Tenda dos Milagres
Capítulo 4
Noca ainda não soubera da morte do cabo Antônio Archanjo na travessia do Chaco. Mestre pedreiro de conceito, levantava as paredes de uma escola quando a patrulha o recrutou. Voluntário à força, na pranchada, nem lhe deram permissão de vir em casa, despedir-se. Noca lhe acenou adeus na manhã do embarque. Embora desfilasse, triste, no batalhão dos “Zuavos Baianos”, acabrunhado pedreiro sem pá e sem prumo, ela o enxergou garboso e belo na farda de soldado, conduzindo os instrumentos do novo ofício, as armas e a morte.
Quinze ou vinte dias antes, lhe comunicara a gravidez e o amásio quase enlouquece de alegria. Logo falou em casamento e não soube mais o que fazer para agradá-la: enquanto estiver prenha não trabalha, eu não deixo. Lavando e engomando roupa, Noca trabalhou até a hora do parto. O menino vai nascer, Antônio, está me rasgando por dentro, cadê Rita que não chega? Cadê meu Antônio, por que não vem? Ai, Antônio, meu bem, largue tudo, armas e dragonas, venha depressa, agora somos dois à espera, em miséria e solidão.
Levado a pulso para a guerra, vendo-se sem jeito de voltar, com inteligência e valentia o soldado Antônio cumpriu as ordens de matar e ganhou divisas de cabo. “Era sempre escolhido para comissões de reconhecimento, nas avançadas do corpo do Exército onde servia”, leu Pedro Archanjo sobre o Pai nos anais da guerra, quando mediu os sangues — leucoderma, melanoderma, faioderma — derramados pela Pátria: quem mais dera em vidas e em mortes?
Apenas um cadáver podre, pasto de urubus, o cabo Antônio Archanjo jamais veria o filho que, para bem começar a vida, nasceu sozinho, sem ajuda de parteira a lhe facilitar a luz. Naquela mesma hora, sob o frescor das árvores, Monsieur le Comte de Gobineau e Sua Majestade Imperial, o teórico do racismo e o implacável sonetista, cavaqueavam, espirituosos e refinados, melhor dito: raffinés.
Quando Rita Apara-Jegue despontou em casa de Noca de Logunedê, o recém-nascido exibia a força dos pulmões. Pondo as mãos na cintura, a cinquentona pequenina e forte riu às gargalhadas: isto é um Exu, que Deus me livre e guarde, só mesmo gente do Cão nasce sem esperar parteira. Vai dar muito que falar e o que fazer.
4
Do pedreiro transformado em cabo, herdou Pedro Archanjo a inteligência e a valentia citadas nos boletins da guerra. De Noca, a doçura dos traços e a obstinação. Obstinada, criou o filho, deu-lhe casa, comida e escola,sem auxílio de ninguém, sem ajuda de homem pois não quis a mais nenhum, a nenhum voltou a conceder amor ou aventura embora muitos lhe rondassem a porta em rogos e ofertas. Na companhia da Mãe em vida tão parca e dura, o menino aprendeu a não ceder, a não desanimar, a seguir em frente.
Naquele decênio fecundo e trabalhoso muitas vezes Archanjo a recordou: acabara-se ainda jovem, quando, no adubo da miséria, os brotos da bexiga negra plantados nas ruas e ladeiras da cidade floresceram em morte. Ótima safra, a maldita fez colheita farta e até em casas ricas foi buscar defunto. Na primeira leva partiu Noca de Logunedê, não houve Omolu que desse jeito. A força de Noca se desfez em chagas, sua graça apodreceu no beco onde o pus fazia poças. Ao sentir-se desanimar, Archanjo pensava na Mãe: de manhã à noite no trabalho estafante, trancada num círculo de saudade, inflexível na decisão de manter o luto e de ganhar o sustento do filho com a força de tão frágeis braços.
