Tenda dos Milagres
Capítulo 11
— Lídio lhe disse?
— O quê?
— Nunca mais vou voltar na Tenda, nem para dormir nem de passagem. Nunca mais, Pedro, se acabou. Ele adivinha o motivo mas pergunta: — E por quê?
— Agora, Pedro, sou mãe de mulher casada, da esposa do doutor Altamiro, sou parenta dos Lavignes. Quero ter direito à minha filha, Pedro, a frequentar sua casa, a me dar com sua gente. Quero poder criar meus netos, Pedro.
No silêncio, a voz ressoa firme, decidida: — Uma vez, quando Miminha era menina, deixei que tirassem ela de mim. Fiquei solta no mundo, livre de fazer tudo que fiz. Agora se acabou, não tem mais Rosa de Oxalá.
Tomou da mão de Pedro Archanjo e entre as suas a manteve.
— E o santo?
— Assentei, levei para casa com o consentimento de mãe Majé. Ela se levantou da cama para fazer o necessário. — Olhou o homem de cabeça baixa, olhos perdidos na escuridão: — Tu nunca me quis, Pedro, tanto me ofereci. Agora é tarde.
Na escada os passos do sacristão, vem por eles, é tempo de partir, Nos braços um do outro, um beijo só, e último, É tarde, mestre Pedro, agora é tarde, não tem mais jeito. Nas sombras da igreja desaparece Rosa de Oxalá.Assim como veio assim partiu. Uma vida inteira, um segundo apenas.
11
Quando, finalmente, Pedro Archanjo chegou, ogans e filhas de santo correram a seu encontro em choro e aflição
— Depressa, depressa que ela está lhe chamando sem parar, só faz dizer: Ojuobá, cadê Ojuobá?
Abrem-se os olhos de Majé Bassan ao ressoar dos passos:
— É você, meu filho?
A mão, folha seca e frágil, aponta a cadeira, num aceno. Senta-se Archanjo, toma da mão e a beija. A anciã concentra toda a energia que lhe resta no corpo agonizante e num sopro de voz inicia a narrativa. Mistura as línguas, usa palavras e frases iorubás, é a última lição, o ensinamento derradeiro
“Umbé oxirê fun ipakô tô Ijenan, houve uma festa no Terreiro de Ijenan. Era festa grande, de Ogun, e veio um mundão de gente ver Ogun dançar. Ogun Aiaká dançou bonito para alegrar os olhos do povo cansado de sofrer tanto padecimento. Quando estava no melhor de sua dança, chegou sarapebé, o homem do recado, e contou que os soldados vinham vindo com as armas embaladas para acabar com a festa de Ogun e arrasar o Terreiro de Ijenan. Vinham galopando nos cavalos, na pressa de chegar e de bater. Ogun escutou a falação do homem do recado, o aviso que Oxossi lhe mandava, foi ao mato ali pertinho, assoviou chamando duas cobras, cada qual mais comprida e perigosa. Botou as duas no meio da sala, dois novelos de veneno, enrodilhadas, a cabeça para cima, de fora as línguas peçonhentas, os olhos assuntando a porta da rua. Em frente à porta, bem do seu, Ogun dançava à espera dos soldados. Não tardou eles chegarem, pulavam dos cavalos, e sem dizer aqui-del-rei iam puxando as armas de bater e criar bicho. Da porta, Ogun falou assim para os soldados: Quem for de paz entre no Terreiro, venha dançar em minha festa. Para os amigos, meu coração é mel de flores, mas ai dos inimigos: para eles meu coração é poço de veneno. Apontou as duas cobras em seu veneno enrodilhadas, os soldados sentiram medo mas ordem é ordem e ordem de quartel e de polícia é sem pena, sem apelo,sem revogação. Avançaram os soldados contra Ogun, as armas levantadas. Ogun kapê dan meji, dan pelú oniban. Ogun chamou as cobras e as cobras se ergueram diante dos soldados. Ogun avisou: quem quiser brigar terá briga, quem quiser guerra terá guerra, as cobras morderão e matarão, não vai ficar nem um soldado vivo. As cobras avançaram as línguas venenosas e aos gritos de socorro os soldados saltaram nos cavalos e fugiram, depressa foram embora, porque em sua dança sem parar Ogun chamou as duas cobras, Ogun kapê dan meji, dan pelú oniban.”