Storytelling: Histórias que deixam marcas
Capítulo 14: DISNEY — Simples como desenhar um rato
Capítulo 14
DISNEY.
Simples como desenhar um rato
Era uma vez um menino americano que não tinha certidão de nascimento. Seu pai, muito rigoroso, lhe impunha castigos tão pesados que ele passou a acreditar que havia sido adotado. Antes de completar 18 anos, participou da Primeira Guerra Mundial, dirigindo ambulâncias da Cruz Vermelha na França. De volta aos Estados Unidos, estudou arte, trabalhou em agências de propaganda, até ser contratado por uma companhia cinematográfica, onde atuava na produção de cartazes.
Talvez influenciado pelo convívio publicitário, adotou para si um slogan que dizia muito sobre sua personalidade: Keep moving forward. E, nessa determinação de avanço ininterrupto, tornou-se dublador, roteirista, animador, produtor cinematográfico, cineasta e fundador de uma das empresas mais influentes do mundo. Tão influente que criou um outro mundo, onde as pessoas podem se refugiar do mundo real, regido pelas regras básicas da magia e da fantasia.
Quando descobriu que levava jeito para animar figuras desenhadas, Walter Elias Disney abriu uma pequena produtora com os sócios Rob (seu irmão) e Ub Iwerks (seu amigo). Sua especialidade: animar contos de fadas. Os primeiros personagens de sucesso criados pela empresa — a menina Alice, que contracenava com desenhos animados, e Oswald, um coelho de muita sorte — foram roubados por um contratante, que, além de se apresentar como autor dos personagens, levou consigo toda a equipe de Walt. Um grande revés, capaz de derrubar qualquer sonhador no início de sua arrancada, mas não suficientemente forte para desanimar um especialista em histórias de superação, educação e maturação. Foi-se Alice, foi-se Oswald, mas tudo se arredondou na forma de um rato. Mickey Mouse, desenhado a partir de círculos, surgiu dos labirintos da imaginação para o estrelato, abrindo caminho para novos personagens, animais humanizados, que povoariam o mundo fantástico, concebido, produzido e conduzido por uma nova empresa chamada The Walt Disney Company.
O elenco de personagens originais Disney, onde, no rastro de Mickey, brilham sua namorada, Minnie, o Pato Donald com Margarida e os três sobrinhos (Huguinho, Zezinho e Luizinho), Pateta, Tio Patinhas, Professores Pardal e Ludovico, Pluto, e os vilões João Bafo-de-Onça, Irmãos Metralha, Mancha Negra, Maga Patalógica, e tantos outros, parece não ter fim. Há os que correm por fora, como os criados para homenagens pontuais como o Zé Carioca, os desdobramentos de personagens como o Super-Pateta, e os que não param de surgir em uma sequência impressionante de narrativas. Além de criar, a Disney nunca deixou de buscar histórias, como a profundamente arquetípica Cinderela, cuja autoria se perde no tempo entre versões que vêm desde 860 a.C., na China, até a de Charles Perrault, em 1697, na França, passando por outra italiana e finalmente desembocando na alemã, dos irmãos Grimm. Levada ao cinema por Disney, Cinderela conquistou corações e fixou seu castelo no centro dos parques com que a empresa tornaria tangível seu universo ficcional.
Também de autoria indeterminada, e novamente passando pelos irmãos Grimm, A Bela Adormecida e Branca de Neve e os Sete Anões tornaram-se clássicos Disney a colorir os sonhos românticos de crianças no mundo inteiro. Pinóquio, Peter Pan, Bambi, Dumbo, Mogli e A Bela e a Fera são outros exemplos de histórias preexistentes que foram potencializadas pelos desenhos animados Disney, assim como Winnie — o Ursinho Pooh (criado pelo escritor Alan Alexander Milne), A pequena sereia (baseada em um conto de Hans Christian Andersen), A dama e o vagabundo (baseado em um conto de Ward Greene), 101 dálmatas (baseado no livro de Dodie Smith), Aladdin (baseado em um tradicional conto árabe), enfim, uma interminável relação de histórias edificantes destinadas à família.
Não poderíamos deixar de reverenciar O Rei Leão, um dos maiores sucessos na animação cinematográfica de todos os tempos, que trata da ascensão de Simba ao trono da floresta, em trama com influências shakespearianas (Hamlet), e o doce Bambi, outro personagem Disney maltratado pela morte do chefe da família. O Rei Leão, embalado por uma trilha sonora de altíssimo nível, saiu das telas para o teatro musical, conquistando lugar de honra também na Broadway. E a morte da mãe de Bambi continua sendo considerada uma das cenas mais tristes do cinema, aumentando em milhões de crianças a valorização da presença materna.
Mas os domínios desse mundo encantado não se restringem aos desenhos. A ilha do tesouro, Vinte mil léguas submarinas, Mary Poppins e Se meu fusca falasse ilustram bem o quanto a empresa foi além da ilustração.
Recordista do Oscar, com 59 indicações e 22 estatuetas arrematadas, Walt Disney criou a Disneyland na Califórnia, que resultou na Disneyworld da Flórida, que se desdobrou em 11 parques temáticos, que partiram dos Estados Unidos rumo a França, Japão e Hong Kong.
