Storytelling: Histórias que deixam marcas
Capítulo 15: APPLE — O poder da tentação
Capítulo 15
APPLE.
O poder da tentação
Entra em cena o maior acionista individual da The Walt Disney Company, o mesmo que havia comprado a Pixar em 1986. Sujeito atrevido, inquieto, meteu-se na casa paterna, ocupando parte dos cômodos, além da garagem, com o sócio, seu xará de sobrenome Wozniak. Levou a reboque mais alguns loucos, e de lá só saiu quando se sentiu forte o suficiente para desafiar a IBM. Deixou isso bem claro ao lançar sua mais famosa linha de computadores com a metáfora de uma atleta que invade um auditório repleto de gente mesmerizada pelo Big Brother, personagem do livro 1984, de George Orwell. A jovem entra correndo, perseguida por uma tropa de seguranças que em nenhum momento parece próxima de alcançá-la. Quando chega a uma distância razoável da tela que hipnotiza a plateia, nossa atleta arremessa sua marreta, transformando a imagem do líder na tela em uma explosão esfumaçada, destruindo seu poder dominador. A ação, muito bem filmada pelo à época já consagrado Ridley Scott, é concluída com o seguinte texto:
“Em janeiro de 1984, a Apple Computers lançará Macintosh. E você verá por que 1984 não será como 1984.”
Este é considerado o maior comercial de todos os tempos, eleito pela TV Guide e pelo Advertising Age, com a concordância, imagino que unânime, do mercado publicitário mundial. Seu principal criador, Lee Clow (que trabalhou em dupla com Steve Hayden), tornou-se uma lenda viva da propaganda, levando consigo ao pódio a imagem de sua agência, Chyatt Day. Todo mundo ganha quando participa de uma grande história.
Steve Jobs não desconfiava de ter sido adotado, como Walt Disney. Ele tinha certeza. À percepção de que fora abandonado pelos pais de sangue contrapunha-se a insistente declaração dos pais adotivos de que ele era especial. Foi criado como tal, com os pais adotivos sacrificando suas modestas economias para atender aos caprichosos desejos do jovem mimado. “Intenso” é um dos adjetivos mais repetidos pelas pessoas próximas que o descrevem, uma intensidade impaciente que o fez sair de Los Altos, na Califórnia, para estudar na distante Portland, Oregon, no seleto e dispendioso Reed College, do qual desistiu, largando os estudos por rejeitar algumas matérias que o enfastiavam. Intensidade que o levou a usar drogas, a abraçar a filosofia zen, a decidir tomar banho apenas uma vez por semana, a andar descalço e malcheiroso, a ser agressivo com namoradas e colegas, e a fazer dietas radicais. Não obstante seu perfil esguio, Steve jejuava com alguma frequência, e se entregava com regularidade a regimes alimentares fora do comum. Por conta dessa obsessão, acabou batizando sua empresa, durante um período de refeições exclusivamente frutíferas, com o nome de maçã.