O resto aprendeu sozinho, entretanto jamais esteve solitário, não lhe faltou o apoio da amizade. A lembrança de Noca, a presença de Tadeu, a urgência de Lídio, a vigilância de Majé Bassan, a ajuda do professor Silva Virajá, o estímulo de frei Timóteo, o frade do convento de São Francisco, a assistência da boníssima Zabela, amiga inigualável.
Durante aqueles anos, Tadeu foi aluno, companheiro de estudos e professor. Ainda hoje persiste na Politécnica a lembrança do estudante Tadeu Canhoto: a prova em versos decassílabos, famosa; a vocação para a matemática a fazê-lo o predileto do professor Bernard; a inata capacidade de liderança, que o colocou à frente dos colegas durante os cinco anos de Faculdade, nas manifestações pró-aliados durante a Primeira Grande Guerra, nas noites de aplausos ou pateadas nos Teatros São João e Politeama.
Archanjo deveu a Zabela o domínio das línguas. No convívio da fidalga transformou o francês, o inglês, o espanhol, o italiano, estudados a sós, em idiomas vivos,próximos, íntimos. Dono de ouvido musical, falou francês de conde, inglês de lorde.
— Mestre Pedro, você nasceu para aprender a falar idiomas. Nunca vi tanta facilidade — elogiava, satisfeita, a ex-Princesa do Recôncavo.
Jamais precisara corrigir pela segunda vez erro de gramática ou de pronúncia cometido por Archanjo: alertado, não reincidia. Sentada na cadeira austríaca de balanço, a velha semicerrava os olhos enquanto Mestre Pedro lia em voz alta versos de Baudelaire, Verlaine, Rimbaud, os poetas de Zabela: os volumes ricamente encadernados recordavam tempos de grandeza, as rimas traziam de volta paixões e amantes. Zabela suspirava, embalada na voz macia de Archanjo a castigar na pronúncia: — Deixe que eu lhe conte, Mestre Pedro, é uma histona linda...
A aristocrata empobrecida, a parenta suspeita, encontrara uma família nos dois compadres e no rapaz, não ficou em completa orfandade quando o gato Argolo de Araújo morreu de velhice e foi enterrado no jardim.
O professor Silva Virajá aconselhou a Pedro Archanjo o estudo do alemão e frei Timóteo, o prior de São Francisco, o amigo de Majé Bassan, se prontificara a lhe dar aulas. Muitas vezes, a seu pedido, o frade traduziu do alemão para o português trechos de livros, artigos inteiros, terminando por se interessar ele também pelo problema de raças no Brasil, embora se especializasse no estudo do sincretismo religioso. Tempo longo, prazo curto, havia matérias urgentes, a aprendizagem de alemão não prosperou.
Muito deveu ao professor Silva Virajá que, tendo lido “A Vida Popular na Bahia”, requisitou o bedel para sua cátedra, afastando-o da secretaria onde o trabalho não lhe deixava folga. Bem servido pelo negro Evaristo, auxiliar antigo e dedicado, o sábio possibilitou a Archanjo tempo para as bibliotecas, a da Escola, a do Estado, para os arquivos municipais, para os livros e os documentos. Mas não lhe deu apenas tempo: orientou-o em suas leituras, recomendando-lhe autores, trazendo-o a par das novidades em matéria de antropologia e etnologia. Também frei Timóteo lhe emprestou muitos livros, alguns desconhecidos na Bahia mesmo pelos professores dados a tais estudos. Por intermédio do frade soube de Franz Boas e talvez tenha sido o primeiro brasileiro a estudá-lo.
Que dizer de Lídio Corró? Compadre, irmão maisque irmão, seu mabaça, quantas vezes não apertou o cinto para lhe emprestar — por que o eufemismo sem sentido? — para lhe dar o dinheiro necessário às encomendas de livros, mandados vir do Rio e até da Europa? As novas caixas de tipos, a máquina impressora sujeita à revisão completa e cara, tudo isso para quê? Tudo isso à espera dos novos livros de Pedro Archanjo.
