Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 14 de 77

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Tenda dos Milagres

Capítulo 2

Raros, raríssimos aqueles que podiam meter a mão no trinco e entrar direto na sala do doutor Zezinho Pinto, diretor (e dono) do “Jornal da Cidade”, onde o poderoso cidadão se recolhia para pensar e decidir sobre projetos e negócios — na Financeira era impossível, na Petroquímica, também, na sede das indústrias reunidas nem se fala. Ali, na sala de porta rigorosamente proibida, às duas da tarde, antes de começar o bulício da redação e das oficinas, encontrava o necessário sossego para as elucubrações e também para reparadora soneca.

O major Damião de Souza, porém, tinha trânsito livre em toda parte; meteu a mão ossuda, o trinco funcionou, foi entrando:

— Doutor Zezinho, meu preclaro, Deus lhe guarde e à Excelentíssima. Em casa, todos bem? A saúde idem e afortuna crescendo, não é? Assim é que se quer e vale a pena. Pois eu vim aqui para falar de Pedro Archanjo. Os meninos de seu jornal ouvem todo mundo, publicam retratos de qualquer borra-botas, mas este seu criado, que é só quem sabe de Archanjo, na Bahia, fica relegado, esquecido, abandonado. O que é isso, meu doutor? Desprezou o Major?

Tocara em chaga recém-aberta, ferida exposta: vinha o doutor Zezinho Pinto do almoço mensal onde os três magnatas da imprensa baiana, senhores dos diários de Salvador, acertavam seus relógios. Amigos de longa data, o almoço era sempre alegre encontro, com bons vinhos e uísque de contrabando; além da troca de informes e da análise da situação política e econômica, riam e falavam da vida alheia, gozavam-se uns aos outros, comentando as gafes das respectivas folhas. Naquele dia a vítima fora o doutor Zezinho, a propósito da pobre cobertura oferecida pelo “Jornal da Cidade” ao grande assunto em pauta: Pedro Archanjo. “Uma redação com tantos talentos, a flor da intelectualidade, e no entanto as matérias sobre o momentoso tema ficavam longe dos êxitos de “A Tarde” — a entrevista do professor Azevedo, para citar um único exemplo — e os do “Diário da Manhã”, com o suplemento especial “Archanjo da Bahia” —, sem recordar sequer as declarações exclusivas de Levenson, concedidas a Ana Mercedes, transcritas pela imprensa do Rio e de São Paulo, de Porto Alegre, do Recife”.

— Vamos convir, meu caro Brito, que com tais métodos... Quem não daria entrevista especial a Ana Mercedes, a sós, num quarto de hotel? Até eu. Se isso não é concorrência desleal, não sei o que seja. Vocês sabem como ela é conhecida nas redações? Chibiu de ouro.

— É de ouro mesmo, Brito? Dizem que você sabe. — pilheriou Cardim.

Riram os três e beberam o bom vinho alemão mas o espinho ficara na garganta do doutor Zezinho, sectário de seu jornal, cioso de sua categoria. Pagava um dinheirão àqueles moços com títulos e arrotos, deixava-os escrever uma série de heresias em sua gazeta, para que o “Jornal da Cidade” fosse o arauto da cultura, e logo em matéria tão transcendente eles se deixavam bater pelos competidores de redações baratas e quadradas. Hoje, em reunião com os responsáveis — após um rápido cochilo na sala refrigerada—, lhes esquentará os rabos doutos e regalados; pagava bem demais a esses tipos. Não podia admitir o seu jornal em humilhante posição de retaguarda.

— Archanjo? Você o conheceu, Major? É verdade?

Se conheci? Quem me ensinou a ler? Quem o encontrou morto na Ladeira do Pelourinho? Escapou de ser meu pai, porque sinhá Terência, minha mãe, só veio a encontrá-lo depois que o Torto Souza deu o suíte na família e ela montou barraca no Mercado do Ouro. Toda de-manhã Archanjo ia tomar café, sozinho valia por um circo: histórias, versos, ditos. Até hoje desconfio que sinhá Terência tinha uma queda por ele, mas Archanjo não chegava para as encomendas. Quem me educou foi ele, quem me ensinou o abc, o bem e o mal da vida.

Não disse mas podia dizer: o gosto da cachaça e o prazer das mulheres. Mas o doutor Zezinho não mais o ouvia, trilando a campainha, gritando pelo contínuo.

— Já chegou alguém na redação? Quem? Ari? Mande ele aqui, depressa. –. voltava-se para o Major, a sorrir seu famigerado sorriso. — Major, você é o tal, não há dúvida. — e lhe sorriu de novo, sorria como se desse um presente. — É o tal.

De alguma forma era certo: às vésperas de completar os setenta e cinco anos, o Major não tinha rival em popularidade, sem dúvida a figura mais pitoresca da Bahia. Rábula do Povo, Procurador dos Pobres, Providência dos Infelizes, provisionado no fórum, batera todos os recordes de defesa — e de absolvição — no júri onde atuava há cerca de cinquenta anos; inumerável clientela de réus paupérrimos, desamparados, na maioria gratuitos. Jornalista com banca em todos os jornais, pois em todos escrevia e publicava as lidíssimas “Duas Linhas” de reclamações e pedidos às autoridades, de denúncia de violências e injustiças, de clamor contra a miséria, a fome, o analfabetismo. Ex-vereador pela legenda de um pequeno partido, que, nas águas de sua estima pública, elegera dois sabidórios, o Presidente e o Primeiro-Secretário da agremiação, insaciáveis ratos, fez da Câmara Municipal a casa do povo pobre, trouxe os outros edis num cortado, empenhou a vereança nas Invasões de onde nasceram os novos bairros,nunca mais obteve legenda. Orador geral e universal, não só de júri e de tribunal de apelação mas de qualquer cerimônia ou festa onde se encontrasse, erguia a voz tanto em solenidade cívica como em almoço ou jantar de casamento, aniversário e batizado; tanto em inauguração de escola pública ou posto de saúde como em abertura de lojas, armazéns, panificadoras, bares; em enterro de figura de proa e em comícios políticos (quando eram permitidos, antigamente) sem distinção de partido. Segundo ele, para defender os interesses do povo, para protestar contra a miséria, a falta de trabalho e de escolas, qualquer pasquim e qualquer tribuna servem, e o mais que se dane.

Vale a pena ouvir um de seus discursos — ah! o infalível discurso do 2 de Julho, na Praça da Sé, ante as figuras do Caboclo e da Cabocla, com Labatut, Maria Quitéria, Joana Angélica, monumento de oratória cívica e barroca. A massa, em delírio, quantas vezes não o carregou aos ombros!

A voz roufenha da cachaça e do fumo, própria para os tropos e os chavões a arrancar aplausos, as citações dos grandes homens nacionais e estrangeiros — Cristo, Ruy Barbosa e Clemenceau eram seus preferidos. Nos discursos do Major refulgiam sentenças e conceitos atribuídos a nomes famosos, vivos, mortos e inventados; nos júris atirava com eles na cara dos promotores boquiabertos ante tanta audácia. Uma vez, em apoio a absurda tese de legítima defesa, tendo citado o “imortal jurisconsulto Bernabó, glória da Itália e da latinidade”, o promotor, imberbe, árdego e cheio de si, resolveu denunciar a impostura, desmascarar de vez o embusteiro: — Senhor Major, desculpe-me, mas nunca ouvi falar no criminalista citado por Vossa Excelência. Existirá realmente esse Bernabó?

Piedosamente o Major descansou os olhos no pretensioso:

— Vossa Excelência ainda é muito jovem, de pouca leitura, é natural que desconheça as obras clássicas de Bernabó, ninguém pode exigir que as tenha lido. Se Vossa Excelência tivesse minha idade, os olhos quase cegos, gastos na leitura, então não lhe seria perdoada tamanha ignorância...

