Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 35 de 77

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Tenda dos Milagres

Capítulo 3

Na noite insone da oficina, no suor dos braços, vagarosa geme a máquina impressora sobre o papel e os tipos. Salta o aprendiz Tadeu do sono e do cansaço, ao ver o papel coberto de letras impressas, as primeiras páginas,a tinta fresca e seu olor. Os dois compadres levantam afolha e Pedro Archanjo lê — lê ou sabe de memória? — a frase inicial, seu clarim de guerra, sua palavra de ordem, resumo de seu saber, sua verdade: “É mestiça a face do povo brasileiro e é mestiça a sua cultura”.

Lídio Corró, um sentimental, sente um aperto no peito, ainda há de morrer numa hora dessas, de emoção. Pedro Archanjo mantém-se sério por um momento; distante, grave, quase solene. De repente se transforma e ri, seu riso alto, claro e bom, sua infinita e livre gargalhada: pensa na cara do professor Argolo, na do doutor Fontes, dois luminares, dois sabidórios que da vida nada sabem. “São mestiças a nossa face e a vossa face: é mestiça a nossa cultura, mas a vossa é importada, é merda em pó”. Iam morrer de congestão. Seu riso acendeu a aurora e iluminou a terra da Bahia.

3

Meses atrás, certa noite, quando a festa no terreiro ia em meio e os orixás dançavam com seus filhos, ao som dos atabaques e das palmas da assistência, Doroteia apareceu trazendo um rapazola pela mão, moleque de seus quatorze anos. Yansan a quis montar ainda na porta do barracão mas ela desculpou-se e veio ajoelhar-se ante Majé Bassan, pedindo-lhe a benção para si e para o menino. Depois o trouxe até Ojuobá, e lhe ordenou: — Tome a benção.

Archanjo o viu magro e forte, a pele trigueira, o rosto fino, aberto e franco, os cabelos lisos e negros, luzidios, os olhos vivos, as mãos de dedos longos, a boca sensual, belo e sedutor. Ao seu, lado, José Aussá, ogan de Oxossi, comparou os dois na fugaz curiosidade de um sorriso.

— O que ê é meu? — quis saber o jovem.

Doroteia sorriu também, igual a Aussá, um meio sorriso enigmático: — É teu padrinho.

— A benção, meu padrinho.

— Senta aqui, junto de mim, meu camaradinho.

Antes de dar-se a Yansan, que impaciente a reclamava, Doroteia falou com sua voz macia e autoritária:

— Diz que quer estudar, só fala nisso. Até agora não deu pra nada, nem pra carpina nem pedreiro, vive fazendo conta, sabe mais tabuada do que muito livro e professor.De que me serve assim? Só dá despesa e nada posso fazer. Torcer a sina que trouxe do sangue que não é meu? Querer lhe dar um rumo que não é o dele? Isso não vou fazer porque sou mãe, não sou madrasta. Sou mãe e pai, é muito para mim que vivo de vender na rua, de fogareiro de carvão e lata de comida. Vim lhe trazer e lhe entregar, Ojuobá. Dê destino a ele.

Tomou da mão do filho e a beijou. Beijou também ade Archanjo e aos dois juntos por um longo instante contemplou. Depois se abriu para Yansan, ali mesmo soltando seu grito que amedronta os mortos. Recebendo o eruexim e o alfanje, deu início à dança. Os dois a saudaram ao mesmo tempo: “Eparrei !“

Na oficina e nos livros, no saber de Archanjo, Tadeu encontrou o que buscava. Mestre Pedro revia-se no afilhado: a mesma incontida ânsia, a mesma curiosidade, e o ímpeto. Apenas no adolescente havia uma intenção definida, um caminho traçado: não estudava ao acaso, ao deus-dará das circunstâncias, pela vontade gratuita de aprender. Fazia-o com fim. determinado, porque queria ser alguém na vida, De onde lhe viera a ambição? De quem a herdara, de que remoto avô? A teimosia era da mãe, a incontrolável força daquele diabo de mulher.