gente que sai, permanente aglomeração em torno ao ataúde. Não era esquife de primeira classe, féretro de luxo, para tanto não dera o arrecadado, mas não fazia vergonha com os galões e os alamares, o pano roxo, as alças de metal, e Archanjo vestido com a roupa vermelha da confraria.
Sentadas em torno, as mais venerandas mães-de-santo; todas, sem exceção. Antes, ainda na casa de Ester,no esconso quartinho dos fundos, mãe Pulquéria cumprira as primeiras obrigações do axexê de Ojuobá. Por toda a igreja e na praça, o povo dos terreiros: respeitáveis ogans, filhas-de-santo, iaôs de barco recente. Flores lilases, amarelas, azuis, uma rosa vermelha na mão parda de Archanjo. Assim ele desejara e pedira. O sacristão e o santeiro foram chamar o Major, faltavam cinco para as três.
O carro fúnebre e os ônibus superlotados partem em direção ao Cemitério das Quintas onde, em terras de sua confraria católica, Ojuobá, os olhos de Xangô, tem direito a jazigo perpétuo. Um automóvel a gasogênio acompanha o cortejo, levando o professor Azevedo e o poeta Simões, os dois únicos que ali vieram porque o finado escrevera quatro livros, debatera teorias, polemizara com os sábios da época, negara a pseudociência oficial, contra ela levantando para destruí-la. Os demais tinham vindo para despedir um velho tio de muita sabedoria e esperteza, de bom conselho e experiência, conversador de fama, bebedor de marca, mulherengo até o fim, pródigo fazedor de filhos, preferido dos orixás, confidente dos segredos, um velho tio do maior respeito, quase um feiticeiro, Ojuobá.
O cemitério fica no alto de uma colina, mas, o carro fúnebre, os ônibus e o automóvel não sobem até a porta corno habitualmente o fazem nos enterros. Não sendo esse um funeral qualquer, o morto e os acompanhantes desembarcam ao sopé da ladeira.
Mistura-se o povaréu chegado da igreja aos que já esperavam nas Quintas, incontável multidão: enterro assim concorrido só o de mãe Aninha, quatro anos atrás. Político algum, nem milionário, nem general, nem bispo reuniu tanto povo na hora da despedida.
Obás e ogans, alguns dobrados ao peso da idade, anciãos de cansada travessia, o Major e o santeiro Miguel, tomam do caixão e por três vezes o suspendem acima do povo, por três vezes o baixam à terra, no início do ritual nagô.
A voz do pai de santo Nezinho se ergue no canto fúnebre, em língua iurubá:
“Axerê, axexê
Omorode.”
O coro repete, as vozes crescem na cantiga de adeus: “Axexê, axexê”.
Prossegue o enterro, subindo a ladeira: três passos em frente, dois passos atrás, passos de dança ao som do cântico sagrado, o caixão erguido à altura dos ombros dos obás:
“Iku lonan ta ewê xê Iku lonan ta ewê sê Iku lonan.”
No meio da encosta, o professor Azevedo toma de uma alça do esquife; fáceis lhe foram os passos, trazia-os na mistura do sangue. As janelas estão cheias, vem gente correndo para ver o espetáculo único. Enterro igual a esse, só na Bahia e de raro em raro.
Lá vai Pedro Archanjo Ojuobá, bem posto, roupa nova e gravata, a opa vermelha, todo decente, dançando sua dança derradeira, O canto poderoso penetra as casas, corta o céu da cidade, interrompe negócios, imobiliza passantes; a dança domina a rua, três passos à frente, dois passos atrás — o morto, os que o conduzem e o povo ‘4 inteiro:
“Ara ara la insu Iku ô iktz ô A insu bereré.”
Chegam finalmente à porta do cemitério. Obás e ogans de costas como ordena a obrigação, entram o caixão de Ojuobá. Ao lado do jazigo, em meio às flores e ao pranto, calam-se os atabaques, cessam a dança e a cantiga.“Somos os últimos a ver essas coisas”, diz o poeta Simões ao professor Azevedo, que se pergunta, aflito, quantos ali têm ideia da obra de Archanjo. Não valeria a pena fazer constância em pequeno discurso? A timidez o impede. Todos vestem de branco, a cor do luto.
O esquife descansa uni instante, antes de ser encerrado para sempre na sepultura: Pedro Archanjo ainda está entre os seus. A multidão se comprime, alguém soluça.
Então, quando se fez silêncio total e os coveiros tomaram de Pedro Archanjo em seu caixão, uma voz solitária se elevou, trêmula e grave, no canto pungente, dilacerante, no adeus mais terno e doloroso. Era mestre Budião, todo de branco, todo de luto, guiado por sua mulher, amparado por Mané Lima, no alto de um túmulo, cego e paralítico: conversa de pai e filho, de inseparáveis irmãos, adeus irmão adeus para sempre adeus, uma frase de amor,iku ô iku ô dabá ra jô ma boiá.
“Quando eu morrer me ponham na mão uma rosa vermelha”. Uma rosa de fogo, uma rosa de cobre, de canto e de dança, Rosa de Oxalá, axexê, axexê.