Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 67 de 77

Páginas do PDF

Tenda dos Milagres

Capítulo 20

Desta terceira vez, porém, todos assistiram e testemunharam, foi medo público, terror desatinado. Quando Zé Alma Grande, cão de fila, assassino às ordens, homem de toda confiança, virou Ogun e partiu para o delegado, Pedrito necessitou do orgulho inteiro para erguer a bengala na última tentativa de se impor. De nada serviu. Os pedaços do junco estalaram nos dedos do encantado — cabeças de serpentes dirigidas contra o comandante da cruzada bendita, da guerra santa. Não coube a Pedrito Gordo outro recurso senão correr vergonhosamente, em pânico, gritando por socorro, em direção ao automóvel veloz que o levaria para longe daquele inferno de orixás desatados em milagres. Mas, ai, os macumbeiros haviam furado os quatro pneus.

Nas ruas apinhadas, todos viram o delegado auxiliar Pedrito Gordo, a fera da polícia, o sinistro chefe da malta de facínoras, o mata-mouros, o malvado sem alma, o terror do povo, em triste fuga perseguido por um orixá de candomblé, pelo guerreiro Ogun todo aceso em cobras. Foi o riso da cidade, a galhofa, a notícia cômica nos jornais da oposição, o verso de Lulu Parola, a trova dos cantadores.

“Mestre Archanjo já acabou

Com a farromba de Pedrito.”

20

Com indisfarçável prazer o Chefe de Polícia aceitou o pedido de demissão de Pedrito Gordo. Incômoda herança do governo anterior, autoridade incontrolável, agindo a seu bel-prazer, sem pedir ordens nem prestar contas, no comando de uma escolta de bandidos, de assassinos ferozes, o delegado auxiliar tornara-se um problema e só o medo impedira o Chefe de Polícia de exonerá-lo a bem do serviço público.

Durante meses ninguém botou os olhos em Pedrito nas ruas da Bahia, partira para a Europa em “viagem de estudos”. Quanto a Zé Alma Grande, a polícia vasculhou a cidade em sua busca, a malta de facínoras cumpria derradeira missão. Encontraram-no vagando pelos matos, mais além das roças do Cabula, e sem piedade o fuzilaram. Ferido de morte, Zé Alma ainda conseguiu segurar Inocêncio Sete Mortes pelo gasganete e o levou consigo para o céu dos assassinos.

Foi extinto o cargo de delegado auxiliar — uma espécie de segunda pessoa do Chefe de Polícia, seu substituto eventual, na prática o verdadeiro comandante, pois lhe cumpria a ação executiva — dando lugar aos delegados de carreira. Coube ao primeiro deles, o bacharel Fernando Góis, amainar a guerra santa, permitir o riso e a festa. Gentil e maneiroso, não se deu em tais funções, foi ser banqueiro.

Os candomblés puderam reabrir as portas dos terreiros, os afoxés voltaram às ruas, o samba se propagou no carnaval, reorganizaram-se ranchos e ternos, bumba-meu-boi e pastoris. Os capoeiras nos berimbaus e nas cantigas:

“Esta cobra te morde Sinhô São Bento

Ói o pulo da cobra Sinhô São Bento

Ê compadre!”

Eh! compadre Archanjo, que briga mais comprida a nossa — recordou mestre Lídio Corró na Tenda dos Milagres, lendo na gazeta a demissão do delegado auxiliar. Aquela luta com a polícia, com o governo, contra o ódio, eles a tinham iniciado há mais de vinte e cinco anos, no fim do século passado, quando conceberam, organizaram e levaram à rua o primeiro afoxé de carnaval, a Embaixada Africana. O enredo era a corte de Oxalá, mestre Lídio o Embaixador, Valdeloir o Dançador.