Tenda dos Milagres
Capítulo 4
Nem sequer uísque nacional.
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A Sociedade dos Médicos Escritores (com matriz na Bahia e sucursais em diversas cidades de outros Estados) lançou manifesto de apoio aos festejos — apesar de não haver colado grau de doutor, Pedro Archanjo encontrava-se profundamente ligado à classe médica através do cordão umbilical da Faculdade de Medicina da Bahia “à qual servira com notável eficiência e comovente devotamento”.
O presidente da operosa organização, benquisto radiologista de invejável clínica, biógrafo de médicos eminentes, inscreveu-se orador — o sexto! — para o ato solene de encerramento, foi em busca de dados mais precisos e íntimos sobre Pedro Archanjo que lhe possibilitassem uma nota humana na aridez do discurso científico. De informação em informação chegou ao major Damião de Souza, de escritório noturno montado há muitos anos no Bar Bizarria, em beco torvo do Pelourinho.
O Bar Bizarria, um dos últimos a oferecer mesas e cadeiras aos clientes, a lhes possibilitar o prazer da conversa, fora antes focalizado no melhor ponto da Praça da Sé, propriedade de afável galego chegado de Pontevedra há mais de meio século. Na cobiçada esquina, seus filhos inauguraram o self-service COMA EM PÉ, novidade de fulminante sucesso: por preço módico os clientes recebem o prato único já servido, um refrigerante à escolha, pousam prato e garrafinha sobre uma espécie, de balcão a circular a sala, e em dez minutos vêm-se livres da obrigação do almoço, tempo durante o qual não estão ganhando dinheiro, tempo perdido. O galego inicial, amigo de sua freguesia e de um bom gole de vinho (não desdenhava a cachaça, se de qualidade), entregou o valioso ponto aos filhos progressistas e sôfregos, mas não abriu mão de seu bar de mesas e cadeiras, de conversa animada, sem controle de relógio, foi parar num beco de putas e ali prosseguiu na convivência de renitentes bêbados, seus fregueses e amigos. Imemorial freguês, com cadeira cativa no começo da noite, o Major, infalível para o aperitivo do jantar.
O elegante radiologista, um tanto formal, sentiu-se acanhado e atônito naquele ambiente obsoleto; era como se houvesse recuado no tempo e chegasse a uma cidade proscrita: as pedras negras do calçamento, a luz baça, os muros seculares da sala, as sombras, um cheiro de Oriente. Não fora o único a procurar naquela noite o Major em busca de memórias de Archanjo: já encontrou no Bizarria ao conhecido Gastão Simas e a um peralvilho de sua agência de publicidade. Empunhavam copos de violenta beberagem, outrora famosa, dita “pinguelo de bode”, e o pelintra (soube depois chamar-se Arno Melo), comia acarajés — “não há tira-gosto igual”, Uma baiana mantinha seu tabuleiro e seu fogão na porta do bar, há mais de vinte anos; com ele viera da Praça da Sé. Para o presidente dos Médicos Escritores foi uma experiência nova e excitante:seu mundo resumia-se ao hospital com os alunos da Faculdade, ao consultório na Rua Chile, à casa na Graça, às reuniões literocientíficas, aos jantares e recepções. Aos domingos, permitia-se o banho de mar e a feijoada.
— Radiologista? — leu o Major no cartão do médico: