Tenda dos Milagres
Capítulo 3
Pedro Archanjo revidou em carta assinada por “Mulato Brasileiro com Muita Honra”. Argumentação maciça, citação de notáveis antropólogos, todos a garantir a capacidade intelectual de negros e mulatos, relação de mestiços ilustres, “inclusive embaixadores do Brasil em cortes estrangeiras”, e um rude perfil do professor Fontes.
“O professor Fontes exige doutor de sangue puro. Ora, puro sangue é cavalo de corrida. Vendo o citado professor atravessar o Terreiro de Jesus em direção à Escola, os estudantes explicam que, ao obter, à custa do prestígio e das manobras do lente de Medicina Legal, o título de professor de psiquiatria, o doutor Fontes possibilitou a repetição de célebre acontecimento histórico: Calígula deu ao cavalo Incitatus uma cadeira no Senado Romano; o professor Argolo de Araújo deu a Oswaldo Fontes uma cátedra na Faculdade de Medicina. Talvez esteja aí a explicação para o fato do professor exigir sangue puro na Faculdade. Puro sangue é cavalo de corrida, puro e nobre. Será puro e nobre o do professor?“
Qual não foi a surpresa de Archanjo ao ver toda a primeira parte de sua carta transformada em artigo de fundo do novo órgão: argumentos, citações, frases, períodos, parágrafos transcritos na íntegra. Da parte referente ao professor Oswaldo Fontes, o redator pouco aproveitou, reduziu os trocadilhos sobre pureza de sangue e a história de cavalos a pequeno comentário: “o ilustre catedrático, cuja cultura não pomos em dúvida, é alvo de troças entre os estudantes devido aos pontos de vista anacrônicos que defende”. Nenhuma referência ao “Mulato Brasileiro com Muita Honra”. Toda a honra coube ao jornal, o artigo obteve repercussão.
Naquele dia, Archanjo teve o gosto de ver as páginas da gazeta pregadas nos muros do prédio da Faculdade, pelos estudantes. O professor Oswaldo Fontes mandou o bedel de sua classe arrancá-las e destruí-las. Ficou uma fera, perdeu a fleugma, a urbanidade, o ar faceto com que sempre enfrentara os rapazes e as zombarias.
3
No exemplo do professor Silva Virajá, Pedro Archanjo aprendeu a analisar minuciosamente opiniões, fórmulas e figuras como se as perscrutasse ao microscópio, para conhecê-las nos mínimos detalhes, tintim por tintim, pelo direito e pelo avesso. De Gobineau soube de cor a vida e a obra, a monstruosa tese, cada minuto de sua embaixada no Brasil: só um conhecimento total, um saber sem dúvidas, pôde converter o ódio cego em desprezo e nojo.
Assim, acompanhando dia a dia o rastro do Embaixador da França na Côrte Imperial, foi encontrar Monsieur Joseph Artur, Conde, ou melhor, Comte de Gobineau, nos jardins do Palácio em São Cristóvão, a comentar letras e ciência com Sua Majestade Pedro II, no preciso instante em que Noca de Logunedê sentiu as dores do parto e mandou um moleque em busca de Rita Apara-Jegue, curiosa de fama e freguesia.
Em 1868, quando Pedro Archanjo nasceu, Gobineau cumprira cinquenta e dois anos de idade e há quinze publicara o “Essai sur l’inégalité des races humaines”. Discorria com o Monarca por entre as árvores do parque, enquanto Noca, em contrações e gemidos, cruzava com o pensamento florestas, rios e montanhas, no rumo das desoladas paisagens do Paraguai, para onde haviam levado seu homem, transferindo-o do ofício de pedreiro para o de matar e morrer em guerra interminável, sem esperança de retorno. Tanto desejara o menino e não estava ali para vê-lo nascer.