Storytelling: Histórias que deixam marcas

Adilson Xavier · Capítulo 15 de 85

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Storytelling: Histórias que deixam marcas

Capítulo 5: REALIDADE X FICÇÃO — Onde está a verdade?

Capítulo 5

 

REALIDADE × FICÇÃO.

 

Onde está a verdade?

 

“Estava certo quem disse que vencer uma batalha é convencer aos seus e aos outros, aos amigos e inimigos,

que você a ganhou. Existe uma lenda da realidade que é a substância, a realidade íntima da própria

realidade.”

MIGUEL DE UNAMUNO

 

“Aquilo que é não pode ser verdade”, filosofou Herbert Marcuse. Cerca de dois séculos antes dele, Gottfried Leibniz defendia a existência de dois tipos de verdade: verdade de razão e verdade de fato.

Longe dos debates filosóficos, Honoré de Balzac rejeitava o rótulo de romancista, para se autodefinir como um historiador de costumes. E Robert McKee sentencia que “o que acontece é fato, e não verdade. Verdade é o que nós pensamos sobre o que acontece.”

Técnicas consagradas de pesquisa utilizam associação de imagens para descobrir o que os pesquisados pensam de verdade. Técnicas de dramatização facilitam a psicólogos o acesso às verdades mais remotas de seus analisados. Algumas delas escondidas nos sonhos, que, em última análise, são histórias que elaboramos enquanto dormimos, recheadas de simbolismos e revelações que muitas vezes nos surpreendem.

O psicanalista Robert A. Johnson chega a questionar a separação feita entre o que aconteceu realmente e o que aconteceu em um sonho, defendendo que o mais correto seria perguntar se determinado fato aconteceu na realidade de um sonho ou na realidade física. Segundo ele, é injusto privar os sonhos de sua verdade, já que o mundo dos sonhos teria “efeitos mais práticos e concretos em nossa vida do que os acontecimentos externos”.

Romances. De onde os escritores tiram suas histórias, se não das camadas mais profundas de suas experiências de vida? Anne Lamott afirma que “escrever nos motiva a olhar a vida mais de perto”, “escrever bem é contar a verdade” e que “um escritor busca a verdade e, paradoxalmente, conta mentiras a cada etapa do caminho”.

Filmes. A quantidade de imaginação aplicada aos documentários é maior ou menor que o volume de realidade inserido na ficção?

Biografias são tão vulneráveis à fantasia quanto são manipuláveis os relatos históricos que aprendemos na escola, ou a descrição que um amigo nos faz da festa em que seu poder de sedução atingiu os píncaros da glória.

O antiquado verbo “confabular” é muito honesto ao definir “conversa” como uma troca de fábulas, embora alguma honestidade persista quando entendemos “conversar” como intercâmbio de versões.

Sempre que nos expressamos, inevitavelmente o fazemos de um ponto de vista particular, sujeito a distorções culturais, convicções, intenções, preconceitos, estilos e vícios que muitas vezes nem sequer reconhecemos. Há um ponto de interseção, sensível e impreciso, entre realidade e ficção, e é nesse ponto que se encontra a verdade.

Não deve causar estranheza, portanto, o número crescente de executivos e jornalistas que confiam seu preparo profissional mais aos romances do que a livros técnicos. Lendo entrevistas de pessoas que ocupam cargos de alta responsabilidade, por duas vezes me deparei com a afirmação de que aprendiam mais sobre a natureza humana com Tolstói e Dostoiévski do que em tratados de psicologia ou manuais de RH.

James Wood ensina que

 

[...] a literatura é diferente da vida porque a vida é cheia de detalhes, mas de maneira

amorfa, e raramente ela nos conduz a eles, enquanto a literatura nos ensina a notar [...].

Essa lição é dialética. A literatura nos ensina a notar melhor a vida; praticamos isso na

vida, o que nos faz, por sua vez, ler melhor o detalhe na literatura, o que, por sua vez,

nos faz ler melhor a vida.

 

De um modo geral, como disse Andrea del Fuego em texto publicado no jornal literário Rascunho, “espera-se que o autor recolha do mundo aquilo que nós, leitores, não temos tempo, oportunidade e dom para fazê-lo”.

Por fim, não poderíamos deixar de fora a bela observação de Guy de Maupassant:

 

Que infantilidade, ademais, acreditar em realidade se carregamos a nossa própria em

nosso pensamento e em nossos órgãos. Nossos olhos, nossos ouvidos, nosso olfato,

nosso paladar, diferindo de pessoa para pessoa, criam tantas verdades quanto há

homens na terra. E nossas mentes, informadas por esses órgãos, tão diversamente

sentem, compreendem, analisam, julgam, que cada um de nós parece pertencer a uma