Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 28 de 77

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Tenda dos Milagres

De como a sociedade de consumo promoveu as comemorações do centenário de Pedro Archanjo, capitalizando-lhe a glória, dando-lhe sentido e consequência

De como a sociedade de consumo promoveu as comemorações do centenário de Pedro Archanjo,

 

capitalizando-lhe a glória, dando-lhe sentido e consequência

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A SECRETARIA-GERAL da Comissão Executiva, promotora das comemorações do centenário de Pedro Archanjo foi entregue ao professor Calazans,acertada escolha. Historiador, o nome de Calazans transpôs de há muito as fronteiras do Estado da Bahia e se projeta em ampla área federal; seus trabalhos sobre Canudos e Antônio Conselheiro,. realmente sérios e originais, valeram-lhe aplausos dos velhinhos do Instituto Histórico Nacional e,salvo engano, prêmio da Academia Brasileira (se a informação é falsa e não lhe deram a láurea aí fica a deixa; ainda é tempo dos senhores imortais sanarem injustiça tão gritante). Professor de duas Faculdades e de várias turmas, douto e bonachão, corre de aula em aula ao passar do dia, com bom humor e farto sortimento de anedotas históricas, defendendo o pão difícil. Com tantos afazeres, ainda encontra tempo e gosto para ser cabide de lugares e títulos; alguns pomposos, trabalhosos todos e todos graciosos — sem sombra sequer de remuneração; secretário da Academia Baiana, tesoureiro do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia, presidente do Centro de Estudos Folclóricos e da Casa de Sergipe, sem levar em conta o condomínio do edifício onde reside, do qual é síndico ab æterno.

Tantas atividades bem sucedidas, tanta tarefa executada a tempo e hora, e mais o estudo, a pesquisa, a elaboração de artigos e ensaios — e o professor sempre lépido,descansado, pachorrento —, esse corre-corre, essa lufa-lufa, só parecerão extraordinários e absurdos a quem ignore a circunstância de proceder o professor Calazans domítico Estado de Sergipe. Para o sergipano, nascido em pleno latifúndio feudal, na ilimitada pobreza, na falta de qualquer recurso, na ausência de mercado de trabalho e de salário, para o sergipano que sobrevive à mortalidade infantil, às endemias, da maleita à bexiga, a todas as limitações e dificuldades, para esse herói não há nada difícil e o tempo se multiplica. Com o professor Calazans centralizando os trabalhos, o êxito das comemorações estava assegurado.

Aliás, a Grande Comissão de Honra (GCH de sigla;Carro Chefe de apelido) já constituía uma antecipação da magnitude, dos festejos. Colocada sob a presidência do Excelentíssimo Senhor Governador do Estado, constituíram-na o Cardeal Primaz, os Comandantes Militares, o Magnífico Reitor, o Prefeito da Capital, os presidentes das instituições culturais e das diretorias dos Bancos baia- nos, o gerente do Banco do Brasil, o diretor-geral do Centro Industrial de Aratu, o presidente da Associação Comercial, os diretores dos jornais diários, o Secretário de Educação e Cultura e o major Damião de Souza.

Excluindo aqueles nomes cuja presença se impunha, pois sem sua anuência ou simpatia qualquer manifestação estaria fadada ao fracasso ou à proibição, todos os demais membros da GCH nela figuravam com fim específico e determinado. Assim explicou o doutor Zezinho Pinto quando, assessorado pelo secretário e pelo gerente do “Jornal da Cidade”, reuniu, em seu gabinete, a pequena Comissão Executiva, “pequena exatamente para ser ágil e efetiva”.

Não era tão pequena assim. Formavam-na além do doutor Zezinho, seu nato presidente, e do secretário-geral Calazans, os presidentes do Instituto Histórico e Geográfico e da Academia de Letras, os diretores da Faculdade de Medicina e da Faculdade de Filosofia, a secretária do Centro de Estudos Folclóricos, o Superintendente do Turismo, e o gerente geral para a Bahia da Doping Promoção e Publicidade S.A.

Todos compareceram à primeira reunião, o ambiente era festivo e um garção — o porteiro da noite — trouxe copos de uísque, já servidos, gelo, soda, guaraná e água à discrição.

— Nacional... — sussurrou, provando o uísque, o macabro Ferreirinha, secretário da redação.

Ao saudar as “eminentes figuras que honram com suas presenças a redação do “J.C.”, doutor Zezinho expôs em rápido (porém brilhante) speech as linhas mestras da promoção e referiu-se com calorosos elogios aos outros componentes da Grande Comissão de Honra, do Governador ao Major. Ao mesmo tempo foi insinuando o que deveria ser pedido a cada um deles. Assim, ao dinâmico Prefeito da Capital, caberia dar o nome de Pedro Archanjo a uma das novas ruas da cidade, enquanto o Secretário de Educação e Cultura o daria a uma escola onde a memória de Archanjo brilhará “reverenciada pelas criancinhas que serão os homens de amanhã, o futuro esplendoroso do Brasil”. Do Magnífico Reitor obter-se-ia a indispensável ajuda intelectual e material da Universidade à organização de toda a campanha e, em particular, do seminário previsto; do Superintendente do Turismo, passagens e hospedagens dos convidados vindos do Sul e do Norte do país. Dos diretores dos jornais, “colegas e não concorrentes”, esperava-se noticiário farto, incondicional apoio não só através dos órgãos da palavra escrita mas também das estações de rádio e de TV por eles igualmente controladas. Quanto aos demais: banqueiros, industriais, comerciantes, esses ficariam a cargo dos eficientes e dinâmicos funcionários da Doping S.A. Esquecera de citar algum nome, por acaso? Ah! sim, o do major Damião de Souza, paladino das causas populares, figura alegórica de nossa urbe; tendo sido amigo pessoal de Pedro Archanjo, era autêntico representante do povo na Grande Comissão de Honra: “não podemos esquecer que Archanjo proveio do povo, das classes humildes e laboriosas, delas se elevando às culminâncias da ciência e das letras” (Palmas).

