Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 54 de 77

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Tenda dos Milagres

Capítulo 6

Quem possui a chave da adivinha? Em sua dança perpassa uma vida inteira e, em certo instante, vibra na sala o grito de Yansan. Cada pergunta tem uma resposta certa e muitas falsas. Pedro Archanjo retém Tadeu de encontro ao coração, será por pouco tempo.

Já não falta ninguém, cabe a Tadeu agradecer, engolir as lágrimas, dançar para os orixás que o tiveram em proteção e para os amigos que o conduziram até aquela hora: seus pais e irmãos, tias e primas, a numerosa família.

Nessa hora exata saiu das sombras, desceu talvez do cartaz do Moulin Rouge, a condessa da Água Brusca, a avó Zabela, veio para o centro da roda dançar para Tadeu. Não as danças rituais, não eram as suas.

Levantando a barra da saia, exibindo sapatos, anáguas, calçolas de babados, dança na Tenda dos Milagres o cancã parisiense e era tão jovem a velha sem idade quanto Dé, menina apenas púbere. O quadro de Lautrec faz-se realidade, mulatas francesas invadem o Tabuão: as mulheres na roda logo imitam o passo divertido, a dança das estranjas, estreiam o inusitado ritmo. De pé, os homens erguem as palmas das mãos e saúdam a condessa Isabel Tereza com os gestos, as reverências e as palavras iorubas reservadas às mães-de-santo, gritam Ora Yeyêo! pois logo se percebe no dengue e na faceirice ser Zabela filha de Oxun, a sedutora.

Assim dançou Zabela o cancã de Paris na Tenda dos Milagres. em homenagem ao neto. Depois o beijou nas duas faces.

Milagre é isso, amor, as avós dançando, duas avós tortas e o neto doutor, dançando cada uma sua dança.

6

— Lá vêm eles... — anunciou Valdeloir.

Aussá, Mané Lima e Budião trouxeram os fogos, o charuto aceso do mestre capoeirista serviu de brasa. A seta cortou o céu, abriu-se em luz sobre o pequeno cortejo. Num grupo compacto, meia dúzia de homens enfarpelados em roupas domingueiras descia a ladeira em marcha lenta, ao ritmo do passo belle époque da condessa Isabel Tereza. A velha dava o braço a Tadeu, os dois na frente, a branca avó, o neto escuro.

Com foguetes e rojões, espirais de estrelas, pistolas coloridas, chuvas de prata, os amigos aglomerados na porta da Tenda dos Milagres iluminaram o caminho do engenheiro Tadeu Canhoto, pouco antes diplomado no Salão Nobre da Escola Politécnica. Parecia dia claro, era noite de milagres.

Apoiada no bastão, mãe Majé Bassan destaca-se do ajuntamento e anda em direção ao cortejo. Querem ampará-la, não permite.

Uns dois anos antes, após examiná-la, os médicos proibiram-lhe qualquer esforço. Mãe Majé Bassan, vá descansar, disseram. Não tem mais idade nem saúde para o afã de mãe-de-santo, entregue a outra mais moça o adjáe a navalha. Não saia de casa nem para ir à esquina, não puxe cantiga, um passo de dança, um só, pode significar a morte, o coração dilatado ameaça estourar a cada instante, está gasto demais. Permaneça em sossego, sentada na cadeira, na boa prosa, se quiser viver. Não se canse, não se aborreça. Disse que sim, pois não, doutor, é claro, oxente!. o doutor manda, eu obedeço, então não há de ser? Os doutores viraram as costas, Majé Bassan retomou as obrigações, a navalha, os búzios, o adjá, o barco das iaôs, a roda das feitas, o bori e os ebós. Utilizava-se, porém, da proibição de sair de casa para recusar quantidade de convites, fazia muito tempo que não punha os pés além dos limites do Terreiro. Quando anunciou a decisão de ir tirar cantiga e abrir a dança na festa de Tadeu, as filhas-de- santo tentaram impedi-la: e a opinião dos médicos, o coração inchado? Vou de qualquer maneira, canto e danço e nada vai acontecer. Ali estava, a outra avó, e sozinha, firmada em seu bastão, anda para o moço.

