Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 58 de 77

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Tenda dos Milagres

Capítulo 10

Apoplético, o professor Nilo Argolo perdeu a cabeça, e em récio português apostrofou o peçonhento: “Fuão, fuinha, futrica, réu confesso de baixa luxúria !“ Referia-se à notória predileção do professor Isaías Luna pelas negras, “ardentes e carinhosas, incomparáveis, seu Argolo”!

Quanto ao cético don Leon, teve duas surpresas em tempo relativamente curto. A primeira sucedeu pouco depois de haver exposto na vitrina o livro do bedel com mania de grandeza. De volta da Faculdade, o mais ilustre de seus fregueses, o professor Silva Virajá entrou na livraria, como de hábito, para saber “se o amigo Leon recebeu alguma novidade”. Ao enxergar na prateleira os volumes das “Influências” tomou de um deles:

— Don Leon, aqui está um livro destinado a ser um clássico da Antropologia. No futuro os mestres o citarão e sua fama correrá mundo.

— De que libro habla usted, Maestro?

— Falo deste livro de Pedro Archanjo, bedel de minha cátedra, um sábio.

— Um sábio? Usted bromea...

— Ouça, don Leon! — abriu o livro e leu: — “Formar-se-á uma cultura mestiça de tal maneira poderosa e inerente a cada brasileiro que será a própria consciência nacional e mesmo os filhos de pais e mães imigrantes, brasileiros de primeira geração, crescerão culturalmente mestiços”.

Algumas semanas depois, don Leon recebeu do seu patrício dado à Antropologia a consagradora carta. Agradecia o envio do livro de Archanjo: “Obra magnífica, abre novos campos aos estudiosos, lavra em terra virgem apaixonantes temas. Que cidade mais inspiradora deve ser essa Bahia: pude sentir em cada página sua cor e seu perfume”. Solicitava o envio de livro publicado anteriormente pelo mesmo autor, conforme registro em página de rosto das “Influências”. Daquele primeiro livro, don Leon não tomara sequer conhecimento.

Homem honrado, o livreiro alvoroçou-se e saiu em busca de Archanjo. Fim de tarde, não mais o encontrou na Faculdade. Desceu o Pelourinho a procurá-lo, de carta empunho, extraviou-se em becos e vielas. Pergunta aqui, pergunta ali, em toda parte sentiu a presença do mulato, espécie de pastor e patriarca. Bem diverso do pobre diabo, do maluco com mania de filósofo, como pudera se enganar assim? As luzes se acenderam e don Leon, pela primeira vez em muitos anos, perdeu o bonde das dezoito e dez para os Barris, onde residia.

Quando, por fim, descobriu a casa de Aussá naquele sujo labirinto em que jamais se aventurara antes, a noite de luar descera sobre o caruru regado a cachaça, cerveja e aluá. Indeciso à porta, o cheiro da comida de azeite nas narinas, don Leon olhou a sala pobre e viu seu colega Bonfanti, de boca cheia, os bigodes amarelos de dendê. Sentado entre Rosália e Rosa de Oxalá, o rosto tranquilo e bom, mestre Pedro Archanjo comia com as mãos que é a maneira melhor de comer — Seja bem-vindo, don Leon, tome lugar na mesa.

Veio Aussá com um copo de cerveja, formosa morena trouxe um prato com caruru, acaçá, moqueca de siri.

10

Envergando o terno feito dois anos antes para a formatura de Tadeu, resguardado na porta do templo, Pedro Archanjo a esperou durante alguns minutos, contendo a emoção: pensamentos e imagens de uma vida inteira. Finalmente ela surgiu dos lados da Sé, circundada de olhares, palavras, um halo de desejo. Quase vinte anos, dezessete exatamente, constata Archanjo, e cada ano acrescentara algo à beleza de Rosa de Oxalá. Fora obscuro mistério, violenta tentação, invencível chamado. Agora fêmea sem adjetivos, Rosa de Oxalá.

