Tenda dos Milagres
Capítulo 4
— Aquele? — riu Ana, com desplante. É meu noivo... Por falar nisso, você não disse que deseja contratar alguém para recolher dados sobre Pedro Archanjo? Pois ele é a pessoa indicada. É sociólogo e poeta, tem talento e tempo disponível.
— Se ele garantir que começa a trabalhar agora mesmo e nos deixa em paz, pode se considerar sob contrato...
Foram dias cheios: em companhia de Ana Mercedes, Levenson correra a cidade, intrépido andarilho, metido nos becos, nas ladeiras, no pântano dos Alagados, na zona, nas igrejas barrocas de ouro e azulejos. Conversou com variada gente: Camafeu de Oxossi, Eduardo de Ijexá, Mestre Pastinha, Menininha e Mãezinha, Miguel de Santana Obá Aré. Fugiu dos notáveis e recusou jantar de homenagem a pretexto de indisposição intestinal, declinando do fino menu e do discurso de saudação do acadêmico Luiz Batista, uma notabilidade. Foi comer vatapá, caruru, efó, moqueca de siri mole, cocada e abacaxi no alto do Mercado Modelo,. no restaurante da finada Maria de São Pedro, de onde via os saveiros de velas desatadas cortando o golfo, e as coloridas rumas de frutas na rampa sobre o mar.
No candomblé de Olga, filha de Lôko e de Yansan, no Alaketu, reconheceu os orixás dos livros de Archanjo e, fazendo ouvidos moucos às explicações do noivo da moça, os saudou com alegria e amizade. Apoiado em seu reluzente paxorô, Oxalá veio dançando até ele e o acolheu nos braços. “Seu encantado, meu pai, é Oxolufan, Oxalá velho”, disse-lhe Olga, levando-o para ver os pejis. Uma rainha, aquela Olga, em seus trajes e colares de baiana, com seu cortejo de feitas e iaôs. “Rainhas nas ruas da cidade, com seus tabuleiros de comidas e doces, dupla- mente rainhas nos terreiros, mães e filhas de santo”, escrevera Pedro Archanjo.
A horas da noite, das três curtas noites baianas, foram para a cama e o amor, as longas pernas da moça, as ancas, os seios morenos, o perfume de trópico, o riso insolente, destemida:
— Vamos ver, seu Gringo, se você presta para alguma coisa ou é só fachada. — dissera ela na primeira noite, arrancando a pouca roupa. — Vou lhe ensinar o que vale uma mulata brasileira.
Uma festa, uma festa sem igual, de risos e ais. Uma festa, que mais dizer? As palavras fenecem e o sábio Levenson, caro doutor Zezinho, esteve a pique de tudo abandonar, Japão e China — a continental, não se esqueça — e aceitar seu convite para rever a cidade de Archanjo, de mistério e bruxaria.
Ah! se o doutor Zezinho o soubesse, poderia ordenar outra manchete em seu jornal: “Em Nova Iorque o grande Levenson padece saudades da Bahia”
4
Alguns poucos contemporâneos de Pedro Archanjo, descobertos pelos repórteres mais ao acaso do que em consequência de busca planificada, tímidos anciãos, pessoas simples do povo, limitaram-se a recordar a figura de um bom vizinho, boêmio um tanto louco, com mania de tomar nota de tudo, boca de perguntas e histórias, ouvinte atento, hábil tocador de cavaquinho e violão, para não falar no berimbau de capoeira e no atabaque, instrumentos sem segredo ,para quem os manejava desde menino em festas de rua e de terreiro.
Depoimentos medrosos, testemunhas acanhadas ante os jornalistas de opressora exigência, ávidos de detalhes sensacionais, de sexo devassado e triste, de violência pela violência; memórias de um tempo e de uma gente sem encantos para a imprensa do mundo-cão. Um tempo e uma gente ainda próximos no calendário mas tão distantes nos hábitos, nos sentimentos, no estilo de vida, a ponto de o repórter Peçanha comentar para a barra dos amigos e amigas no inferninho
— Imaginem! Eu, na fossa total, e um colored velhinho, que morreu e se enterrou há mais de vinte anos e nem desconfia, a me contar uns babados, uns troços cafoníssimos, que ele acha bárbaros, sobre um negócio chamado Tenda dos Milagres..
Na fossa, o repórter Peçanha; todos os seus amigos, todas as suas amigas, na fossa; cada qual mais na fossa,na fossa total, e quem não o estiver é um pobre diabo:
— Eu nesta fossa medonha que não há bolinha que dê jeito e o Matusalém a me encher com a tal de Tenda, onde o chato do Archanjo bancava o ator, dizia versos, uma cafonice geral. Vocês sabem o que eu penso? Esse Archanjo não passou de um palhaço.