Storytelling: Histórias que deixam marcas
Torre de Babel — Versão bíblica da globalização
As grandes histórias são para sempre. Mas poucas nasceram tão ambiciosas como a da Torre de Babel.
Está no livro do Gênese, lá no comecinho da Bíblia, abrindo o Pentateuco (ou Torá), onde cristãos, judeus e muçulmanos compartilham as mesmas convicções e convivem em perfeita harmonia interpretativa. No capítulo 11, versículos 1 a 9, ergue-se uma pequena coluna de texto que em nada lembra a pretensão do projeto nela descrito. Ali encontramos um grupo de homens estabelecidos em uma planície na terra de Senaar. Tendo aprendido a lidar com tijolos e betume, dizem uns aos outros: “Vamos, façamos para nós uma cidade e uma torre cujo cimo atinja os céus. Tornemos assim célebre o nosso nome...” Lançamento em grande estilo da vaidade arquitetônica, do empreendedorismo em busca da fama e do apetite pelo crescimento desmedido que permanecem entre nós até hoje.
O que acontece em seguida? Deus desce para ver a cidade e a torre ainda em construção, não gosta do que vê e, voltando ao seu trono celestial, diz no plural, como se a Santíssima Trindade atuasse em forma de colegiado, ou como se Deus estivesse rodeado por uma espécie de ministério angelical: “Eis que são um só povo e falam uma só língua: se começam assim, nada futuramente os impedirá de executarem todos os seus empreendimentos. Vamos: desçamos para lhes confundir a linguagem, de sorte que já não se compreendam um ao outro.”
A forma descontraída que uso para descrever a passagem bíblica pode soar desrespeitosa, mas busca apenas sublinhar o quanto a questão estilística se faz presente. Sendo o livro do Gênese o que descreve a origem do mundo e da humanidade, tão repleto de mitos que Luiz Paulo Horta o aponta como o que maiores dificuldades traz ao leitor moderno, temos o alívio de imaginar que as diversas fontes coletadas para a sua formação, influenciadas por uma imagem de Deus associada aos monarcas da época e não à figura paterna transmitida pelo Novo Testamento, “erraram na mão” ao descrever um Criador que se opõe ao progresso humano, como de alguma forma já o fizera antes com a proibição da maçã (fruto da árvore da ciência do bem e do mal) a Adão e Eva. Mas o que realmente importa é a precisão da narrativa ao apontar uma verdade incontestavelmente incômoda: nossa dificuldade em lidar com as barreiras das diferenças para realizar um projeto comum, aliada aos problemas que vaidade e ambição sempre acabam nos trazendo.
Verdade. Este é o grande tesouro a ser extraído de toda história, especialmente as ficcionais. Uma boa história tem que ser verdadeira, mesmo quando totalmente inventada.