Storytelling: Histórias que deixam marcas
Capítulo 3: MESTRES DO STORYTELLING
Capítulo 3
MESTRES DO STORYTELLING
Os primeiros narradores de sucesso mundial eram homens e judeus.
Deus é pai, não mãe. Enviou-nos seu único filho, não filha. Antes disso, todas as negociações entre a humanidade e a divindade foram intermediadas pelos grandes profetas, com destaque para Abraão e Moisés, e o “povo escolhido” não cessava de louvar seus dois soberanos mais queridos: Salomão e Davi. Às mulheres, a despeito das passagens marcadas pela beleza poética, restavam predominantemente papéis coadjuvantes, e em grande parte negativos. Eva colocou tudo a perder, empurrando Adão para o pecado. Dalila iludiu Sansão, descobriu seu segredo e exauriu suas forças. Salomé deu um jeito de pedir a cabeça de João Batista. Salvo raras e honrosas exceções, as mulheres bíblicas ou carecem de proteção masculina e choram, desamparadas, ou provocam a desgraça dos machos. São abundantes também os relatos de famílias se maldizendo por não terem gerado bebês do sexo masculino, a ansiedade e as questões hereditárias em torno do primogênito, a crença de que o nome e o sangue da família só seguem adiante através dos varões. As consequências jurídicas da primogenitura masculina mostraram-se resistentes ao tempo, reverberando em alguns pontos do planeta em pleno século XXI.
Por causa dessas narrativas, que obviamente retratam a situação sociocultural de um momento histórico, as mulheres continuam lutando até hoje para superar um sem-número de injustiças que ainda lhes são impostas. Em determinadas culturas, continuam obrigadas a se cobrir como tentações ambulantes; andam atrás dos homens como seres de segunda classe, muitas vezes sem direito a participar de conversas. Em praticamente todas as culturas, sofrem mais para atingir altos cargos e para receber salários equiparados aos de homens ocupando as mesmas posições; são vítimas de preconceitos e violências de toda ordem. Isso depois de conquistas relativamente recentes, como a de votarem e serem votadas, possibilitando um número crescente, embora ainda modesto, de mulheres na presidência de países e empresas. Histórias são poderosas, desconstruir as ideias consistentemente implementadas por elas leva tempo.