Entre o uísque e o cafezinho (uísque vagabundo, dos mais baratos, Archanjo merecia coisa melhor, pelo menos uma cachaça decente”, refletiu Magalhães Neto, ancião ilustre, Presidente do Instituto, trocando o copo da beberagem pela xícara do café), a Executiva traçou o programa das comemorações, concentrando-o em três itens fundamentais, sem prejuízo de quaisquer outras iniciativas que viessem a ser lembradas:

a) uma série de quatro cadernos especiais do “J.C.”, publicados nos quatro domingos precedentes ao 18 de dezembro, exclusivamente sobre Archanjo e sua obra; colaboração dos nomes mais representativos não só da Bahia mas de todo o Brasil. Os próprios anúncios, lembrou o diretor da Doping, serviriam à glorificação do nome de Archanjo. Estabeleceu-se uma primeira lista de colaboradores, gente da pesada. Ficaram responsáveis pelos cadernos os Presidentes do Instituto, da Academia, a secretária do Centro de Estudos Folclóricos e o professor Calazans (sem ele nem caderno nem meio caderno);

b) um seminário de estudos posto sob a égide de Pedro Archanjo, a realizar-se na Faculdade de Filosofia,tendo como tema: “A democracia racial brasileira e o apartheid — afirmação e negação do humanismo”. A proposta do seminário provinha do professor Ramos, do Rio de Janeiro, em carta ao doutor Zezinho: “Pedro Archanjo é mestre e exemplo da grandeza da solução brasileira do problema das raças: a fusão, a mistura, o caldeamento, a miscigenação — e para honrar sua memória, por tantos anos relegada ao esquecimento, nada mais indicado do que um conclave de sábios no qual se afirme mais uma vez a tese brasileira e se denuncie os crimes do apartheid, do racismo, do ódio entre os homens”. A organização do seminário ficou a cargo dos diretores da Faculdade de Medicina e da Faculdade de Filosofia, da superintendência de Turismo e, naturalmente, do fero sergipano;

c) sessão solene de encerramento das comemorações, a ser realizada na noite de 18 de dezembro, no salão nobre do Instituto Histórico e Geográfico — local sobre todos indicado, sede de egrégio sodalício, recinto austero, majestoso e pequeno: “porque — disse preciso e prudente o doutor Zezinho — antes sala de poucos lugares e superlotada de ouvintes do que enorme salão repleto somente de cadeiras vazias”. O Superintendente do Turismo, um otimista, propusera o espaçoso salão nobre da Faculdade de Medicina, por que não o da Reitoria, ainda melhor e maior? Mas haverá na cidade tantos abnegados capazes de se abalarem para ouvir, além do professor Ramos, do Rio, os representantes da Faculdade de Medicina, da Academia de Letras, do Centro de Estudos Folclóricos; da Faculdade de Filosofia e do próprio Instituto Histórico — cinco discursos certamente prenhes de castiça beleza e de conspícua ciência, altíssonas obras-primas, ah! altíssonas, longas e maçantes. O doutor Zezinho, experiente da vida e dos homens, não cultivava o otimismo e a seu ver o Superintendente do Turismo era um leviano. A organização do soleníssimo ato ficou a cargo exclusivo de Calazans. Seele não enchesse o salão nobre do Instituto, com suas duzentas cômodas poltronas, ninguém mais o encheria.

Não foi redigida ata dos trabalhos, por desnecessária. Em compensação, doutor Zezinho pediu cópia datilográfica dos três itens, com todos os detalhes — nomes,temas, oradores, teses, e o demais, tintim por tintim, pois ainda queria estudá-los “antes de lhes dar divulgação”. Sorrindo seu sorriso cativante — era como se estivesse a felicitar o interlocutor, a oferecer-lhe dinheiro — acrescentou: “Iremos publicando tudo isso pouco a pouco — cada dia uma novidade. Assim criaremos o suspense e o interesse”.

— Vai pedir o nihil obstat. — murmurou o macabro Ferreirinha ao jocoso Goldman, gerente do jornal, o rei do não: “não há dinheiro em caixa”.

— Ao SNI ou ao Chefe de Polícia?

— Aos dois, provavelmente.

Fotógrafos documentaram o cordial e profícuo encontro para a primeira página da edição do dia seguinte e para a posteridade. As câmaras da TV o filmaram para o noticiário da noite, espontânea colher-de-chá do doutor Brito, “concorrente jamais: cordial colega”, tinha mais uma vez razão o doutor Zezinho Pinto.

Marcada a data da próxima reunião, ganharam todos um aperto de mão do invicto empresário, na despedida. Será que em casa, aos seus convidados, ele oferece esse mesmo infame uísque? — refletia, ainda impressionado,Mestre Magalhães: — Certamente não. Há de ter estoque do escocês. Enfim, com esses milionários tudo é possível, nunca se sabe”.