Tenda dos Milagres
Capítulo 12
Pedro Archanjo repetiu: Ogun kapê dan meji, dan pelú oniban, a praga imemorial, a terrível ameaça dos males do mundo, das desgraças sem conta, sortilégio e imprecação, a derradeira dádiva da Iyá. Na cidade, o delegado Pedrito Gordo soltara a malta do terror com carta branca: invadir terreiros, destruir pejis, surrar babalaôs e pais-de-santo, prender feitas e iaôs, iyakêkêrês e iyalorixás. Vou limpar a Bahia dessa imundície! Deu ordens estritas aos soldados da policia, organizou, a escolta de bandidos, partiu para a guerra santa.
Majé Bassan, a doce e temível, a prudente e sábia,fechou os olhos. Ouviu-se ao longe o grito de Yansan à frente dos eguns, Xangô saiu dançando no Terreiro, Pedro Archanjo prendeu a dor no peito e disse: nossa Mãe morreu.
12
Da porta, Pedrito via o medo na face dos secretas, quatro membros da “escolta de facínoras” decantada nos Jornais da oposição: “malta de assassinos promovidos a agentes de polícia pelo atual Governo do Estado tenta empastelar nossa redação”.
Terno de casimira inglesa, chapéu panamá, unhas feitas em manicure, barba escanhoada, pérola no alfinete da gravata, piteira longa, o bacharel em direito Pedro Gordo, o temido e odiado delegado auxiliar, parecia um dândi — um tanto gorducho e maduro mas ainda fútil e inconsequente. Pôs fora a ponta do cigarro, limpou a piteira: os miseráveis estavam com medo.
Na sala, empunhando o revólver, Enéas Pombo, rei do bicho e dono da cidade, agora na oposição e em desgraça, repetiu: — Quem der um passo em frente, morre!
Os secretas se entreolharam: Candinho Faroleiro,Samuel Cobra Coral, Zacarias da Gomeia e Mirandolino, a fera de Lençóis. Extensa e sangrenta crônica de fatos e exageros a proclamar a coragem de Enéas Pombo, povoador de cemitérios, pontaria infalível, continha os policiais.
— Cambada de covardes! — disse Pedrito.
Disse e atravessou entre os quatro, na mão apenas a bengala de junco, fina e flexível. De arma erguida, Pombo mediu o delegado: — Não venha, doutor Pedrito, que leva um tiro!
A bengala zuniu no ar, silvo igual ao de um rebenque, lâmina cortante na face do bicheiro, a primeira, a segunda bengalada, o sangue e as marcas. Cego de dor, Pombo atirara no desespero, ao deus-dará; o delegado fora mais rápido. Baixote e rechonchudo, ninguém o imaginaria capaz de tal agilidade. À vista do sangue, os secretas, recuperados, novamente intrépidos campeões, correram sobre Pombo.
— Levem-no para o xadrez! — ordenou Pedrito.
Samuel Cobra Coral avançou para a gaveta onde estavam as pules e o dinheiro. Os outros três conduziam o bicheiro aos empurrões. O delegado definiu, o desprezo na voz:
— Mofinos, fêmeas sem valia, vocês não passam de uns cagões.
Saiu para a rua, a aglomeração de curiosos abriu-lhe passagem. Pedrito Gordo piscou o olho para a menina do café em frente, entrou no automóvel, partiu em disparada — diziam-no o melhor volante da Bahia.
Nas antessalas da Polícia, reunidos a companheiros da mesma nobre estirpe — Beato Ferreira, Leite da Mãe, Inocêncio Sete Mortes, Ricardo Cotó, Zé Alma Grande —, os quatro heróis da batida vespertina, comentaram a prisão de Pombo e o fim de um reinado. No Palácio, em leilão o trono vago. Quem dá mais?
Intranquilos, os quatro valentões: o doutor Pedrito se expressara claramente, não tivera papas na língua. Armado apenas com a bengala pusera abaixo a prosopopeia de Enéas Pombo, não respeitara revólver, pontaria infalível, fama de assassino, enquanto sem ação eles assistiam, uns galinhas, uns cagões.
— Uns galinhas! — cuspiu Zé Alma Grande antes de retirar-se a fim de atender o recado trazido por um guarda: dirigir-se ao Palácio com urgência para escoltar o doutor Pedrito e o Governador. — Uns cagões!
Ouviram em silêncio, cabisbaixos: antes Enéas Pombo com revólver do que Zé Alma Grande desarmado. Zé Alma Grande não discutia as ordens do Chefe, não vacilava em sua execução. Não havia de ser um caboclo de revólver e ameaças quem o fizesse deixar de cumprir comando de Pedrito. Bater e matar eram para ele coisas simples e normais. Morrer, também, quando chegasse o dia. Zé Alma Grande, negro do tamanho de um sobrado, homem de toda confiança de Pedrito, não conhecia a cor do medo.
Ainda na vergonha da frase do delegado e do desacato do companheiro, perguntavam-se os quatro o que fazer para reconquistar as boas graças do patrão. Pedrito Gordo não era de pilhérias e quando perdia a confiança num assecla, encomendava-lhe destino rápido e definitivo: aposentadoria em cova rasa, bandido não merece consideração. Quantos despachara para o céu? Izaltino, Justo de Seabra, Crispim da Boia, Fulgêncio Bom de Faca, para citar os mais notórios. Antes mandando e desmandando na cidade, a beber de graça, a tomar dinheiro dos espanhóis, a espancar e a prender com ou sem motivo, de repente estendidos no chão do necrotério, “vítimas do dever” segundo informavam o boletim da Polícia e as gazetas do Governo. Por uma razão ou outra, tinham-se desacreditado Junto ao todo-poderoso delegado auxiliar.
Era preciso mostrar serviço com urgência, fazer qualquer coisa capaz de restaurar o prestigio abalado por Enéas Pombo e seu revólver. Algo espetacular, de preferência. O quê?
— E se a gente saísse por aí e acabasse com uns candomblés? — propôs Candinho Faroleiro.
— Você deu no sete. O doutor Pedrito vai gostar — apoiou Mirandolino.
— Hoje é dia de Xangô, tem muito Terreiro batendo — a informação merecia confiança, provinha de Zacarias da Gomeia, entendido no assunto. O dito cujo atribuía a feitiço de macumba a bexiga que lhe deformara o rosto, ebó encomendado por quenga da zona. Além das razões do delegado, ideológicas e eruditas, Zacarias da Gomeia tinha, como se vê, motivos particulares para empenhar-se no combate sem tréguas aos candomblés.
No gabinete de Pedrito Gordo, numa pequena estante, alinhavam-se livros e opúsculos, alguns do tempo de Faculdade, outros lidos depois da formatura, marcados a lápis vermelho, vários de publicação recente. “As Três Escolas Penais: Clássica, Antropológica e Crítica”, de Antônio Moniz Sodré de Aragão, adepto da Escola Antropológica Italiana; “Degenerados e Criminosos”, de Manuel Bernardo Calmon du Pin e Almeida; “Craniometria Comparada das Espécies Humanas na Bahia Sob o Ponto de Vista Evolucionista e Médico-Legal; de João Batista de Sá Oliveira; “Germes do Crime” de Aurelino Leal, Nesses livros, e nos trabalhos de Nina Rodrigues e de Oscar Freire, o estudante Pedrito Gordo, nas sobras do tempo dedicado às pensões de mulheres, aprendera que negros e mestiços possuem natural tendência ao crime agravada pelas práticas bárbaras do candomblé; das rodas de samba, da capoeira, escolas de criminalidade a aperfeiçoar quem já nascera assassino, ladrão, canalha. Branco baiano, vacilando entre o loiro e o sarará, o delegado Pedrito considerava a exibição de tais costumes monstruoso acinte às famílias, achincalhe à cultura, à latinidade de que tanto se orgulhavam intelectuais, políticos, comerciantes, fazendeiros, a elite.
Aos volumes do tempo de Faculdade juntavam-se publicações novas, trabalhos dos professores Nilo Argolo e Oswaldo Fontes: “A Criminalidade Negra”, “Mestiçagem, Degenerescência e Crime”, “A Degenerescência Psíquica e Mental Entre os Povos Mestiços nos Países Tropicais”, “As Raças Humanas e a Responsabilidade Penal no Brasil”, “Antropologia Patológica — os Mestiços”. Quando certos demagogôs, em busca de popularidade entre a ralé, a plebe, o zé povinho punham-se a discutir a repressão aos costumes populares e os métodos violentos usados pela polícia para silenciar atabaques, ganzás, berimbaus, agogôs e caxixis, para impedir a dança das feitas e dos capoeiras, o delegado auxiliar Pedrito Gordo exibia a cultura antropológica e jurídica de sua estante: “São os mestres que afirmam a periculosidade da negralhada, é a ciência que proclama guerra às suas práticas anti-sociais, não sou eu”. Num gesto de humildade, completava: “Apenas trato de extirpar o mal pela raiz, evitando que ele se propague. No dia em que tivermos terminado com toda essa porcaria, o índice de criminalidade em Salvador vai diminuir enormemente e por fim poderemos dizer que nossa terra é civilizada”.
Se os jornais da oposição acusavam-no de preconceito de cor, de fomentar o ódio de raças, Pedrito exibia artigos publicados nessas mesmas gazetas, em ocasiões anteriores, nos quais era reclamada ação policial enérgica contra candomblés e afoxés, capoeiras e festas de Yemanjá. Agora, na oposição, para atacar o Governo e a Polícia, “os pasquineiros sem memória conluem-se com a corja de criminosos confessos ou potenciais.”
Ouvido pela imprensa governista a propósito da campanha da polícia, o professor Nilo Argolo a definiu com justeza e elogios: “Guerra santa, cruzada bendita, a resgatar os foros de civilização de nossa terra conspurcada”. Entusiasmado, comparou Pedrito Gordo a Ricardo Coração de Leão,
Uma guerra santa: os cruzados partiram naquela noite de Xangô para acabar com infiéis. Além dos quatro intrépidos da batida no reduto do bicheiro, formaram nas hostes latinas da civilização os nobres cavaleiros Leite de Mãe, assim chamado por ter o costume de bater na própria Mãe, e Beato Ferreira, especialista em sovas de facão nos presos, igualmente lídimos representantes da cultura defendida a ferro e fogo pelo delegado auxiliar.
Saíram cedo, cada qual com seu cacete, pau de criar bicho, moderna lança daqueles beneméritos cruzados, e fizeram bom serviço. Nas três primeiras casas de santo que invadiram foi-lhes fácil a tarefa: axés pequenos, terreiros modestos, festas em começo. Baixaram o porrete, os gritos de dor de velhos e mulheres, música maviosa, animavam os guerreiros no prosseguimento da missão civilizadora. Quando já não tinham a quem espancar, divertiam-se na destruição dos atabaques, dos pejis, das camarinhas.
A notícia da diligência começou a andar na frente dos policiais, emudecendo orquestras, dissolvendo rodas de feitas e iaôs, apagando as luzes, terminando obrigações e festas. Cabisbaixos, homens e mulheres recolhiam-se às suas casas enquanto os orixás retornavam à montanha, à floresta, ao mar, de. onde haviam vindo para a dança e o canto nos terreiros.
Os cruzados viram-se de repente sem ter a quem surrar, obrigados a interromper tão agradável brincadeira.Contentes com as vitórias alcançadas, confiantes em reaver a estima do temível Chefe, exigiam nos botequins, além de bebida grátis, informações precisas: onde estão batendo candomblé? Vamos, depressa, os endereços! Quem calar a boca leva porrada, quem delatar conta conosco. Souberam da grande festa no Terreiro de Sabaji, nas aforas da cidade.
No barracão, para mais de dez encantados exibiam ricos trajes e participavam da dança. Ao centro, Xangô, montado em cavalo de muita altanaria, o mulato Felipe Mulexê. Dava gosto apreciar aquela dança, o renome do Xangô de Mulexê corria mundo.
Ogan de sala, responsável pela ordem da festa e pelo bem-estar dos convidados, Manuel de Praxedes, atento a cada pormenor, os viu chegar em palavrões e gargalhadas e imediatamente reconheceu a malta de facínoras. O rosto sinistro, comido pela bexiga negra, sem nariz, sem sobrancelhas, Zacarias da Gomeia gritou da porta:
— Agora quem vai dançar é Zacarias da Gomeia, vai começar a dança do pau cantado!
Meio trôpego de cachaça, Samuel Cobra Coral quis penetrar no barracão. Manuel de Praxedes, consciente de seus deveres, exigiu respeito aos santos. “Vá a merda”, respondeu Cobra Coral, e tentou seguir em frente. Com um tapa, Manuel de Praxedes o atirou em cima do colega bexigoso e o porrete mudou de dono. Nas mãos do estivador, arma terrível, um molinete. Embocetou-se tudo.
Reunidos no Terreiro em festa, homens pacíficos e alegres orixás viram-se interrompidos e ameaçados. Alguns valentes juntaram-se a Manuel de Praxedes na resistência. Até hoje circulam histórias dessa briga: Xangô dava invisíveis chibatadas nos secretas e o gigante Praxedes crescera tanto que mais parecia Oxossi, o porrete era a lança de São Jorge a derrubar bandidos. No chão, quebrado, Zacarias da Gomeia puxou o revólver, deu o primeiro tiro.
Ferido no ombro, o sangue a escorrer, Felipe Mulexê,cavalo de Xangô, impávido prosseguiu a dança. Seguindo
o exemplo de Zacarias, os demais cruzados sacaram dos revólveres. Só à bala conseguiram entrar.
Na sala, por fim deserta, permaneciam apenas Xangô em sangue e dança e Manuel de Praxedes a girar o cacete num espaço livre. Juntaram-se os policiais e investiram:vamos levar esse filho-da-puta para a delegacia e lá ele vai ver o que é bom. À frente dos seis heróis, Samuel Cobra Coral, cabra vingativo: na delegacia vou lhe arrancar o couro, a ousadia, o gosto de briga e de macumba, vou lhe bater tanto que você, seu filho-da-puta, vai ficar desse tamanhinho, de gigante vai virar anão.
Num salto sem medida — prodígio de Xangô segundo disse o povo — Manuel de Praxedes saiu pela janela. Antes, com um murro na boca, aliviara Samuel Cobra Coral de três dentes, sendo um de ouro, de estimação, orgulho do secreta.