Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 12 de 77

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Tenda dos Milagres

Capítulo 2

— Vai-se perquirir e toda essa encenação de cultura não passa de um plano de origem comunista para solapar as bases do regímen — a voz em tom menor, confidencial:

— Já li em qualquer parte que esse tal Levenson esteve ameaçado de depor na Comissão de Atividades Anti-Americanas, e sei, de fonte segura, constar seu nome da lista do F.B.I.

Agita o dedo em direção à solene indiferença do garção, habituado aos ébrios mais diversos e ridículos:

— Afinal, que tenta ele nos impingir como supra-sumo da ciência? Baboseiras em mau português sobre a ralé, o zé-povinho. Quem foi esse tal Archanjo? Alguma figura exponencial, um professor, um douto, um luminar, um prócer político, ao menos um comerciante rico? Nada disso: um reles bedel da Faculdade de Medicina, pouco mais que um mendigo, praticamente um operário.

Espumava o insigne cidadão e eu não lhe nego motivos para tamanha cólera. Dedicara sua existência a clamar contra o porneia, a dissolução dos costumes, os maiôs, Marx e Lênin, o abastardamento da língua portuguesa, “última flor do Lácio”, e que resultados obtivera? Nenhum: impera a pornografia nos livros, no teatro, no cinema e na vida; a dissolução dos costumes fez-se normalidade quotidiana, as moças conduzem a pílula junto ao terço, os maiôs viraram biquínis e olhe lá; como se não bastassem Marx e Lênin, ai estão Mao-Tse-Tung e Fidel Castro, sem falar nos padres, todos eles possuídos do demônio; quanto a livros e língua portuguesa — os tomos do ilustre acadêmico, vazados no terso e castiço idioma de Camões e publicados por conta do autor, jazem nas prateleiras das livrarias, em eterna consignação, enquanto vendem-se aos milhares os livros daqueles escribas que desprezam as regras da gramática e reduzem a língua dos clássicos a um subdialeto africano.

Tive medo de que me mordesse ou ao garção. Não o fez. Tomou de sua quenga, entrou no volkswagen e partiu em busca de um canto qualquer, realmente discreto, onde um pai da pátria e da moral pudesse exercitar as indispensáveis preliminares capazes de conduzi-lo uma vez na vida à prática do coito carnal em outra que não a santa esposa, sem ser nessas doces iniciativas espionado por tipos de baixa extração moral e literária.

De baixa extração, sem dúvida. Se assim não fosse, em vez de cultivar tênues dúvidas em cachaça, na inspiração de versos discutíveis — implacável eu invadiria hotel e apartamento para o flagrante delito; numa das mãos os dólares para atirá-los na cara do canalha, na outra o revólver carregado: cinco tiros na infiel, em seu dissoluto ventre de gozo e traição, a última bala por fim no próprio ouvido. Meus ciúmes, ai, são assassinos e suicidas.

2

COBRÃO CABRÃO

Poluída estrela

camas estrangeiras

coitos em latim

oh poluída

comerei teus restos

as sobras

as rosas o cansaço a noite de vigília

o pai da pátria a dor do mundo

comerei teus restos

sociológicos

perfume de alecrim cheiro de lavanda

uísque banho sabonete fumo de cachimbo

oh Yes

Puro merecedor

nem revólver nem punhal

nem lâmina nem vômito

nem choro queixas ameaças gritos

tão-somente amor comerei teus restos

Rei dos cornos

cobra cobrão cabrão

jardim de chifres

chavelhos hastes aspas grampas tocos galhas

na testa na mão nos pés

nos ossos da espinha

no subilatório

com eles te penetrarei

poluída estrela pura

teu rei senhor

FAUSTO PENA

Xixi dos Anjos, alta madrugada, 1968