Vista excelente, nunca usou óculos. Numa idade em que a maioria está com o pé na cova, nas aposentadorias da espera da morte, mantinha-se rijo e espigado, “conservado em cachaça”, comendo sarapatel à meia-noite em São Joaquim, nas Sete Portas, na Rampa do Mercado, derrubando mulheres na cama, “se for dormir sem pitocar não concilio o sono”, o charuto barato na boca de maus dentes, as mãos grandes e nodosas, o colarinho alto, o terno branco — sendo de Oxalá não veste senão branco —, por vezes de gola e punhos encardidos.

Seu escritório, em princípio, é onde o Major se encontra, pois jamais foi visto andando só, vai pela rua com três ou quatro infelizes a embargar-lhe o passo, e quando se arrima ao balcão de qualquer botequim para um trago sempre salutar contra o frio ou contra o calor, imediatamente começam os relatos, as queixas, os pedidos. Vai tomando nota em pedaços de papel, que enfia no bolso do paletó. Mas seu escritório oficial, onde dá consultas todas as manhãs, fica aos fundos de uma porta em sobradão colonial na Rua do Liceu, na ex-oficina do santeiro Miguel. Morto o santeiro, um remendão de sapatos alugou o ponto e nele dispôs suas ferramentas e sua meia-sola. A mesa do Major, porém, permaneceu no mesmo lugar, e o novo artesão, simpático sarará de cara sardenta, manteve-lhe a cachaça e a amizade.

Ali, em torno à porta, desde cedo se acumula a espantosa clientela: mulheres de presos, por vezes com toda a filharada, mães com crianças em idade escolar e sem escola, desempregados, prostitutas, vagabundos, enfermos necessitados de médico, hospital e remédios, gatunos com processo e liberdade provisória, parentes de mortos sem dinheiro para o enterro, mulheres abandonadas pelos maridos, donzelas recém-descabaçadas, grávidas de sedutores infensos ao matrimônio, tipos os mais diversos, todos sob ameaça da justiça, da polícia, dos grandes; e bêbados simplesmente bêbados, na esperança de um gole matinal para lavar a boca — população aflita, esfomeada e sedenta.Um a um, o Major os atende.

Suas residências ficam na Liberdade, em Cosme de Faria e em Itapagipe, e, em cada uma, terna concubina o espera, com paciência e afeto, madrugada adentro, na noite em que lhe toca a vez.

Na Liberdade, gorda e tranquila crioula, bem servida de seios e quadris, com seus quarenta e vários anos, reside Emerência, que prepara almoços baianos para casas ricas,dona de freguesia selecionada, o mais antigo dos atuais amores do Major — há mais de vinte e cinco anos ele a roubou de casa. Em Cosme de Faria, costura para fora a meiga Dalina, costura e borda; mãos de fada, rosto picado de bexiga, trintona, loiraça, graciosa.

Conheceu o Major quando o foi procurar de bucho cheio, expulsa pelo pai monarco. O devedor, casado e cabo do Exército, conseguiu rápida transferência para o Sul.O Major obteve maternidade e médico para Dalina e depois a recolheu e ao infante, não ia largá-los ao deus-dará.

Em Itapagipe, numa casinhola de fachada verde e janelas cor-de-rosa, Mara, cabocla e linda, com dezoito anos e dois dentes de ouro, faz flores de papel crepom para um armarinho da Avenida 7 e quantas faça, vende. O dono do armarinho, aliás, já lhe propôs outros acordos e vantagens; também Floriano Coelho, artista pintor, bonito e bem falante — um e outro querendo tomá-la a seus cuidados. Mara, porém, é fiel a suas flores e a seu homem. Quando o Major chega, ela se aninha em seu braços magros, sente-lhe o hálito forte, ouve a rouca voz noturna:

— Como vai, meu passarinho?

Três lares, três amásias? Ante o compreensível e natural espanto de muitos ao saber do número e das belas — “é mentira, não pode ser verdade” — o Major pede compreensão e desculpas: levem em consideração a idade provecta e um tempo lavrado de quefazeres. Quando mais moço e mais vadio, não eram três, eram sem conta casas e mulheres, as de pouso certo, as de acidental passagem.