— Meu compadre, você quer saber tudo, não lhe basta que já sabe? Não lhe chega para o livro? Pedro Archanjo ria da pressa do compadre: — O que sei ainda é pouco, até parece que quanto mais leio mais preciso ler e estudar.
Durante aquele comprido decênio, Pedro Archanjo leu sobre antropologia, etnologia e sociologia o que encontrou na Bahia e o que fez vir de fora, juntando tostões, seus e de outros. Certa feita, Majé Bassan abriu o cofre de Xangô e completou a quantia necessária à compra de “Reise in Brasilien”, de Spix e Martius, um exemplar descoberto por um livreiro recém-estabelecido na Praça da Sé, o italiano Bonfanti.
Longa e árida seria a relação, mesmo incompleta, de autores e livros estudados por mestre Archanjo mas vale registrar alguns detalhes de sua caminhada, acompanhá-lo da indignação ao riso.
A princípio tinha de trancar os dentes para prosseguir na leitura de racistas confessos e, pior ainda, dos envergonhados. Apertava os punhos: teses e afirmações soavam como insultos, eram bofetadas, surras de chicote. Por mais de uma vez sentiu ardor nos olhos, gosto de lágrimas humilhadas ao atravessar páginas de Gobineau, de Madison Grant, de Otto Amnon, de Houston Chamberlain. Ao ler, porém, os chefes da Escola Antropológica Italiana de Criminologia, Lombroso, Ferri, Garofalo, fê-lo às gargalhadas, pois correra o tempo e a acumulação de conhecimentos dera a Archanjo serenidade e segurança — pôde constatar a tolice onde anteriormente sofrera insultos e agressões.
Leu amigos e inimigos, franceses e ingleses, alemães, italianos, o norte-americano Boas, descobriu o riso do mundo em Voltaire, deliciou-se. Leu brasileiros e baianos: de Alberto Torres a Evaristo de Morais, de Manuel Bernardo Calmon du Pin e Almeida e João Batista de Sá Oliveira a Aurelino Leal. Não apenas esses aqui citados, muitos outros mais, não teve conta nem medida.
Não abandonou no prazer dos livros o prazer da vida, no estudo dos autores o estudo dos homens. Encontrou tempo bastante para a leitura, a pesquisa, a alegria, a festa e o amor, para todas as fontes de seu saber. Foi Pedro Archanjo e Ojuobá ao mesmo tempo. Não se dividiu em dois, com hora marcada para um e outro, o sábio e o homem. Recusou subir a pequena escada do sucesso e alcançar um degrau acima do chão onde nasceu, chão das ladeiras, das tendas, das oficinas, dos terreiros, do povo.
Não quis subir, quis andar para a frente e andou. Foi mestre Archanjo Ojuobá, um só e inteiro.
Até o último dia de sua vida aprendeu com o povo e tomou notas nas cadernetas. Pouco antes de morrer, acertara com o estudante Oliva, sócio de empresa gráfica, a publicação de um livro, e, ao rolar no Pelourinho, repetia uma frase pouco antes ouvida da boca de um ferreiro: nem Deus pode terminar com o povo. Perdera, no entanto, quase todos os seus livros, a preciosa coleção, reunida pouco a pouco à custa de imenso esforço e da ajuda de tantos homens rudes e pobres, trabalhadores e cachaceiros. A maioria dos volumes foi destruída por ocasião do assalto à oficina, outros desapareceram aqui e ali, em mudanças e correrias, vendidos a Bonfanti em horas de desesperado aperto. Guardou uns poucos, os fundamentais em seu aprendizado. Mesmo quando já não os lia, gostava de tê-los à mão, repassar as folhas, demorar os olhos gastos numa página, repetir de memória uma frase, um conceito, uma palavra. Entre os livros que conservou no caixão de querosene no quartinho dos fundos do castelo de Ester, encontravam-se velha edição do ensaio de Gobineau e o primeiro opúsculo do professor Nilo Argolo de Araújo. Pedro Archanjo partira do ódio para o saber.