Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 53 de 77

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Tenda dos Milagres

Capítulo 5

Em 1918 adquiriu um par de óculos, a conselho médico, e publicou seu segundo livro. Afora a vista cansada, nunca se sentira tão bem de saúde, tão cheio de ânimo e confiança e, não fosse a ausência de Tadeu, em tão perfeita alegria. Os primeiros volumes de “A Influência Africana nos Costumes da Bahia” ficaram prontos às vésperas dos festejos de seus cinquenta anos, semana intensa e ruidosa, a cachaça correndo em bicas, o samba roncando nos ganzás, as pastoras nos ensaios, os afoxés de volta, embandeirada em festa a Escola de Capoeira de Mestre Budião, os orixás presentes nos terreiros com atabaque e dança, Rosália aberta em riso, desfolhada no catre da mansarda.

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Milagre é isso, amor: as avós dançando na Tenda dos Milagres, na noite da formatura de Tadeu. Avós tortas as duas, avós de puro amor, mãe Majé Bassan e a condessa Isabel Tereza Gonçalves Martins de Araújo e Pinho, Zabela para os íntimos.

Sentado na cadeira de braços reservada à pessoas de maior, sob o quadro do milagre desfeito, Tadeu é o centro das atenções e homenagens. Enverga calça de listra e paletó de mescla, colarinho de ponta virada, sapatos de verniz, anel azul de safira, o anel dos engenheiros, A emoção no rosto feliz, a vontade de abraçar a todos ao mesmo tempo, a lágrima e o riso misturados na face de cobre, no olhar de enleio, os cabelos escorridos, negros de azeviche, romântica estampa de irredentista, engenheiro Tadeu Canhoto. Aquela é a noite da grande festa: começou no Salão Nobre da Escola Politécnica onde recebeu o anel de grau e o canudo de doutor, prosseguirá no baile de formatura nos Salões do Cruz Vermelha, o clube dos ricaços. Entre a solenidade e o baile, na Tenda dos Milagres, no calor da amizade, as avós dançaram.

A cada um dos que ali se reuniram, o moço devia gratidão. No passar dos anos, de uma ou de outras maneira, todos haviam concorrido para o deslumbramento daquela noite. Sem contar a roupa, o anel, os sapatos de verniz, o quadro de formatura, o histórico retrato, pagos com os tostões entre eles coletados. Doutor no sacrifício, na poupança, na ajuda. Sobre isso nem uma palavra, não era assunto de conversa, mas Tadeu ao fitar os marcados rostos, ao apertar as mãos calosas, sabe quanto custou a caminhada de dez anos, o alto preço daquela hora de alegria. Valeu a pena e vão comemorar com atabaques e violas.

Primeiro, os atabaques. Pedro Archanjo no rum, Lídio Corró no rumpi, Valdeloir no lé. Soltam as mãos no batuque e a voz antiga de Maj é Bassan renova-se na cantiga de agradecimento aos orixás.

Reúne-se a roda das mulheres, as velhas tias, as senhoras de densa beleza cultivada na experiência, e as iaôs novatas no santo e na vadiação. A mais bela, sem equivalente, sem comparação, era Rosa de Oxalá, o tempo só lhe acrescentara garbo à formosura. Os homens juntaram suas vozes no canto ritual.

Ergue-se Majé Bassan e todos se põem de pé. Para reverenciá-la espalmam as mãos na altura do peito. Filha dileta de Yemanjá, dona das águas, em sua honra todos repetem a saudação destinada à Mãe dos encantados. Odoia Iyá olo oyon oruba! Salve Mãe dos seios úmidos!

Arrumando as saias, sorrindo, devagar atravessa a sala, entre aclamações: odoia odoia Iyá! Curva-se diante de Tadeu para lhe oferecer a festa. Ressoam os atabaques,Majé Bassan inicia a dança e o canto de homenagem. A voz em louvação, os incansáveis pés.

É a Mãe, Iyá, a antiga, a elementar, a primeva, recém-chegada de Aioká, sobrevoando tempestades, ventos desatados, calmarias, naufrágios, noivos mortos marinheiros, para festejar o filho bem-amado, o caçula, o neto, o bisneto, o tataraneto, o descendente de volta da batalha, triunfante. Salve Tadeu Canhoto, vitorioso sobre ameaças, empecilhos, limitações, doenças, de posse do canudo de doutor. Odoia!

Velha sem idade, doce e temível mãe Majé Bassan, tão precisa no domínio do passo elegante e difícil, tão rápida e leve, tão moça na dança, iaô recente. Uma dança do começo do mundo: o medo, o desconhecido, o perigo, o combate, o triunfo, a intimidade dos deuses. Uma dança de encantamento e coragem, o homem contra as ignotas forças, em luta e vitória. Assim dançou mãe Majé Bassan para Tadeu, na Tenda dos Milagres. Avó torta dançando para o neto, doutor formado em engenharia.

Tão solene e simples, tão majestosa e íntima, por entre as palmas das mãos erguidas, parou face a face com Tadeu e lhe abriu os braços. Nos imensos seios acolheu os pensamentos do rapaz, a emoção, o ímpeto, a dúvida, a ambição, o orgulho, a amargura, o amor, o bom e o ruim, as fibras do jovem coração, a sina de Tadeu: tudo coube no mar dos selos maternais, assim enormes para conter a alegria e a dor do mundo. Abraçaram-se a velha e o moço, a que permaneceu no mistério primitivo e o que partia no barco do conhecimento, em liberdade conquistada.

Depois vieram todos e, um a um, dançaram, mulheres e homens revezando-se. Lídio Corró sentiu o coração vibrar de encontro ao peito de Tadeu: morrerei numa hora assim de alegria. Tia Terência lhe deu de graça café e pão,almoço e janta anos a fio. Damião se formou antes dele na escola da vida, advogado de porta de xadrez e de delegacia. Rosenda Batista dos Reis, a benção minha tia mandingueira, a teus cuidados, às tuas ervas e mezinhas devo estar hoje aqui, de anel de grau e livre da maleita. Com mestre Budião aprendeu na capoeira a ser modesto e calmo, a desprezar o insolente e o presunçoso. O abraço trêmulo da pequena Dé de olhos de amêndoas e seio palpitante: por que não me tomas hoje como um gole de licor, não me desfolhas flor da tua festa? Manuel de Praxedes, gigante das alvarengas, lhe ensinou o mar e os navios. Rosa de Oxalá, a misteriosa tia, era a dona da casa na Tenda dos Milagres e era apenas hóspede, passageira de visita rápida, a tia principal.

Vieram esses e os outros, o ritmo de Valdeloir e sua invenção, o canto de Aussá, a gargalhada de Mané Lima,cada qual dançou um passo e acolheu no peito a alegria do doutor, ontem moleque ousado e arreliento.

O último foi Pedro Archanjo e novamente todos se puseram de pé para saudar Ojuobá, as palmas das mãos voltadas para ele. Face de enigma, aberta em manso riso, fechada em pensamentos, no coração imagens e lembranças, Doroteia na noite derradeira, o menino curvado sobre os livros. Ojuobá, os olhos de Xangô, acompanha a ânsia e a exaltação no rosto de Tadeu. Revê os cachos loiros, a moça tão nervosa, apaixonada.