“Archanjo estava sempre rodeado de gente, e as moças não o largavam”, disse o Major, enquanto Ari, redator principal, registra a informação com sua letra ilegível. O doutor Zezinho acompanha a entrevista, curioso. Desfilam figuras, casos, lugares e datas; a memória do Major é poço sem fundo. Tenda dos Milagres, Lídio Corró, Budião, Kirsi, barraca de comidas, Ivone, Rosa, Rosália, Ester, mulheres e mais mulheres, o Afoxé dos Filhos da Bahia, a perseguição a Procópio, o delegado Pedrito Gordo, uma fera, a greve da Circular, a de 34 (“é melhor não falar em greve na situação atual, evite esse tópico, seu Ari”, recomenda o doutor ao jornalista de cabeça-quente, capaz de fazer da greve o centro da matéria, criando dificuldades com a censura), o Terno da Sereia, o santeiro Miguel. Muita coisa, certamente, mas toda aquela lengalenga do Major derrota o dono do jornal: de pouco vale, não possui o mínimo caráter científico.

— Morreu na miséria, não foi? — pergunta Ari.

Bom e simples mas obstinado cabeça dura, um orgulho interior, ninguém pôde com Archanjo. Muitas vezes o Major (não só o Major, outros amigos também) quisera levá-lo para uma de suas casas, quando o velho perdeu as ultimas possibilidades de trabalho. Você aceitou? Nem ele. “Eu me arranjo sozinho, não preciso de esmola”. Velho porreta.

— Faz vinte e cinco anos que ele morreu, exatamente.E em dezembro, uma semana antes do Natal, no dia 18, fará cem anos que ele nasceu.

Ouviu-se uma exclamação: era doutor Zezinho finalmente na posse do que queria e buscava

— O que foi que você disse, Major? Cem anos? Repita isso!

— É verdade: o centenário de Archanjo. Quando festejou os cinquenta, meu doutor, a festa foi de arromba, uma semana inteira, que semana!

Agitado, o doutor Zezinho pusera-se de pé, e anunciou: — Uma semana? Ora um semana... O centenário, Major, vamos comemorar durante o ano inteiro, a começar de amanhã. Para terminar, na data do nascimento, com uma grande solenidade. Seu Ari, o “Jornal da Cidade” vai patrocinar as comemorações do centenário do imortal Archanjo. Está percebendo, está penetrando na ideia? Agora, quem vai rir sou eu. Quero ver a cara do Brito e a do Cardim. Seu Ari, avise a Ferreirinha, a Goldman; vamos fazer uma reunião ainda hoje, vamos lançar a maior promoção dos últimos tempos, em grande estilo. Convocaremos o governo, a Universidade com a Escola de Medicina à frente, o Instituto Histórico, a Academia de Letras, o Centro de Estudos Folclóricos, os Bancos, o comércio, a indústria, organizaremos uma comissão de honra, traremos gente do Rio. Ah Vamos botar essas gazetinhas no chinelo, vamos mostrar como se faz jornal.

Ari estava de acordo.

— O jornal está mesmo precisando de uma boa campanha. Desde que não se pode atacar o governo, a venda só faz cair.

O doutor Zezinho Pinto dirigiu-se ao Major:

— Major, você me deu a ideia para a promoção do ano: o centenário de Pedro Archanjo. Nem sei como lhe agradecer, como lhe pagar.

Sorriu-lhe, não existe melhor paga, melhor agradecimento, remuneração mais grata, do que aquele sorriso tão afetuoso do notável cidadão. Mas o Major, ah! Esse major Damião de Souza: — Ora, não seja por isso, meu doutor. Venha comigo ao Bar dos Focas ali defronte e pague um conhaque, aliás dois, sem contar o seu. Um para mim, outro bebo por Archanjo, o velho era doido por um gole de macieira. Vamos logo, que a hora é propícia.