Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 69 de 77

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Tenda dos Milagres

Capítulo 22

— Será que não? Eu penso que os orixás são um bem do povo. A luta da capoeira, o samba-de-roda, os afoxés, os atabaques, os berimbaus, são bens do povo. Todas essas coisas e muitas outras que o senhor, com seu pensamento estreito, quer acabar, professor, igualzinho ao delegado Pedrito, me desculpe lhe dizer. Meu materialismo não me limita. Quanto à transformação, acredito nela, professor, e será que nada fiz para ajudá-la?

O olhar se perdeu na Praça do Terreiro de Jesus: — Terreiro de Jesus, tudo misturado na Bahia, professor. O Adro de Jesus, o Terreiro de Oxalá, Terreiro de Jesus. Sou a mistura de raças e de homens, sou um mulato, um brasileiro. Amanhã será conforme o senhor diz e deseja, certamente será, o homem anda para a frente. Nesse dia tudo já terá se misturado por completo e o que hoje é mistério e luta de gente pobre, roda de negros e mestiços, música proibida, dança ilegal, candomblé, samba, capoeira, tudo isso será festa do povo brasileiro, música, balé, nossa cor, nosso riso, compreende?

— Talvez você tenha razão, não sei. Devo pensar.

— Digo-lhe mais, professor. Sei de ciência certa que todo sobrenatural não existe, resulta do sentimento e não da razão, nasce quase sempre do medo. No entanto, quando meu afilhado Tadeu me disse que queria se casar com moça rica e branca, mesmo sem querer pensei no jogo feito pela mãe-de-santo no dia em que ele se formou. Trago tudo isso no sangue, professor. O homem antigo ainda vive em mim, além de minha vontade, pois eu o fui por muito tempo. Agora eu lhe pergunto, professor: é fácil ou é difícil conciliar teoria e vida, o que se aprende nos livros e a vida que se vive a cada instante?

— Quando se quer aplicar as teorias a ferro e fogo, elas nos queimam a mão. É isso que você quer dizer, não é?

— Se eu proclamasse minha verdade aos quatro ventos é dissesse: tudo isso não passa de um brinquedo, eu me colocaria ao lado da polícia e subiria na vida, como se diz.Ouça, meu bom, um dia os orixás dançarão nos palcos dos teatros. Eu não quero subir, ando para a frente, camarado.

22

— Desta vez a besta do Nilo Argolo se excedeu. Imagine você que este trabalho se destina ao Parlamento para que dele nasça uma lei. Uma lei, não: um corpo de leis, ele não faz por menos. — O professor Fraga Neto agitava a plaquete, no auge da indignação: — Nem na América do Norte se cogitou de legislação tão brutal. O Monstro Argolo ganhou até para as piores leis, as mais odiosas, de qualquer Estado sulista, daqueles mais racistas dos Estados Unidos. É uma coisa completa, só lendo!

Fraga Neto exaltava-se com facilidade, o entusiasmo e a repulsa conduziam-no a pequenos e constantes comícios nos corredores da Faculdade e sob as árvores do Terreiro, a propósito dos assuntos mais diversos. Em pouco mais de um lustro, tornara-se extremamente popular entre os estudantes que o buscavam a qualquer pretexto e de quem se fez uma espécie de procurador-geral.

— Esse Argolo é um delirante perigoso, já é tempo que alguém lhe dê uma lição!