Tadeu lhe oferece o braço livre e assim, entre as duas velhas, alcança a porta da oficina. Explodem os foguetes e os rojões.

Portadores de convites, uns poucos privilegiados haviam comparecido à solenidade de formatura. Assistiram à colação de grau, escutaram os discursos, reagindo cada qual a sua maneira. Pedro Archanjo, de roupa nova, bem posto, bonitão, serena alegria. Lídio Corró gritara bravos quando os oradores, o professor e o engenheirando, condenaram os preconceitos e o atraso. Não tirava os olhos de Tadeu, comovidíssimo ao ver entre os jovens doutores o menino que crescera na Tenda dos Milagres e cujos estudos ele praticamente custeara. Damião de Souza, de terno branco, rábula estreante: se fosse ele a discursar levantaria o auditório! Manuel de Praxedes, metido em trai e de cerimônia, pequeno para o corpanzil de gigante, menor ainda para a exaltação a dominá-lo. De mulheres, só Zabela, numa elegância rococó, demodê, trapos de Paris, luvas, joias e perfumes, olhos de malícia. Os lentes, os ricaços, as autoridades vinham beijar-lhe a mão:

— Forma-se alguém de sua família, condessa?

— Aquele ali, espie. O mais bonito de todos, o rapagão.

— Qual? Aquele... moreno...? — estranhavam: — É seu parente?

— Parente próximo. É meu neto — e ria tão brejeira e divertida que a seu redor a festa começou antes da hora.

Para espanto de muitos e escândalo de alguns, na ocasião de receber o canudo de doutor, Tadeu atravessou a sala pelo braço de Zabela (“essa coisa ruim, sem pejo, sem decoro”, rosnou dona Augusta dos Mendes Argolo de Araújo) e, na falta de mãe ou noiva, foi a velha Condessa quem lhe pôs no dedo o anel de grau, a safira de engenheiro.

Pedro Archanjo, ainda sereno apesar da crescente emoção, acompanhara os passos de Tadeu e viu quando em furtivo gesto recolheu o cravo e o colocou na lapela. Observou como erguia a cabeça e sorria triunfante. Caíra casualmente a flor das mãos da moça ou de propósito a lançara na passagem do moço engenheirando? Uns cachos loiros, os olhos maiores da Bahia, a pele de opalina, de tão branca quase azul. Pedro Archanjo a examina, curioso. Levantando-se da cadeira, ela aplaude com as mãos de dedos longos e finos, nervosa, a face tensa, a boca firme. Finalmente doutor, Tadeu sorri de pé ao lado de Zabela quando o Diretor da Faculdade lhe entrega o diploma, o ambicionado canudo, e o Governador do Estado lhe aperta a mão. Seus olhos buscam a moça, ardente mirada, depois dirigem-se ao grupo da Tenda dos Milagres.

Meu Deus!. o meu rapaz, tão menino ainda! Pedro Archanjo aplaude pensativo, já não é serena sua alegria, temperou-se agora de pressentimentos. De qualquer maneira, Tadeu, tens minha inteira aprovação. Haja o que houver, seja como for, custe o que custar, não recuses. Somos de boa cepa, nosso sangue misturado é bom de briga, não recuamos nunca, e não abrimos mão de nosso direito, vivemos para exercê-lo.

Na tribuna, pouco depois, o paraninfo, professor Tarquínio, deseja aos recém-formados sucesso na carreira e na vida. Há um Brasil a educar e construir, libertando-o do atraso e dos preconceitos, da rotina e da politiquice. Há um mundo ferido pela guerra a refazer. Tarefa grandiosa e nobre, responsabilidade dos jovens, antes de tudo dos engenheiros: vivemos o século das máquinas, da indústria, da técnica, da ciência, da engenharia.

O engenheirando Astério Gomes, falando em nome dos colegas, respondeu ao apelo generoso. Sim, construiremos sobre as ruínas da guerra um mundo novo e arrancaremos o Brasil do marasmo em que vegeta. Um mundo de progresso e liberdade, livre de mazelas, preconceitos,opressões e injustiças. Um Brasil cortado de estradas, de fábricas e máquinas, desperto, em marcha. Um mundo com oportunidades para todos, sob o signo da técnica. Os trabalhadores na misteriosa Rússia derrubam os bastiões da tirania.

Entre aplausos, ouviu-se no salão da Politécnica a palavra socialismo e o nome estranho de Vladimir Iliich Lênin, pronunciados pelo rico engenheirando, filho de grandes fazendeiros. A Revolução de Outubro acabara de dividir o mundo e o tempo, o passado e o futuro, mas poucos se davam conta da mudança e ainda não tinham medo: Lênin era vago e distante líder e socialismo vocábulo inconsequente. O próprio orador não tinha ideia da importância de sua citação.

Por um instante, Pedro Archanjo os viu lado a lado, Tadeu e a moça, quando ela correu para o irmão após o discurso, e o beijou. Também os colegas vieram abraçar o orador da turma. Lado a lado, a clara e diáfana beleza da donzela e a escura e viril galhardia do rapaz.

Na Tenda dos Milagres, após a dança ritual de saudação, silenciados os atabaques, as garrafas foram abertas.Sobre a mesa onde juntavam os tipos na composição das páginas havia quantidade de comida, variada e saborosa: as moquecas, as frigideiras, os xinxins, os abarás, os acarajés, o vatapá e o caruru, o efó de folhas. Muitas mãos amigas e competentes misturaram o coco e o dendê, mediram o sal, a pimenta, o gengibre. De madrugada, em vários terreiros de nações diversas, os bodes, os carneiros, os galos, os cágados, as conquéns haviam sido sacrificados. Majé Bassan jogara os búzios, três vezes responderam: trabalho, viagens e penas de amor.

Os foguetes explodiam no céu, espalhavam a notícia: na Ladeira do Tabuão vive doutor de borla e capelo, o primeiro a se formar em Faculdade. Na parede da oficina, entre o desenho do milagre e o cartaz de Toulouse-Lautrec, Lídio Corró pendurou o quadro de formatura: Tadeu, de beca, entre os demais colegas. Jamais se reunira tanta gente de uma só vez na Tenda dos Milagres.

O copo de cachaça na mão, ergue-se Damião de Souza, pigarreia, pede silêncio, vai brindar. Espere!, ordena a Condessa. Para Zabela, brinde que se preze, em festa decente, exige champanha, ou melhor, champagne francesa, única digna de beber-se à saúde de um amigo verdadeiro. O professor Silva Virajá lhe enviara três garrafas da melhor com votos de feliz Natal, Zabela separou uma para a festa de Tadeu.

Bem educada, Majé Bassan molha os lábios na bebida da fidalga. Lídio e Archanjo fazem o mesmo: Zabela não conseguira ganhá-los para os vinhos finos, mantiveram-se os dois compadres fiéis à cachaça e à cerveja. Após os tropos da inflamada oratória, torrente impetuosa, Damião de Souza emborca seu cálice de um trago, êta bebida besta! Quem bebeu realmente a garrafa quase inteira foi a doadora. Abraçaram-se Tadeu e Damião, juntos cresceram no areal e na ladeira, partem agora, cada um com seu destino.

Olhos de Ojuobá, Pedro Archanjo os reconhece e acompanha: são diferentes os caminhos. Damião, um livro aberto, sem segredos, não conquistou título de doutor em Faculdade, quem lhe deu títulos e patentes foi o povo. Onde quer que o leve sua sina, permanecerá igual, sempre o mesmo, plantado ali, inamovível. Tadeu começou a galgar a escada ainda na Faculdade, à frente dos colegas. Decidira subir todos os degraus, disposto a obter um lugar em cima. “Hei de ser alguém, padrinho”, dissera na manhã daquele dia, uma flama de ambição. Por quanto tempo o teriam ainda na Tenda dos Milagres?