Não cruzou a Praça, no entanto, em trajes de baiana, saia, bata e anáguas brancas, a cor sagrada do encantado.Quando, à porta da Catedral, ofereceu o braço a Archanjo, exibia vestido de senhora de sociedade, cortado e costurado pela mais cara costureira, joias sem preço, balangandãs de oiro e prata, e a elegância inata de quem nasceu rainha. Arrumara-se como se fosse ocupar o lugar que lhe competia de direito, junto ao pai da noiva, à esquerda do padre.

— Demorei? Miminha só ficou pronta agora, estou vindo da casa das tias, ela vai sair de lá. Ai, Pedro, tão bonita minha filha!

Atravessaram a semiobscuridade da igreja iluminada apenas por duas velas de vacilante chama. As sombras do crepúsculo flutuavam no ar, desciam rente às flores, lírios, palmas, crisântemos, dálias a encher a nave de ponta a ponta. Um tapete vermelho fora estendido do altar-mor à porta e, sobre ele, pelo braço do pai, a noiva pisaria com seu vestido de cauda, o véu, a grinalda, o me-do, a alegria.

Andando no silêncio e na penumbra, Rosa murmura num queixume

— Por meu gosto a Igreja seria a do Bonfim, mas nesse casamento eu não abri a boca para dar opinião. Era para o bem de minha filha, me calei.

Enquanto de joelhos ela reza o padre-nosso, Pedro Archanjo foi em busca de Anísio, sacristão da Catedral e seu conhecido de muitos anos no Terreiro de Jesus. Não chegava a ser parceiro de cachaça e violão como Jonas, o da Igreja do Rosário dos Pretos mas, quando uma semana antes Archanjo o consultou, ele não pôs dificuldade, não fez objeção, apenas um comentário melancólico:

— Onde já se viu uma coisa assim? Admiro que ela se sujeite.

Guiados pelo sacristão, enfiam-se por detrás do altar, sobem as escadas e além do coro, em recanto esconso,num pequeno banco sentam-se os dois, dali dominam to-do o interior da Catedral. Antes de deixá-los para ir acender as luzes, Anísio, mulato claro e fanhoso, não se contém, retorna à cruel constatação: — O que me admira não é tanto a mãe se conformar, é a filha consentir Nos lábios de Rosa nasce um sorriso vitorioso:

— Vosmicê aí se confundiu. Deu muito trabalho para ela aceitar que eu não viesse. Me queria junto, a pulso, o tempo todo. Ameaçou até acabar o casamento.

— Então, por quê?

— Uma coisa eu lhe digo e basta: por bondade de vosmicê, daqui de cima desse buraco de rato, vou poder ver minha filha se casar. Mas, em troca, ela vai entrar na igreja pelo braço do pai, reconhecida e perfilhada no cartório, filha igual às legitimas, às da esposa. Me diga vosmicê se acha caro o preço que paguei, porque eu, que sou mãe, acho barato.

— Cada um sabe de seus particulares, dona. Me desculpe.

— Só tenho que lhe agradecer, vosmicê foi bom demais em permitir.

Desceu o sacristão. Por um momento, .com o pequeno lenço de rendas sobre a boca, Rosa prendeu os soluços.

Lábios cerrados, Pedro Archanjo olhava em frente, sombras cresciam entre imagens e altares.

— Tu também não entende? — perguntou Rosa quando pôde falar: — Tu bem sabe que eu tive de me decidir. Um dia, ele me disse: “Miminha é a minha filha mais querida e quero que ela seja tão minha filha e minha herdeira quanto as outras duas. Já avisei a todos em casa, já comuniquei a Maria Amélia...” É o nome da mulher dele... “Já tratei tudo no cartório, só tem uma condição...”Nem perguntei pela condição, só quis saber: o que foi que sua mulher disse? Respondeu na mesma hora: “Disse que não tem nada contra Miminha, que Miminha é inocente, não tem culpa, ela só tem raiva de você”. Enquanto eu ria da raiva da despeitada, ele acabou comigo. “A condição para legitimar Miminha é que ela será criada pelas tias, afastada de sua companhia.”Nunca mais vou ver minha filha? “Pode ver quando quiser mas minhas irmãs a educarão, viverá em casa delas, vindo aqui só vez por outra. Está de acordo ou não quer o bem de sua filha?” Foi nessa ocasião que fiz o trato com ele, foi de boca, mas se ele cumpriu direito porque eu não havia de cumprir? Nem por ser negra sou falsa e sem palavra. Será que tu entende? Era para o bem de Miminha! Tu não entende, eu sei que tu não entende.Tu queria que eu brigasse. Tu pensa que eu não sei?

