Storytelling: Histórias que deixam marcas
Realidades consistentes
Vamos deixar de lado, por enquanto, nosso entendimento do que seja realidade e levar o pensamento a alguém como o Super-Homem. Não nos espanta que ele voe, nem que os tiros ricocheteiem em seu peito, mas incomodaria bastante vê-lo brincando com um ioiô de kryptonita.
Do mesmo modo, seria absurdo ver Indiana Jones manuseando a espada de luz de Luke Skywalker, ou Darth Vader atrapalhando o relacionamento de Don Corleone com seus familiares mafiosos.
Cada história tem seu universo, e cada universo tem seus códigos. É no significado desse conjunto de códigos que reside a verdade de cada história. Portanto, ele tem que ser respeitado.
Se estabelecemos que o dragão cospe fogo, isso passa a ser um dado do problema que o oponente do dragão terá de enfrentar. Alegar, por exemplo, que o gás do dragão acabou de repente ou que ele pegou uma gripe que congestionou seu lança-chamas é uma quebra de contrato imperdoável para quem investiu emoção no príncipe que passou a história toda se preparando para o duelo com a terrível fera.
Tudo o que é combinado antes é convincente, desde que respeitados os gêneros e contextos. Uma vassoura voadora não cabe em um filme policial, assim como extraterrestres se sentiriam deslocados em um drama familiar, ou duendes ficariam sem assunto em um thriller político. Existe uma delimitação estabelecida pelo bom senso de até onde podem ir os códigos. Em um contexto bíblico, aceitamos que Deus converse diretamente com os personagens. Em um contexto romântico contemporâneo, não cabe dramatizar a perda da virgindade feminina como ocorreria, por exemplo, na Inglaterra vitoriana. Em um contexto publicitário, espera-se que só as qualidades do produto sejam evidenciadas. Ninguém diria que determinada marca é tendenciosa porque omite o que pode desvalorizá-la em suas peças de comunicação.
Imaginemos a mesma cena acontecendo em histórias diferentes: um homem fugindo de um leão. Em uma trama de aventura, provoca tensão; em uma trama de comédia, provoca riso (porque sabemos de antemão que em comédias ninguém se machuca de verdade); em uma trama de terror, pode ser apenas um sustinho menor dentre os muitos que nos dispomos a experimentar quando consumimos esse gênero; e em um comercial de TV, provoca curiosidade, provavelmente criando no público a expectativa de ser algo relacionado com o Imposto de Renda (a associação do leão ao imposto, já incorporada à cultura brasileira, é fruto de campanha publicitária criada pela agência DPZ e veiculada em 1980). Aventura, comédia, terror, propaganda etc, cada um no seu quadrado. O público sabe exatamente o que esperar de todos os gêneros e contextos.