O sucesso possibilitou a abertura de várias frentes: produção de filmes adultos, redes e canais de televisão. Foi exatamente quando tudo parecia possível que a Disney demonstrou o absoluto domínio de sua história. Já era grande e forte o suficiente, já detinha uma poderosa rede de TV aberta (ABC) e um canal de esportes (ESPN), mas manteve sua marca a distância. Preferiu reservar o nome, construído com letras arredondadas e macias, ao Disney Channel e seus desdobramentos naturais.
No cinema, encarregou a Touchstone Pictures de produzir os roteiros destoantes, ainda que por pequena margem, da narrativa Disney, como Três solteirões e um bebê, Uma cilada para Roger Rabbit, Sociedade dos poetas mortos, Uma linda mulher e Bom dia, Vietnã.
Em 1994, um filme quebrou várias regras, ganhando imediato status cult. Chamava-se Pulp Fiction e contava três histórias interligadas: Vincent Vega e a esposa de Marcellus Wallace, O Relógio de Ouro e A Situação Bonnie. A narrativa fragmentada do roteirista e diretor Quentin Tarantino era repleta de violência, drogas e diálogos tensos, apimentados, engraçados. Um filme tão ousado que a TriStar Pictures, que a princípio o distribuiria, desistiu de fazê-lo, classificando-o no primeiro momento como “demente demais”, e mais adiante como “a pior coisa já escrita [...] muito longo, violento e infilmável”. Sorte da Disney, que, tendo na época adquirido a Miramax, pôde participar dessa quebra de paradigma, totalmente incompatível com seu território narrativo, através da empresa recém-adquirida.
Mas nem todas as associações da Disney a outras empresas se destinam ao alargamento de público ou do potencial de ousadia temática. No outro extremo, da perfeita adequação e sintonia, encontramos a Pixar. O oxigênio trazido pela inovadora empresa ao perfil tradicional da Disney resultou em uma química espetacular, de onde já surgiram obras-primas como Toy Story, Procurando Nemo, Vida de inseto, Monstros S.A., Os Incríveis, Wall-E, Ratatouille e Up — Altas aventuras. Muitos dos personagens nascidos dessa parceria convivem na mais absoluta harmonia com os grandes clássicos da Disney, e já se tornaram atrações nos parques temáticos da empresa. É comum encontrarmos, nas paradas da Disneyworld, Woody, Buzz Lightyear, Jessie e o casal Cabeça de Batata, desfilando ao lado de Nemo, Pateta, Capitão Gancho, Donald e Branca de Neve, todos sob o comando do mesmo maestro que regeu “O Aprendiz de Feiticeiro” no abusadíssimo Fantasia, de 1940.
Em artigo publicado em janeiro de 2012 no Ad Age / blogs, Al Ries menciona uma pesquisa da Interbrand realizada em 1996, que apresenta um ranking das marcas mais valiosas do mundo. A primeira posição desse ranking é ocupada pela Disney. Depois dela vem a Coca-Cola. De lá pra cá, outras marcas surgiram e a situação certamente se modificou, mas a Disney continua valendo uma fortuna, toda ela gerada pela capacidade de contar histórias e pela fidelidade à imagem construída ao longo do tempo.
Quando criança, eu lia revistas do Mickey e do Pato Donald, e via seus desenhos na TV. Meus filhos não viveram essa experiência, mas quando os levei à Disneyworld pela primeira vez, eles conheciam aqueles personagens como velhos amigos. Hoje em dia, continuo me deliciando com os filmes Disney/Pixar, e conheço vários adultos que fazem questão de ir ao cinema para assisti-los, mesmo que não tenham crianças a seu lado como pretexto. São numerosos os relatos de marmanjos que choram com cenas de Toy Story, e cada vez mais entusiasmados os elogios à qualidade dos roteiros produzidos pela companhia. A animação computadorizada realiza milagres, mas nenhum milagre é possível quando falta uma boa história.
Em 2001, a Leo Burnett North America criou para a Disney um comercial de TV chamado “Pillow Talk”. Nele, uma mulher de meia-idade, recostada na cama, acorda o marido de madrugada, dizendo que não consegue dormir. Ela está angustiada por entender que o casal está se afastando gradativamente, perdendo a mágica; ele diz que está tudo normal entre eles; ela reclama de que os dois só conversam sobre as coisas práticas do dia a dia; ele pacientemente insiste em que a vida é assim mesmo; ela não se conforma, diz que ele não fala mais do jeito que falava antes. Faz-se uma pausa. O marido reflete. Alguns segundos depois, ele se inclina na direção da esposa e fala no seu ouvido imitando a voz do Pato Donald. Seu “I love you”, dito daquela forma, faz com que a mulher estampe no rosto um sorriso emocionado. A cena escurece. Sobrepõe-se o letreiro “Magic Happens”.
Creio não haver dúvidas de que a Disney é uma empresa storyteller por excelência, o que a habilita a participar da história de todos que com ela interagem. Nasceu assim, pelas mãos de um homem que queria fazer história, e fez. Começando por um rato, simpático, ingênuo e de traço simples, cuja personalidade pavimentou a trajetória da marca, não permitindo que ela derrapasse até hoje.
Assista aqui aos vídeos que ilustram este capítulo: