Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 23 de 77

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Tenda dos Milagres

Capítulo 7

Uma tipografia, sua única ambição na vida e há de realizá-la. Única, pois a outra, a que se refere a Rosa de Oxalá, essa não depende de trabalho ou dinheiro, é sonho impossível. Para transformar esse sonho em realidade deveriam o Senhor do Bonfim e a Virgem das Candeias juntar suas forças, seus poderes no supremo milagre — e talvez ainda se fizesse necessário encomendar na mesma ocasião um ebó para Oxolufan, que é Oxalá velho, o maior de todos.

7

Milagre é isso, meu amor — Rosa ali dançando, a saia branca, rodada, as sete anáguas, os braços e os ombros nus sob a bata de rendas, os colares, as contas, as pulseiras, o riso agreste. Dizer como era Rosa, Rosa de Oxalá, a negra Rosa, descrevê-la com as chinelas de veludo, seu olor noturno, esse cheiro de fêmea, esse perfume, a pele negro-azul em seda e pétala, seu poderio inteiro, da cabeça aos pés, a profunda bizarria, a prosopopeia, os balangandãs de prata, o langor dos olhos iurubás; ah, meu amor, para fazê-lo, só um poeta de provada fama, de lira e de melenas, e não os trovadores da ladeira, em sete sílabas, violeiros bons no desafio, mas para Rosa, ah muito pouco!

Uma vez ia Rosa pela rua, em trajes de festa, pois se destinava à Casa Branca e, em sendo sexta-feira, comprara alva conquém para sacrificar a seu pai Oxolufan. Nu-ma janela do sobrado rico, dois senhores opulentos, um bem idoso, o outro moderninho, viram-na passar com seu presente e sua realeza, toda nos trinques, deixando as chinelas, ao caminhar, um rastro bom de música, a rosa nos cabelos — os cabelos eram um musgo matinal —, abunda em navegação de maré alta e um pedaço de seio iluminando o sol.

Suspiram os dois, e o jovem, mimoso filho de família, rebento de primas e primos em casamento e fornicação de sangue puro, alfenim raquítico e gabola, a voz tatibitate, disse: “que coisa, coronel, essa crioula, ai quem me dera, ai se a tivesse por debaixo e eu por cima !“ Ao que o velho fazendeiro — fora em tempos uma árvore, um rio de torrente caudalosa, um cavalo bravio e garanhão, um terremoto —, tirando os olhos da visão da negra e pondo-os no lindo bacharel, pobre sangue decadente, débil, debilóide, respondeu: “Ah! seu doutor, isso é mulher para muita competência, não é chibiu para qualquer binguinha de fazer pipi, de verter água, nem para pau já pururuca. Para mim não serve mais e para vosmicê não servirá jamais.”

Lídio Corró assume a flauta e o som acorda estrelas; no violão, Pedro Archanjo busca a lua e a traz de longe — para Rosa tudo é pouco, dela nasce o samba na Tenda dos Milagres. A flauta geme amor, soluça.

Rosa sempre chega assim, inesperada, vem de súbito. Da mesma forma inconsequente desaparece; por semanas e meses, ninguém a enxerga; pontual apenas em poucas e determinadas obrigações de candomblé, quando recebe Oxalá no barracão da Casa Branca do Engenho Velho, onde navega o barco de Oxum. Excetuando na roda das feitas dessas grandes festas, em tudo mais imprevisível.

Um dia se apresenta e está durante uma. semana inteira, de segunda a sábado, a chegar antes de todos, a sair na barra da manhã, animadíssima, em risos e cantigas, tirando graças e prosa com Corró, em seu braço apoiada, em seu ombro repousando a fronte, tão carinhosa amante e dona-de-casa tão ativa, a pôr ordem e arrumação nas coisas, que ele a pensa ali definitiva e para sempre, manceba em amigação, esposa em casamento, sua mulher. Mas, quando tudo parece certo e firme, Rosa toma sumiço, não da notícias durante um mês ou dois, um tempo vazio de alegria.