Lá embaixo o sacristão começou a acender as lâmpadas e, num esplendor de flores e luzes, a Catedral recebeu os primeiros convidados. Pedro Archanjo apenas disse:

— Como você pode saber o que eu penso?

— De tu, Pedro, sei tudo, mais do que de mim, sei teu pensamento. Para quem dancei a vida inteira? Mediga! Só para dois: Oxalá, meu pai, e tu, que não me quis.

— Tu esquece do pai de Miminha e de compadre Lídio...

— Por que tu fala assim? Em que te ofendi? Jerônimo me tirou da vida: quando me levou com ele, eu era meretriz de mão em mão, não tive escolha. Me deu casa e comida, roupa da melhor e até carinho. Foi bom comigo, Pedro. Todo mundo tem medo dele, tudo quanto é mulher, até a verdadeira. Pois comigo sempre agiu direito: me tirou da vida, me deu conforto, nunca levantou a mão para me bater. Registrou o nome de Miminha no cartório, avisou a todo mundo: “é minha filha igual às outras duas”

— Só que não tem mãe... — a voz de Archanjo chega das últimas sombras; a claridade das lâmpadas cobre as palavras amargas.

— De que lhe havia de servir a Mãe, reles amigada,antiga mulher-dama, negra de roda de samba, batuqueira? Quando ele levou Miminha, eu disse: “meu santo eu não abandono, não conte comigo em tempo de obrigação”. Não foi toda a vida assim? Me diga, não foi?

— Foi, sim Na obrigação e na Tenda, com Lídio.

— É verdade. Ele tinha tomado minha filha, tinha posto em casa das irmãs solteironas, só deixava ela me ver uma vez por semana. Era para o bem de Miminha, eu tinha consentido mas me comendo por dentro: para ele eu só prestava para cama, não servia para criar minha filha. Quando levaram a menina, fiquei como doida, Pedro, cegaram minhas vistas, escureceram meu entendimento. Fui desabafar no Terreiro, buscar consolação. Dei com Lídio...

Sua voz, de tão pequena e rota, não sai igreja a fora, nasce e morre ali- naquele canto escuro, mal chega aos ouvidos de Archanjo.

— Lídio! O melhor homem que conheço, junto dele tu é um cabra ruim, Pedro. Mas, nisso tudo, só teve uma coisa errada. Naquela noite, em vez de encontrar Lídio, eu devia ter encontrado era tu. Para quem dancei esse tempo todo? Só dancei, te juro, para Oxalá e para tu, meu Pedro. Tu sabe que é verdade e que se não passou da dança é porque tu quis assim.

— Se fosse outro qualquer, mas Lídio... Você mesma disse o porquê.

Os convidados começavam a chegar e a encher o templo. As mulheres, em requintes de elegância para o casamento chique, o mais falado do ano, espalhavam-se pelos bancos num rumor de sedas e risos. Os homens reuniam-se ao fundo da nave, a conversar. Algumas pessoas

— padrinhos, familiares dos noivos, autoridades — ocupavam os dois renques de cadeiras próximas ao altar-mor,

habitualmente destinadas ao Capítulo da Igreja. Rosa, vez por outra, reconhecia e apontava:

— Olhe os pais de Altamiro! Agora são meus parentes, Pedro, estou cheia de parentes ricos e brancos — riu, mas era triste o riso.

A mãe, senhora gorda, de passo vagaroso, rosto bonachão. O pai, um coronel do cacau, magro, nervoso e loiro, faltavam-lhe a montaria e o rebenque. Ia de cabeça erguida, um sorriso altivo, o bigode cor de mel, um estrangeiro.

— Gringo? — perguntou Archanjo.

