Storytelling: Histórias que deixam marcas

Adilson Xavier · Capítulo 6 de 85

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Storytelling: Histórias que deixam marcas

O que essas três histórias têm em comum?

Talvez tenha faltado uma janela para arejar a condenada torre: a janela que se abre sobre a evolução dos valores éticos, humanitários e ecológicos, por exemplo.

 

O que essas três histórias têm em comum?

 

Na descrição bíblica da Torre de Babel, a motivação de Deus para confundir os construtores é a mesma do sultão Murad IV para exilar Hezarfen Ahmed Celebi. Ambos agem preventivamente contra ações criativas de quem, segundo sua percepção, se transforma em potencial ameaça a seu poder.

A Babel de Franz Kafka poderia teoricamente estar na Bíblia, claro, se fosse criada antes de Cristo, a tempo de ser selecionada para o Antigo Testamento. Sua história é bem mais verossímil, convincente e com o mérito adicional de não colocar Deus na incômoda posição de vilão vulnerável.

Apesar disso, a Babel bíblica é infinitamente mais conhecida do que a de Kafka. Mesmo não tendo existência física, ela também é muito mais famosa que a Torre de Gálata. Uma torre imaginária, mais concreta na mente da humanidade do que uma torre construída há vários séculos, que existe até hoje, é ponto turístico e, ainda por cima, tem relevância histórica. Por quê?

A resposta imediata é religião. Babel bíblica, pelo simples adjetivo que a acompanha, dispara na frente de qualquer outra torre ou versão. Mas não podemos desconsiderar as qualidades que a levaram a participar do Livro Sagrado. Imagino que a narrativa da famosa torre tornou-se elegível pelo fato de explicar um aspecto importante da vida, de maneira simples e direta, a um povo que na época não dispunha de conhecimento e recursos científicos para enxergar a complexidade evolutiva da humanidade. Dizer que a variedade de idiomas decorre de um projeto arquitetônico fracassado, e reforçar a ideia de que pretensões grandiosas nos colocam em conflito com o Altíssimo resolvia vários problemas ao mesmo tempo. A elasticidade do conceito de confusão linguística para os eternos desentendimentos humanos encarregou-se de manter a contemporaneidade da história ao longo dos séculos. E os detalhes... ah, são apenas detalhes, tão desimportantes que pouca gente os conhece, e, quando conhece, não os destaca. Digamos que Babel se trata de uma alegoria explicativa, sem pretensão real de esclarecer, mas com inegável capacidade de ficar na memória e colocar um rótulo de “indesejável” em nossas ambições desmedidas.

Observando com foco mais apurado, tanto a Babel bíblica quanto a Babel de Kafka e a Torre de Gálata (convidada especial off-bíblica) — cada uma a seu modo, e dentro das proporções cabíveis — tratam dos empreendimentos que nos levam às alturas, dos perigos que cercam esses empreendimentos e do principal combustível desses perigos: nossa imensa dificuldade de comunicação.