Quando o milagre sucedeu, vai para mais de um ano,por acaso e de repente, sem prelúdio e sem delongas, Lídio, que de há muito a cobiçava, imediatamente quisera oficializar a ligação: “traga seus teréns e mude logo”.

Regressavam juntos de uma festa, certa noite, Lídio oferecera-lhe companhia na estrada deserta e perigosa, e foi ela quem pediu para ver a marmota tão falada: riu de morrer com Zé Piroca, tomou um copo de aluá e se deu fogosa, quase oferecida, como se necessitada. Demorou indo e vindo três dias e três noites: arrumou oficina e quarto, pôs tudo novo e limpo, encheu a casa de cantigas, Lídio ria pelos cantos. Mas bastou ele falar em juntar os trapos, ela fez-se séria e dura, a voz amarga em ameaça e advertência: “Nunca me fale nisso, nunca mais, senão não volto. Se me quiser, se gosta de mim, tem de ser assim,quando me der na telha, quando de livre vontade eu queira vir. Não lhe peço nada, só lhe peço que não se meta em minha vida, não me vigie, não ande me espiando, porque,se eu souber, juro que nunca mais vai ver minha cara”.Disse de tal maneira e com tal acento; não lhe deixou margem a discussão: “Para te ver e ter, comerei sapo e cobra se preciso for”.

Cumpriu o prometido: não lhe fez perguntas e não quis ouvir fuxicos. Fuxicos, arengas, xeretices, pois em verdade ninguém sabe nada de concreto sobre Rosa. A casa confortável nos Barris, com jardim na frente, cortinas nas janelas e um cão de guarda, lar indevassável — apenas a criança vestida no maior capricho, em meio às flores, joga com o canzarrão; mulatinha digna de altar de igreja, Rosa menina de cabelos lisos, morena cor de sapoti.

Definição do viver de Rosa, de seus particulares, só Majé Bassan a tem, os porquês e a consequência, tudo bem guardado nos desmedidos seios. Seios de mãe-de-santo devem ser assim, enormes, para neles caber a aflição dos filhos e filhas e de estranhos e estrangeiros. São arcas de desesperos e rancores, de esperanças e sonhos; são cofres de amor e ódio.

Só Majé Bassan, a temível e doce Mãe, ela e mais ninguém sabe de Rosa e de sua vida, o resto é falatório. “Vive com um ricaço branco, um velho de família nobre, barão ou conde, Duque dos Anzóis e Carapuça, o pai de sua filha”; “é casada no padre e no juiz com um comerciante português e dele teve a menina”. Puro conversê de comadrio, bolodório de xeretas, a locê de párler, no gosto da má-língua. Lídio nunca perguntou, nem quis saber.

Rosa chega, travessa e alegre, sua presença basta, que importa o resto? Conversa, ri e dança; canta e a voz é grave, de noturno acento. Rosa envolta em sombras na pobre luz da Tenda onde a flauta de Lídio chora e suplica. Para quem dança? Para quem os volteios de seu corpo, os requebros dos quadris, os olhos de manimolência? Para Lídio, constante e casual amante? Para alguém que não está ali e não se sabe quem seja, marido, amásio, nobre ou rico, o pai de sua filha? Para Archanjo?

Milagre é isso, meu bem querer — Rosa com seu canto, um cantar antigo, cheio de promessa, de malícia, de sotaque:

“Vamos atrás da Sé

Na casa de sinhá Teté

Caiumba.”

Morre na flauta mestre Lídio Corró, paixão exposta, rompe seu peito aflito. Para tê-la vez por outra come sapos e lagartos, cascavéis. Em sua frente Rosa dança e canta, se oferece e se recusa. Em frente aos dois. Pedro Archanjo nada demonstra; do fogo a devorá-lo ninguém há de saber; Lídio não pode sequer desconfiar e Rosa muito menos. Seu rosto e fechou, de pedra sua face, esse enigma de Archanjo, essa adivinha sem resposta, nem mãe Majé Bassan decifra.