Pedro Archanjo levou a brochura, pequeno livro em cujas páginas o professor de Medicina Legal resumia e ordenava suas conhecidas ideias e teses sobre o problema de raças no Brasil. A superioridade da raça ariana. A inferioridade de todas as demais, sobretudo da negra, raça em estado primitivo, sub-humano. A mestiçagem, o perigo maior, o anátema lançado contra o Brasil, monstruoso atentado: a criação de uma sub-raça no calor dos trópicos, sub-raça degenerada, incapaz, indolente, destinada, ao crime. Todo o nosso atraso devia-se à mestiçagem. O negro ainda poderia ser aproveitado no trabalho braçal, tinha a força bruta dos animais de carga. Preguiçoso e salafrário, o mestiço, porém, nem para isso servia. Degradava a paisagem brasileira, apodrecia o caráter do povo, empecilho a qualquer esforço sério no sentido do progresso, “do progredimento”. Num cipoal de citações, em português quinhentista de pretensões literárias, falando em “altíloqua” em “beletrística”, em “quamanho”, “magníloquos primores”, diagnosticava o mal, expunha-lhe a extensão e a gravidade, e colocava nas mãos dos legisladores nacionais a receita e o bisturi, medicação e cirurgia. Só um corpo de leis, resultante do patriotismo dos senhores parlamentares, impondo a mais completa segregação racial, poderia ainda salvar a Pátria do abismo para onde rolava impelida pela mestiçagem “degradada e degradadora”,

Tal corpo de leis a prever e ordenar quanto se relacionasse a negros e mestiços, centralizava-se em dois projetos fundamentais.

O primeiro referia-se à localização e isolamento de negros e mestiços em certas áreas geográficas, já determinadas pelo professor Nilo Argolo: regiões da Amazônia, de Mato Grosso, de Goiás. Clichês de mapas estabelecidos pelo professor, reproduzidos no opúsculo, não deixavam dúvida sobre o inóspito das áreas escolhidas. Esse confinamento não possuía caráter definitivo, destinava-se a manter a “raça inferior” e a “sub-raça aviltante” apartadas do resto da população enquanto não lhes fosse dado definitivo destino. O professor previa a aquisição pelo governo de território africano capaz de acolher toda a população negra e mestiça do Brasil. Uma espécie de Libéria, sem os erros da experiência norte-americana, naturalmente. No caso brasileiro, negros e mestiços, todos, se possível, seriam deportados, mandados embora de vez, para sempre.

O segundo projeto, de claríssima urgência, lei ou decreto de salvação nacional, proibiria o casamento entre brancos e negros, entendido por negros todos os portadores de “sangue afro”. Proibição absoluta, capaz de pôr freio à mestiçagem.

Assim, em breve resumo, despidos da linguagem castiça “imeritamente caída em dessuetude”, projetos e teses parecem absurda loucura. Foram, no entanto, levados a sério por articulistas e parlamentares e, por ocasião da Assembleia Constituinte de 1934, houve quem desentranhasse dos arquivos da Câmara as propostas contidas na plaquete do professor Nilo Argolo: “Introdução ao Estudo de um Código de Leis de Salvação Nacional”.

Há muito tempo Pedro Archanjo não se deixava possuir pela raiva. Desde a recusa oposta pelo coronel Gomes ao pedido de casamento -feito por Tadeu, nada merecera de mestre Archanjo reação de tamanha violência. Na luta contra os desmandos do delegado Pedrito, o coração ferido com as surras, as diligências, as prisões, os assassinatos, Pedro Archanjo não perdera a aparente placidez, a contenção de gestos que lhe marcaram a maturidade e os primeiros anos de velhice. Preciso, ágil, disposto e durona ação, quando a ação se fazia necessária, pacato e manso no dia-a-dia, alegre camarada, compreensivo e bonachão. A brochura do professor Nilo Argolo teve o dom de pô-lo fora de si, aliviou-se em xingamentos: “Chibungo velho, cretino, paspalhão, escroto !”

Ainda no embalo da raiva, foi visitar Zabela, agora de todo incapaz de se locomover com as próprias pernas, presa a uma cadeira de rodas, velhíssima. Pedro Archanjo jamais conseguira saber a idade da Condessa. Quando a conheceu, vinte anos atrás, “velha e arruinada”, ela lhe parecera uma anciã, no fim de uma vida intensa, ardente- e desgastadora. Durante mais de dez anos, Zabela permanecera a mesma daquele fim de tarde na Tenda dos Milagres, a movimentar-se incessantemente, curiosa e infatigável: em certas ocasiões parecia uma adolescente, tal a vitalidade e o entusiasmo da ex-Princesa do Recôncavo e ex-Rainha de Paris.

O reumatismo, por fim, a conteve e limitou. Cheia de dores, picada de injeções, a discutir com médicos, por vezes rabugenta. Não cedeu de vez, reagiu quanto pôde,rua abaixo, rua acima, até que as pernas se recusaram definitivamente àquela correria. Que jeito, senão utilizar a cadeira de rodas enviada de São Paulo por Silva Virajá, sabedor das mazelas da amiga através carta de Archanjo. Não se entregou, no entanto, ao mau humor. A rabugice era dengue e não queixa, charme de velha. Manteve a lucidez e a presença de espírito até o último dia. Adorava viver mas tinha pavor da caduquice, de “ficar broca, de-mente, motivo de deboche e riso”. Se eu ficar caduca, recomendava a Archanjo, arranje um veneno na Faculdade, desses que matam num fechar de olhos, e me dê, sem eu saber. Que idade teria? Quase noventa, se não tivesse mais.

A chegada de qualquer amigo era uma festa, a de Archanjo festa e meia: conversavam horas perdidas, a velha pedia notícias de Tadeu e Lu, inimigos de escrever. É verdade que os Gomes tinham feito as pazes? Enquanto Eufrásia vivera, Zabela andara informada. A avó, porém,batera as botas e a notícia sensacional ela obtivera inteiramente por acaso: um primo distante que residia no Rio, de passagem pela Bahia lembrara-se de lhe fazer uma visita, louvável caridade! Pois bem, esse primo, Juvêncio Araújo, corretor de seguros, estivera na capital com toda a família Gomes: Emília e o coronel, Tadeu e Lu. Passeavam em Copacabana na maior harmonia. Fora o intransigente coronel quem apresentara Tadeu ao corretor de seguros: “Meu genro, doutor Tadeu Canhoto, um dos engenheiros responsáveis pela urbanização do Rio de Janeiro”. Muito orgulhoso do genro, de braço com ele. Archanjo confirmava as pazes. Não soubera por Tadeu ou Lu, há muito não escreviam. Encontrara, porém, Astério, o irmão da moça, de volta dos Estados Unidos. O rapaz, muito amável, dera notícias do casal e do fim da resistência do coronel Gomes. Ao saber da gravidez da filha, embarcara correndo para o Rio, infelizmente Lu perdera a criança, um aborto inesperado. Quanto ao resto, um céu aberto, todos felizes. Tadeu — com certeza o senhor está a par — faz uma carreira extraordinária, consideram-no um urbanista excepcional, domina inteiramente o coronel Gomes. Piscara o olho e rira, simpático rapaz, um boa-vida, não queria saber de trabalhar.

Tadeu não lhe parecia um tanto ingrato? — inquiria Zabela. Ingrato? Por não escrever? Muito trabalho, responsabilidades, pouco tempo. Também ele, Archanjo, era uma negação epistolar. Zabela fitava-lhe o rosto: mulato sestroso, cheio de mistérios.

Pedro Archanjo lia para ela ouvir, Zabela recordava poemas, queria saber das novidades, sorviam cálices de licor. A velha não levava em conta a estrita proibição médica. Uma gota,que mal pode fazer?

Daquela vez foi lhe pedir licença para usar, em livro que se propunha escrever, as informações fornecidas por Zabela durante aqueles vinte anos sobre a aristocracia baiana, as grandes famílias nobres, ciosas de avós, partículas e de sangue branco, puro. Mostrou-lhe a brochurado professor Nilo Argolo: negros e mestiços degredados na Amazônia, no meio da selva, dos mosquitos e do paludismo, das febres no intrincado dos rios, nos pântanos de Mato Grosso.

— Não sobra nem um para contar a história... — riu Zabela entre caretas, o riso lhe provocava dores.

Riu também Pedro Archanjo, a velha lhe restituiu o bom humor

— Nilo Argolo é um micróbio, um verme, un sale individu, uma porcaria de homem, Vá, meu filho, conte tu-do tintim por tintim e escreva depressa para que eu, antes de morrer, possa me rir de ces emmerdeurs.

Retornou Pedro Archanjo ao trabalho disciplinado e o fez com pressa, conforme o pedido de Zabela: quero ver o livro publicado, quero mandar um exemplar a Nilo d’Ávila Argolo de Araújo avec une dédicace.

Não deu tempo, finou-se antes. Lúcida e ferina, na noite anterior à morte riu sem parar, un fou rire, mon cher, quando Archanjo lhe contou sua mais recente descoberta: um certo negro Bomboxê, avoengo dele, Archanjo, e, sabe de quem? Do professor Nilo Argolo de Araújo. Oh la la!

De manhã, a empregada a encontrou morta no leito rococó. Morrera durante o sono, foi a única coisa que fez em silêncio e discretamente em toda sua longa vida, rica e festiva, apaixonada. No dia feio, cinzento e úmido, reuniram-se umas poucas pessoas em torno ao corpo magro: algumas vindas de palacetes da Vitória, outras das ladeiras do Pelourinho e Tabuão. Na hora de conduzir o esquife ao mausoléu dos Araújo e Pinho, viram-se Archanjo e Lídio em companhia de ávilas, Argolos, Gonçalves, Martins, Araújos, nas alças do caixão.

Regressou do cemitério para o trabalho, continuou no mesmo ritmo de urgência como se Zabela ainda fosse viva. Mais ou menos um ano após a publicação do anteprojeto de lei do professor Nilo Argolo, Lídio Corró conseguiu imprimir e encapar cento e quarenta e dois exemplares dos “Apontamentos Sobre a Mestiçagem nas Famílias Baianas”, volume mal-ajambrado em péssimo papel. Faltara dinheiro, o conserto da impressora custara fortuna, tiveram de contentar-se com algumas resmas de papel de jornal obtido por favor e pago com sacrifício.

Em seu terceiro livro, Pedro Archanjo analisou as fontes da mestiçagem e comprovou sua extensão, maior do que ele próprio imaginara: não havia família sem mistura de sangue — apenas uns quantos gringos recém-chegados e esses não contavam. Branco puro era coisa inexistente na Bahia, todo sangue branco se enriquecera de sangue indígena e negro, em geral dos dois. A mistura começou com o naufrágio de Caramuru, nunca mais parou, prossegue correntia e acelerada, é a base da nacionalidade.

O capítulo dedicado a provar a capacidade Intelectual do mestiço inclui imponente relação de nomes de políticos, escritores, artistas, engenheiros, jornalistas, e até barões do Império, diplomatas e bispos, todos mulatos, o melhor da inteligência do país.

Fechando o volume, a grande lista, motivo da grita,do escândalo, da perseguição ao autor. Pedro Archanjo relacionara as famílias nobres da Bahia e completara as árvores genealógicas em geral pouco atentas a certos avós,a determinados conúbios, a filhos bastardos e ilegítimos.Assentados em provas irrefutáveis lá estavam, do tronco aos ramos, brancos, negros e indígenas, colonos, escravos e libertos, guerreiros e letrados, padres e feiticeiros, aquela mistura nacional. Abrindo a grande lista, os Ávilas, os Argolos, os Araújos, os ascendentes do professor de Medicina Legal, o ariano puro, disposto a discriminar e a deportar negros e mestiços, criminosos natos.

Aliás, o livro era a ele dedicado: “Ao ilustríssimo senhor professor e homem de letras, doutor Nilo d’Ávila Oubitikô Argolo de Araújo, em contribuição aos seus estudos sobre o problema de raças no Brasil, oferece as modestas páginas que se seguem seu primo Pedro Archanjo Oubitikô Ojuobá”. Archanjo não medira, nem pesara consequências.

Por parente e primo Archanjo tratou o professor de Medicina Legal nas cento e oitenta páginas do livro. Meu primo para cá, meu parente para lá, meu ilustre consanguíneo. Parentes pelo lado de um tataravô comum: Bomboxê Oubitikô, cujo sangue corria nas veias do professor e nas do bedel. Provas em abundância: datas, nomes, certidões, cartas de amor, um desparrame. Esse Oubitikô encontrava-se ligado aos primeiros grandes candomblés da Bahia e, negro bonito, pusera-se numa Yayá Ávila, nasceram mulatas de olhos verdes, caro primo.