Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 27 de 77

Páginas do PDF

Tenda dos Milagres

Onde Fausto Pena, indócil arrivista, recebe um vale ⠀瀀攀焀甀攀渀漀), uma lição e uma proposta

Onde Fausto Pena, indócil arrivista, recebe um vale (pequeno), uma lição e uma proposta

 

CONSTATO e afirmo com tristeza: a inveja e a presunção campeiam nos meios de nossa melhor inteligentzia: é-me impossível esconder a melancólica verdade, pois lhe tenho sentido em carne própria as consequências. De solerte e torpe inveja, de presunção tola e alvar, sou a vítima predileta. Por ter sido honrado com a escolha e o contrato (verbal) do grande Levenson para pesquisar a vida de Pedro Archanjo, arrastam- me os confrades na rua da amargura, dizem de mim e de Ana Mercedes cobras e lagartos, mergulham-me em imundície, sufoco em lama e em calúnia. Contei das intrigas políticas, tentativas infames de fazer-me passar por assecla cultural do imperialismo norte-americano, de situar-me em conflito com as esquerdas(o que, aliás, no momento, não deixa de ter suas vantagens), impedindo-me o acesso a uma área vital para quem deseja — e eu o desejo — fazer nome e carreira, e para tanto necessita de trombetas e padrinhos. Em tempo pus a limpo a miserável trama e se não volto a proclamar aqui, de público, minhas inabaláveis convicções é porque, afinal, sou um pesquisador e não um louco ou um aventureiro em busca de provocação e de cadeia. Prefiro bater-me com a invencível arma da poesia, de minha poesia hermética porém radicalíssima.

Não se reduziram os canalhas à área das esquerdas, foram mais longe e fecharam-me as portas dos jornais. Do “Jornal da Cidade” sou colaborador antigo e gratuito(quem ousaria reclamar ao doutor Zezinho pagamentos dos poemas publicados em seu jornal? Felizes, eu e os demais poetas, pois ainda não se lembrou de nos cobrar o espaço e os elogios mútuos), sou presença dominical obrigatória nesse querido J.C., em cujas páginas a cultura encontra abrigo e promoção: a ele devemos a magnífica campanha dos festejos do centenário de nascimento de Pedro Archanjo. No suplemento de literatura do vitorioso órgão, mantemos, eu e Zino Batel, a “Coluna da Jovem Poesia” — em realidade cabe-me o trabalho, dividimos as alabanças e as poetisas.

Somando essa rotineira atividade de poeta e crítico, de colaborador do J.C., à atual e relevante posição do sociólogo em “pesquisa de vivência e repercussão internacionais” (a frase é de Silvinho que, em sua cordial coluna, me oferta irisadas “opalas gráficas e arquiangélicas”), mandei-me para a redação do combativo matutino assim tive notícia do memorável empreendimento.

Digam-me, por favor e com isenção: quem melhor para nele colaborar, senão dirigi-lo, do que eu, assistente direto, espécie de procurador do gênio da Columbia University, que me escolheu, a mim e a mais ninguém, para investigar sobre o imortal baiano? Não só encarregado e contratado mas também pago. PAGO — permitam-me escrever essa sagrada, santa palavra em maiúsculas, esfregá-la na cara faminta dessa saparia de inveja e presunção:qual deles já foi pago com largueza e em dia por trabalho sério, pago por um gênio transcontinental, e em dólares? Vivem das migalhas do governo e da universidade, roncam muito mas na hora do tutu são mansos cordeiros. Quem mais indicado — digam-me — por todos os títulos, para assessorar, contra pequeno pagamento e razoável publicidade, essa meritória campanha do meritório “Jornal da Cidade”? Afinal, Pedro Archanjo é chão onde lavoro, é roça minha.

Pois acreditem: fui recebido com paus e pedras e entre mim e o doutor Zezinho semearam obstáculos de toda ordem. Pensei não poder vê-lo, sequer, tais e tantas as tentativas vãs e as negativas cínicas. Os donos da promoção — poderoso trio de biltres — escutaram-me às pressas, ou melhor, ouviu-me um deles e despachou-me com promessas vagas: “por ora não precisamos de nada, caríssimo,mas, no decorrer da campanha, quem sabe surge uma oportunidade para você, numa entrevista ou numa reportagem”. Isso que eu, de sabido, nem falei em assessoria; ofereci-me tão para colaborar com eles.

Voltei, não me vencem assim facilmente. Trouxe algum material para lhes mostrar e obtive que a cáfila se reunisse em pleno. Ofereceram-me irrisória quantia pelo documentos — e não me davam a menor chance de ligar meu nome à ruidosa promoção.

Resolvi fazer-lhes frente e concorrência dirigindo-me aos demais jornais e Ana Mercedes tentou interferir em meu favor no seu “Diário da Manhã”. Inúteis diligências: os mandões da imprensa estão unidos em monopólio da opinião pública, não se combatem.

Não me restando alternativa, retornei ao “Jornal da Cidade”, disposto a aceitar a proposta indigna, porém única, e vender por dez réis de mel coado o melhor de meu material. Com o arrojo dos desesperados, bati à porta do doutor Zezinho e o grande patrão me escutou bondosamente. Quando, porém, lhe exibi minhas notas, por pouco não fatura uma crise histérica. “Isto é exatamente o que não quero: essa falta de respeito com um grande homem,com um espírito superior. Esse achincalhe, esse apequenamento da figura de Archanjo. Não admito! Se lhe compramos essas laudas de tagarelices e maledicências é exatamente para pô-las fora, para que não sejam usadas e não maculem a imagem de Pedro Archanjo. Meu caro Fausto,pense nas crianças das escolas”.

Pensei nas crianças das escolas, vendi por ninharia meu silêncio. Doutor Zezinho, ainda nervoso, completou: “Polígamo, que infâmia! Não era sequer casado! Meu caro poeta, aprenda esta lição: um grande homem tem de possuir integridade moral e se, por acaso, transigiu e prevaricou, cabe-nos repô-lo em sua perfeição. Os grandes homens são patrimônios da Pátria, exemplos para as novas gerações: devemos mantê-los no altar do gênio e da virtude”.

Com o vale e a lição, agradeci e retirei-me, fui em busca de Ana Mercedes e de uísque, consolos caros.

Não pude assim associar-me à glória jornalística de Pedro Archanjo. Sobram-me apenas umas poucas notícias promocionais de generosos colunistas: Silvinho e Renot, July e Matilde. Procuraram-me também simpáticos rapazes da classe teatral, integrantes do grupo muito para a frente intitulado “Abaixo o Texto e as Gambiarras” — o nome já diz tudo. Propõem-me um projeto de peça sobre Pedro Archanjo, ou melhor, de espetáculo, eles não gostam da palavra peça. Vou estudar o assunto e se me derem ao menos parceria na direção, talvez embarque na aventura.