Storytelling: Histórias que deixam marcas
Caminho
Em carta a um pupilo que lhe pede parceria em um projeto literário, o escritor e professor australiano Michael Pryor ensina: “O início de uma história tem que fazer muitas coisas, mas prioritariamente ele deve interessar ao leitor. Se um leitor fica entediado pela maneira como a história começa, ele pode simplesmente desistir e não ler o resto. Isso é um desastre para o escritor.”
Começar errado pode desconectar o narrador de seu público. Desconectados, abortamos a história.
Caminho
Uma das metáforas mais utilizadas para a vida é a do caminho. Falamos frequentemente nas estradas da vida. Em nossa caminhada, fazemos cursos para estarmos bem preparados para a trajetória profissional que escolhemos, conscientes de que o melhor jeito de aprender é passo a passo, sem nos deixarmos abalar por eventuais tropeços ou acidentes de percurso.
No século VI a.C., enquanto a filosofia grega surgia na Europa, o taoísmo corria em paralelo na China, coincidindo com os filósofos gregos na abordagem de algumas questões fundamentais, como a busca da estabilidade em um mundo que se transforma constantemente. O que isso tem a ver com nossa conversa? O fato curioso de que “tao” significa “caminho”. Uma doutrina filosófica ancestral, que poderia ser traduzida como “caminhismo”, merece especial atenção quando analisamos esse ponto de vista narrativo.
Viver é basicamente caminhar, do nascimento até a morte. Um esboço de autobiografia nos levaria certamente a lembranças queridas e traumáticas da infância, episódios e pessoas marcantes na vida estudantil, os grandes amores pontuados pelos primeiros grandes momentos, surpresas e decepções, os sucessos e fracassos profissionais, os aliados e oponentes com quem nos deparamos, e as histórias de outros personagens que, cruzando com as nossas, influenciaram seu desenvolvimento e desenlace.
Estamos todos empreendendo uma viagem que, conforme avança, aumenta nossa bagagem de experiências, nos obriga a tomar decisões em várias encruzilhadas, e muitas vezes nos coloca em rota de colisão com outros viajantes. Não por acaso o documento que orienta a realização de um filme recebe o mesmo nome daquilo que fazemos quando nos propomos a percorrer um longo trajeto: roteiro.
Quando buscamos a ajuda de um psicanalista, o principal benefício esperado é a visão clara do roteiro de nossa vida, para não perdermos o rumo.
Encurtando nossa viagem, encerramos este capítulo com mais uma alusão ao mestre do cristianismo. No momento de dar a si próprio um significado, ele se definiu como “caminho, verdade e vida”. Não um mapa ou GPS, mas o próprio caminho.
Se quisermos uma história com todos os elementos indispensáveis para se tornar relevante e inesquecível, basta olhar para a vida de Cristo, degustar o quanto de conflito, intriga, entrega, mistério, traição e superação ele encontrou em seu caminho, para enfim compreender por que essa história continua emocionando e mobilizando multidões até hoje.
Como toda caminhada, as histórias têm um destino que, embora nem sempre percebido de imediato, se delineia desde o início. Respondendo sobre seu planejamento narrativo em entrevista concedida ao jornal literário Rascunho (junho de 2013), o escritor Wesley Peres nos presenteia com uma rica visão do assunto:
[...] Assim, a narrativa cristã do mundo se orienta rumo à finalidade de atingir um
outro mundo, uma outra topologia, um outro espaço; a narrativa marxista do mundo se
orienta também pela finalidade de instituir um outro mundo, não utópico no sentido de
outro espaço, mas um outro mundo no tempo, num tempo que está por vir, sempre por
vir, sempre. Esse movimento narrativo me parece replicado na noção de uma história
estruturada em torno de um clímax, um arco narrativo que se quebra sobre si mesmo,
determinando obrigatoriamente o fim da história, o apocalipse narrativo — de modo
que essa forma me parece um tipo de transcendência, da promessa de que tudo
acontece com uma finalidade que ultrapassa completamente o acontecimento,
amarrando-o num ponto que justifica cada um e a totalidade dos acontecimentos (esse
ponto é o clímax), criando o espírito de sistema, de salvação, afinal tudo fará sentido,
pode confiar.