Storytelling: Histórias que deixam marcas

Adilson Xavier · Capítulo 3 de 85

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Storytelling: Histórias que deixam marcas

Parte I | UMA BREVE HISTÓRIA DA HISTÓRIA

Parte I

 

 

UMA BREVE HISTÓRIA DA HISTÓRIA

Capítulo 1

 

DUAS TORRES

 

Uma torre muito charmosa se destaca na paisagem de Istambul. Chamam a atenção sua arquitetura arredondada, dando-lhe ares de conto de fadas, e a posição estratégica, que, a despeito da relativamente baixa estatura, permite visão privilegiada da cidade. Seria apenas um belo mirante, de onde os visitantes poderiam sair carregados de fotos e suvenires não fosse a história que lhe dá alma.

Daquela torre chamada Gálata, em pleno século XVII, decolou o primeiro homem voador de que se tem registro. Hezarfen Ahmed Celebi, usando o que seriam as precursoras das asas-deltas, com os ventos de sudoeste soprando a favor, sobrevoou o estreito de Bósforo, pousando são e salvo na praça de Dogançilar, em Uskudar, distante cerca de 3,4 quilômetros do ponto de partida.

Entre os muitos boquiabertos com a proeza de Celebi (cujo sobrenome parecia prever seu destino de celebridade) estava o sultão Murad Kahn, conhecido como Murad IV, que, confortavelmente instalado na mansão de Sinan Pasa, em Sarayburnu, podia observar o feito inédito e o efeito que ele causava na plateia.

Concluída a façanha, o primeiro pensamento que ocorreu ao soberano foi premiá-la. Um saco de moedas de ouro foi entregue ao herói que tanto orgulho trazia aos turcos.

O segundo pensamento a lhe assaltar a mente já não era tão dourado quanto o primeiro. Concluindo ser Hezarfen um homem de criatividade e coragem muito acima da média, capaz de fazer praticamente qualquer coisa que desejasse, ainda mais naquele momento em que o povo o idolatrava, entendeu ser perigoso demais mantê-lo por perto.

Resultado: o celebrado Celebi, pouco depois de presenteado pelo sultão, foi por ele exilado na Argélia, onde, desgostoso, morreu.

A Torre de Gálata podia ser apenas um lugar histórico pelo voo que dela partiu. Mas foi além, tornou-se um lugar que tem história, porque o relato do que aconteceu entre o protagonista Hezarfen Ahmed Celebi e o antagonista Murad IV enriquece nosso conhecimento sobre a natureza humana e as complexas relações de poder. É fácil esquecer os nomes dos personagens e lugares, mas a essência dessa história permanece, revestindo Gálata de uma relevância toda especial.