Tenda dos Milagres
Capítulo 2
— Sabem com que eu compararia a obra de Pedro Archanjo? Com a senhorita aqui presente. Ela parece uma página de Mister Archanjo, igualzinha (“igualita”), sem tirar nem pôr.
Assim começou na Bahia, naquela doce tarde de abril, a glória de Pedro Archanjo.
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A notoriedade, o reconhecimento público, o aplauso, a admiração dos eruditos, a glória, o sucesso — inclusive mundano, com a citação de seu nome nas colunas sociais e gritinhos histéricos de mulheres de primeira ordem, insignes e dadivosas — Pedro Archanjo só os teve post-mortem, quando para nada lhe serviam, nem mesmo as mulheres, em vida tão de seu regalo e apetite.
Aquele fora o “ano de Pedro Archanjo”, escreveu, em balanço de fim-de-ano, destacado jornalista, ao enumerar os acontecimentos culturais. Realmente, nenhuma figura intelectual gozou de tamanha evidência, nenhuma outra obra obteve os elogios concedidos aos seus quatro pequenos volumes, reimpressos às carreiras, livros por tantos lustros esquecidos, ou melhor: desconhecidos não só da massa de leitores mas também dos especialistas –com as costumeiras e honrosas exceções das quais logo sedará notícia.
Tudo começou com a chegada ao Brasil do famoso James D. Levenson, “um dos cinco gênios do nosso século”, segundo a Enciclopédia Britânica: filósofo, matemático, sociólogo, antropólogo, etnólogo, muita coisa mais, professor da Columbia University, Prêmio Nobel de Ciência, tudo isso e, como se tudo isso não bastasse, americano. Polêmico e atrevido, revolucionara a ciência contemporânea com suas teorias: estudando e explicando,de ângulos imprevistos, o desenvolvimento da humanidade, chegou a conclusões novas e audazes, numa reformulação de teses e conceitos. Para os conservadores, era um perigoso herético; para seus alunos e partidários, um deus; para os jornalistas, uma bênção do céu, pois James D, não media palavras nem opiniões.
Veio ao Rio de Janeiro a convite da Universidade do Brasil para um curso de cinco conferências na Faculdade de Letras. Foi o imenso sucesso que todos sabemos: marcada a primeira palestra para o salão nobre da Faculdade, fez-se necessário transferi-la às pressas para o grande auditório da Reitoria e ainda assim sobraram ouvintes pelos corredores e escadas. Os jornais e revistas, os repórteres e fotógrafos, tiveram assunto farto: Levenson não era apenas genial, era igualmente fotogênico.
As conferências, seguidas de perguntas e debates inflamados, por vezes ácidos, deram lugar a violentas manifestações estudantis de apreço ao sábio e de repúdio à ditadura. De pé e durante longos minutos, por mais de uma vez, os estudantes ovacionaram em delírio. Certas frases suas caíram no gosto do público, correram o país de extremo a extremo: “mais valem dez anos de intermináveis conferências internacionais do que um só dia de guerra e são mais baratos”; “as prisões e os policiais são idênticos e sórdidos em todos os regimes, sem exceção de nenhum”; “o mundo só será realmente civilizado quando as fardas forem objetos de museu”.
Cercado por fotógrafos e vedetes, metido numa sunga minúscula, Levenson reservou as manhãs inteiras para a praia.
Sistemático, recusara convites de academias, institutos, grêmios, conselhos culturais, professores — tudo isso tinha de sobra em Nova Iorque e estava farto, mas aquele sol do Brasil quando voltaria a tê-lo? Nas praias jogou até futebol e foi fotografado atirando a gol, embora as mulheres fossem sem dúvida seu esporte predileto. Estabeleceu intimidade com ótimos exemplares nacionais, na praia e nas boites.
Recém-divorciado, os colunistas sociais se desmandaram em lhe atribuir casos e noivas. Desvairada macaca,noticiarista de escândalos, previu a ruína de um lar grã-fino; enganou-se: o marido honradíssimo, fez-se íntimo do sábio garanhão. “Ontem, na pérgola do Copa, num biquíni de Cannes, Katy Siqueira Prado contemplava com ternura seu marido Baby e o grande James D., inseparáveis”, refutara o gabaritado Zul. Certa revista de ampla circulação exibiu na capa do número daquela semana a nudez atlética do Nobel ao lado da promocional nudez de Nádia Sílvia, atriz de grande talento a ser revelado quando lhe derem no cinema ou no palco. a oportunidade que até agora inexplicavelmente lhe têm negado — e Nádia, ouvida pela reportagem, riu muito, nada confessou, tampouco negou paixão. e compromisso. “Levenson é a sexta celebridade mundial a perder a cabeça por Nádia Sílvia, a irresistível”, noticiou um jornal, a sério, e deu a relação dos cinco anteriores: John Kennedy, Richard Burton, Aga Khan, um banqueiro suíço e um lorde inglês. Sem falar na condessa italiana, nobre, milionária e machona.
“O genial Levenson ontem mais uma vez na pista do Le Bateau, in love com a glamorosa Helena von Kloster”, lia-se na “Crônica da Noite”, de Gisa; “aprendeu o samba e não aceita outro ritmo”, revelava Robert Sabad em dezoito jornais e outras tantas estações de TV, dando ciência aos povos da frase de Branquinha do Val Burnier, a hostess magnífica, mesa e cama incomparáveis: “Se James não fosse o Prêmio Nobel que é, poderia ganhar a vida como dançarino profissional”. Jornais e revistas se esbaldaram, não lhes faltou o sábio.
Nada, porém, tão sensacional quanto a declaração sobre Pedro Archanjo, bomba a explodir no aeroporto, na hora do embarque para a Bahia. Em verdade, no primeiro contato com a imprensa, ao chegar de Nova Iorque, Levenson fizera breve referência ao baiano, citara-lhe o no-me: “Estou na pátria de Archanjo, sinto-me feliz”. Os repórteres, no entanto, não consignaram a frase, ou por não entendê-la, ou por não lhe atribuir maior significação. Ao partir para a Bahia, porém, foi diferente, pois o desconcertante Prêmio Nobel declarou ter reservado dois dias de sua curta permanência no Brasil para ir a Salvador, “conhecer a cidade e o povo que foram objeto dos estudos do fascinante Pedro Archanjo, em cujos livros a ciência é poesia”, autor que elevara tão alto a cultura brasileira. Foi um deus-nos-acuda.
Quem é esse tal de Pedro Archanjo, do qual nunca se ouviu falar? — interrogavam-se os jornalistas, boquiabertos. Um deles, na esperança de uma deixa, quis saber de que maneira Levenson tomara conhecimento desse autor brasileiro. “Lendo seus livros — respondeu o sábio —, seus livros imperecíveis.”
A pergunta fora de Ápio Correia, um sabidório, editor do caderno de ciência, arte e literatura de um matutino, sabidíssimo e temerário picareta.
Levou seu blefe adiante: disse não ter notícias de tradução de livros de Archanjo para o inglês.
Não lera tais livros em inglês e, sim, em português, informou o terrível americano, acrescentando tê-lo podido fazer, apesar de possuir conhecimentos mínimos de nossa língua, devido ao seu domínio do espanhol e sobre tudo do latim. “Não foi difícil”, completou, esclarecendo ter descoberto os livros de Archanjo na biblioteca da Columbia, em pesquisa recente sobre a vida dos povos tropicais. Tinha a intenção de fazer traduzir e publicar nos Estados Unidos a “obra de vosso grande compatriota”.