Tenda dos Milagres
Capítulo 2
— Então, até outra.
— Adeus, Tadeu Canhoto. Da porta, Archanjo e Lídio viram-no subir a ladeira, o passo firme, girando a bengala na mão, um senhor importante, bem vestido, anel no dedo, circunspecto e distante, o doutor Tadeu Canhoto. Desta vez a despedida era para sempre. Perturbado, Lídio Corró retomou a pintura do milagre: — Nem parece o mesmo.
Para que lutamos nós, compadre Lídio, meu bom, meu camarado? Por que estamos aqui, dois velhos sem vintém no bolso? Por que fui preso, por que acabaram com a tipografia? Por quê? Porque nós dissemos que to-dos devem ter direito a estudar, a ir avante. Você se lembra, compadre, do professor Oswaldo Fontes, do artigo na gazeta? A negralhada, a mulataria está invadindo as Faculdades, preenchendo as vagas, é preciso um freio, pôr cobro, proibir essa desgraça. Recorda a carta que escrevemos e mandamos à redação? Virou artigo de fundo e as páginas do jornal foram coladas nos muros do Terreiro. Tadeu partiu daqui, aqui começou sua escalada, subiu e já não é daqui, meu bom, é do Corredor da Vitória, da família Gomes, é o doutor Tadeu Canhoto.
Na Escola de Budião, os capoeiristas cantavam moda antiga, da época da escravatura:
“No tempo que eu tinha dinheiro Comia na mesa com ioiô Deitava na cama com iaiá Camaradinho, eh Camarado!
O doutor Fraga Neto diz que não há branco nem negro, há rico e pobre tão-somente. O que é que você quer, compadre? Que o moleque estude e continue aqui na pobreza do Tabuão? Foi para isso que ele estudou? Doutor Tadeu Canhoto, genro do coronel, herdeiro de terras e de gado, bolsa na França, viagem na Europa, não há branco nem negro, no Corredor da Vitória o dinheiro embranquece, aqui miséria negra.
Cada um com sua sina, meu bom. Os moleques dessa rua, camarado, vão se dividir, cada um o seu destino. Alguns calçarão sapatos, usarão gravata, doutores de Faculdade. Outros prosseguirão aqui, com a bigorna e o malho. A divisão de branco e negro, meu bom, se acaba na mistura, em nossa mão já se acabou, compadre. A divisão agora é outra e quem vier atrás feche as cancelas.
Adeus, Tadeu Canhoto, em teu caminho para cima. Se passares na Finlândia procura pelo Rei da Escandinávia, Oju Kekkonen, é teu irmão, dá-lhe lembranças minhas. Diz-lhe que seu pai, Pedro Archanjo Ojuobá, vai muito bem, nada lhe falta.
— Doutor Tadeu Canhoto, homem ilustre e rico, compadre. A vida anda sem parar, a roda não gira para trás. Vamos sair e passear, meu bom. Onde há uma festa hoje, camarado?
2
Dias depois, no fim da tarde, de volta do sebo de Bonfanti onde fora receber provas do livro sobre culinária baiana, ao chegar na Tenda dos Milagres, Pedro Archanjo encontrou Lídio Corró, compadre, amigo, irmão, mabaça, caído morto em cima do milagre inconcluso, sangue verdadeiro a transbordar dos trilhos.
A brocha do pintor apaga as letras na fachada, já não existe a Tenda dos Milagres. Um velho desce a ladeira, em passo lento.
3
Inicialmente restrita aos motorneiros, condutores, fiscais de bondes e demais funcionários da Companhia Circular da Bahia, estendida depois às suas subsidiárias,Companhia de Energia Elétrica e Companhia Telefônica, a greve encontrou mestre Pedro Archanjo a subir e descer as ladeiras do Pelourinho, Carmo, Passo, Tabuão, a percorrer a Baixa dos Sapateiros, apresentando contas de luz. Por intermédio do doutor Passarinho, advogado da Empresa, obtivera o emprego. Cansativo e mal-pago, ainda assim o prefere ao trabalho sedentário de ensinar meninos. Entregando recibos, vai de casa em casa, de loja em loja, de tenda em tenda. Conversa, ouve um caso, conta outro, comenta acontecimentos, aceita um trago de cachaça. Onde fora a Tenda dos Milagres, um turco abriu um armarinho, bazar de miudezas.
Apesar do pessoal da Energia Elétrica ter demorado uns dias para aderir à greve, tão logo os motorneiros e condutores a iniciaram, Pedro Archanjo não mais perdeu reunião do Sindicato, em atividade e em entusiasmo contagiantes: poucos moços podiam competir com aquele velho na ação e na iniciativa. Porque ele não o fazia a mando, por obrigação, para cumprir tarefa de grupo ou de organismo partidário. Fazia-o por achar justo e divertido.
Pela primeira vez, em seis anos, parou na porta da Faculdade de Medicina. Os alunos de seu tempo já se haviam formado, Archanjo não conhecia os atuais nem era por eles conhecido. Os lentes, porém, ao reconhecer o antigo bedel, sustinham o passo. Alguns lhe disseram boa tarde. Pedro Archanjo aguardava o docente Fraga Neto, a ele se dirigiu ao vê-lo aparecer entre estudantes, em conversa acalorada.
— Professor... — Archanjo! Há quanto tempo... Quer falar comigo? — perguntou aos estudantes: — Vocês sabem quem é este?