— Ele não, mas o pai era, penso que francês, o sobrenome é Lavigne, Homem sem besteira, Pedro. Todo gringo assim e podre de rico — pois veio me visitar, trouxe a mulher, e disse: “Dona Rosa, sua filha vai ser mulher de meu filho, minha nora. Minha casa é sua, somos parentes”. Pelo gosto dele eu estaria ali, no altar. Pelo gosto dele e do rapaz.

— Do noivo?

— De Altamiro, sim. Gente boa Pedro. Mas se eu me impusesse, a família do pai de Miminha não ia vir, as tias foram mãe e pai para ela. Não fiz bem em não brigar? Daqui também eu vejo, Pedro.

Da igreja subia um rumorejo alegre, animação de festa. Pedro Archanjo reconheceu o professor Nilo Argolo de braço com dona Augusta. Foi o único momento em que sorriu durante toda a cerimônia. Rosa apertou lhe o.braço,cada vez mais tensa:

— As tias! Estão entrando: quer dizer que Miminha já chegou.

Duas velhas altas, emproadas, os cabelos grisalhos,foram ocupar lugares junto ao altar, em frente dos pais do noivo, O coro enchera-se de gente, alguém experimentou o som do órgão.

— Lá vai Altamiro com a madrinha, a mulher do senador.

Pedro Archanjo achou o rapaz simpático: saíra ao Pai na cor e nos cabelos loiros, da mãe herdara a expressão um tanto ingênua.

Toda a sociedade de Salvador se reunira na Catedral, viera gente de Ilhéus e Itabuna os Lavigne colhiam milhares de arrobas de cacau e o rapaz, não lhe bastando tanto dinheiro, advogava. O pai da noiva, plantador e exportador de fumo, explosivo, nobre, violento, dissoluto, ganhara, perdera, refizera fortunas. A mãe — murmuravam as mulheres em cochichos —, era uma negra coberta de ouro e pedrarias, sua rapariga, macumbeira que o tinha preso há mais de vinte anos, quem pode com feitiço? Dizem que sendo o pior dos mulherengos só gostou verdadeiramente de uma mulher em toda a vida, dessa negra, mãe da menina. A menina é um brinco de formosa, uma teteia.

Faz-se música o som do órgão, cresce o rumor na nave, o coro entoa a Marcha Nupcial. Rosa de Oxalá aperta o braço de Archanjo, o peito arfante, os olhos úmidos.

Miminha nas rendas brancas do vestido, filha da mais bela negra da Bahia e do último senhor desatinado do Recôncavo, pisa o tapete vermelho pelo braço do pai.Duas vezes já esse pai fizera idêntico caminho sobre o mesmo estofo, entre luzes e flores, ao som da música,trazendo para o altar as outras filhas. Nunca, porém, com tanto orgulho atravessou a nave. As primeiras filhas eram queridas porque nasceram de seu sangue. Essa de agora, mais que todas bem amada, nascera-lhe do sangue e do amor.

Muitas mulheres possuiu o doutor Jerônimo de Alcântara Pacheco, teve xodós, paixões violentas, raparigas e casadas, moças donzelas em rapto e primícias, esposa com carta de nobreza. Amor, só uma vez, pela negra Rosa. Mesmo quando a uni-los só restou a filha e, ferida de morte, Rosa impôs-se livre, em certas noites ele vinha alucinado em busca do corpo inesquecível, vinha feito doido, capaz de matar para tê-lo se preciso fosse. Rosa nunca se negou e enquanto ele viveu o considerou dono de uma parte de seu ser.

Morde o lenço de rendas, rasga-o nos dentes, afoga os soluços, deita a cabeça no peito de Archanjo: ai, minha filha! O padre reza, se exalta no sermão, fala do talento do noivo, da beleza da noiva, do prestígio das famílias que naquela hora se uniam pelos laços indissolúveis do sacramento do matrimônio. Para Rosa de Oxalá chegou o momento de outro compromisso.

Pouco a pouco se despovoa a igreja, Miminha partiu pelo braço do marido, foram-se as tias, os pais do noivo, os padrinhos, os convidados, o orgulhoso Alcântara. Cessou a música, novamente o silêncio, O sacristão apaga as luzes, primeiro os castiçais, depois as lâmpadas. As sombras crescem, apenas duas velas iluminam a noite e a solidão dos santos.