Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 75 de 77

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Tenda dos Milagres

Capítulo 6

— De Oxalá? De quem o nome?

— De sua avó.

— Rosa de Oxalá... Uma beleza, acho que vou adotar...

Um grupo de estudantes reclama: Rosa! Rosa! Vamos, Rosa! Já vou, respondeu Rosa neta de Rosa tão igual tão diferente.

Dissolvia-se o comício, o povo lotava os bondes, anoite caía nos postes de lâmpadas apagadas, o velho sorriu, cansado e alegre. A moça percebia confusamente que aquele trôpego ancião, talvez enfermo, de enxovalhado paletó, calças com remendo, buracos nos sapatos, roto coração, era-lhe próximo, um parente quem sabe? Da família da avó jamais tivera notícia exata, rastro perdido, silenciado mistério, a família de Oxalá.

— Adeus, minha filha. Foi mesmo que ter visto Rosa,novamente.

Num ímpeto, impelida não sabe por que estranha força ou sentimento, a moça tomou da mão escura e pobre e a beijou. Depois, saiu correndo para o álacre grupo de colegas, a cantar desceram a rua em sombras.

Devagar, o velho atravessou o Terreiro de Jesus no rumo do Maciel de Cima, era hora da janta no castelo de Ester. Poderia alguém, por mais poderoso senhor de exércitos terminar com o povo todo na morte e na escravatura, terminar, com Rosa e sua neta, com a perfeição?

— A benção, meu pai — pede a rapariga, menina quase, em busca do primeiro freguês daquela noite.

As sombras envolvem o velho, passo trôpego, duro enigma, quem lhe daria a chave da adivinha?

6

Após o noticiário, os boletins de guerra, “esses russos são uns porretas!“, Maluf serviu uma pinga, comentaram a passeata e o comício, o valor dos indômitos ingleses, a epopeia americana nas ilhas perdidas da Ásia, as façanhas soviéticas. Ataulfo, um pessimista, não considerava a vitória certa e segura. Longe disso. Hitler tinha ainda muita coisa escondida na manga do paletó, armas secretas, capazes de destruir o mundo.

Destruir o mundo? Se Hitler ganhasse a guerra poderia matar e escravizar todos os que não fossem brancos puros, arianos comprovados? Acabar com a vida e a liberdade, mortos ou, pior ainda, escravos todos nós, sem exceção?

Pegou fogo a discussão, pode, não pode, por que não pode? Ora se pode! O ferreiro se retou: — Nem Deus que fez o povo pode matar tudo de uma vez, vai matando de um a um e quanto mais ele mata mais nasce e cresce gente e há de nascer, crescer e se misturar,filho-da-puta nenhum vai impedir Ao bater sobre o balcão a mão enorme que nem a de Manuel de Praxedes ou a de Zé Alma Grande, emborcou o copo e lá se foi o resto da cachaça. O turco Maluf, homem bom e solidário, concedeu outra rodada.

O velho Pedro Archanjo repetiu a resposta finalmente ouvida.

— ... há de nascer, crescer e se misturar, ninguém pode impedir. Tem razão, camarado, é isso mesmo, ninguém pode acabar com a gente, nunca. Ninguém, meu bom.

Já era tarde, ainda sentia a dormência no braço, a dor lá no fundo, à espreita. Alegre se despediu: até amanhã, meus bons, paga a pena viver quando se tem amigos, um trago de cachaça e uma certeza assim tão certa. Vou-me embora, quem vier atrás feche as cancelas.

Na escuridão da ladeira, em passo tardo, em derradeiro esforço, mestre Pedro Archanjo galga o caminho, anda para a frente. A dor o abre em dois. Apoia-se na parede do sobrado, rola no chão. Ai, Rosa de Oxalá