Os rapazes voltaram-se para o mulato pobre, a roupa no fio, velha porém limpa, os sapatos conservados no brilho da graxa. O hábito da limpeza resistia à crescente pobreza e à velhice.
— Esse é o falado Pedro Archanjo. Foi bedel da Faculdade durante uns trinta anos e é profundo conhecedor da vida baiana, dos costumes populares, é um antropólogo com livros impressos, livros sérios. Foi demitido da Faculdade porque escreveu um livro respondendo a um trabalho racista do professor Nilo Argolo. Archanjo provou, com seu livro, que na Bahia somos todos mulatos. Foi um escândalo...
— Já ouvi falar. Foi por isso que o Monstro Argolo se aposentou, não foi?
— É verdade. Os estudantes não lhe perdoaram a intransigência. Só o chamavam pelo nome de... Como é mesmo, Archanjo?
— Oubitikô.
— Por que esse nome?
— É um dos sobrenomes do professor, um que ele nunca usou. Sobrenome herdado de Bomboxê, um negro, tataravô do professor. E, por coincidência, também meu...
— “Meu primo, professor Argolo”... — relembrou Fraga Neto: — Desculpem-me, senhores, despeço-me, vou com Archanjo, há muito não o vejo.
O professor e o ex-bedel sentaram-se no Bar Perez, como antes.
— O que é que você toma? — perguntou Fraga Neto.
— Não recuso um trago de caninha. Se o senhor também tomar...
— Não, não posso. Álcool nenhum, nem cerveja, infelizmente. Complicações de fígado. Mas bebo uma água tônica.
De esguelha examinava Archanjo: caíra muito. Não somente envelhecera; tampouco conservava a imponência antiga. Por quanto tempo ainda perduraria o esforço para manter a roupa limpa, os sapatos engraxados? O professor não via Archanjo há anos, desde a morte de frei Timóteo.Estiveram juntos no convento, velando o corpo do frade holandês. Noutra ocasião. fora procurá-lo para ver se obtinha um exemplar dos “Apontamentos”, não mais encontrou a Tenda dos Milagres. No local, o armarinho de um turco. Pedro Archanjo? Endereço certo não tinha, às vezes era visto por ali, se quisesse deixar um recado... Fraga Neto desistiu. Na. mesa do bar constatava: caíra muito o velho Archanjo.
— Professor, vim lhe procurar a propósito da greve da Circular.
— Da greve? Geral, não? Parou tudo, não foi? Bondes, pranchas, o Elevador Lacerda, o Xarriô, tudo parado. Formidável, hein!
— Formidável, sim! Movimento justo, professor, os salários são miseráveis. Se a Energia Elétrica e a Telefônica aderirem, a nossa vitória é certa.
— Nossa? O que é que você tem a ver com isso?
— É verdade, o senhor não sabe. Sou funcionário...
— Da Circular?
— Da Energia Elétrica, no fundo é a mesma coisa. É truste, como o senhor diz, professor.
— É verdade, o truste imperialista — riu Fraga.
— Pois, professor, eu sou membro de uma comissão de solidariedade aos grevistas. E vim lhe ver...
— Dinheiro...
— Não, senhor. Quer dizer: dinheiro também ajuda, é claro, mas isso é com outra comissão, a de finanças. Se o senhor quiser cooperar com dinheiro, falo com alguém das finanças e ele vai lhe procurar. O que eu queria era outra coisa; a presença do senhor no Sindicato. Estamos em sessão permanente, dia e noite, e muita gente vem trazer solidariedade, os jornais publicam, é importante. Tem vindo professores de Direito, deputados, jornalistas, literatos, muita gente boa, estudantes à beça. Eu pensei que o professor, com suas ideias...
— Com minhas ideias... Teve razão em pensar em mim, tenho minhas ideias, não mudei. Para os trabalhadores não há nada mais justo do que a greve, é sua arma. Só que eu não posso ir. Não sei se você está a par: vou fazer concurso para catedrático..
— E o professor Virajá? Sei que está vivo, ainda há poucos dias vi notícias dele no jornal.
— O professor Silva Virajá aposentou-se, não achou correto manter a cadeira ocupada já que não estava lecionando e não pretende retornar. Fiz tudo para impedi-lo, não consegui. Tenho dois concorrentes, Archanjo. Um bastante capaz, livre-docente da matéria no Recife. O outro é uma besta daqui mesmo, cheio de pistolão por todos os lados. Vai ser uma batalha das nossas, mestre Archanjo. Espero ganhar mas estou sendo vítima de uma campanha terrível, usam tudo contra mim, especialmente as minhas ideias, essas a que você se refere. Se eu for ao seu Sindicato, meu caro, posso dar adeus à cátedra... Compreende, Archanjo?
Fez que sim, com a cabeça. O professor completou:
— Não sou político. Tenho minhas convicções mas não exerço ação política. Talvez devesse exercê-la, seria o certo. Mas, meu bom Archanjo, não é todo mundo que tem sua fibra e joga empregos e títulos para defender ideias. Não me julgue mal.
— Um título de bedel... Bem pouco, professor, se comparado ao de catedrático. Cada coisa tem seu preço, seu valor. Por que haveria eu de querer julgá-lo, professor? Vou dizer aos companheiros da Comissão de Finanças que procurem o senhor.