Storytelling: Histórias que deixam marcas

Adilson Xavier · Capítulo 32 de 85

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Storytelling: Histórias que deixam marcas

Os muitos meios de se contar uma história

Simples demais? OK, vamos alguns passos adiante.

Selecionei dois autores que formulam suas recomendações estruturais com letrinhas mnemônicas: Alice Adams e James Scott Bell.

Alice escolheu a quase-ordem alfabética: ABDCE (Ação, Base, Desenvolvimento, Clímax e Encerramento), onde alarga um pouco mais a trilogia “introdução, desenvolvimento, desfecho”, acrescentando na largada da história uma “ação” que capte a atenção do público, o tal bom começo que, sempre bem-vindo, merece ser destacado.

James se prende mais aos ingredientes, espertamente enfeixados na palavra LOCK: Lead (personagem principal), Objective (objetivo do personagem), Conflict (conflitos, obstáculos, oposições encontradas pelo personagem na busca do seu objetivo), Knockout Ending (final impactante).

Qualquer que seja o modelo adotado, ou ainda que se prefira escapar de todos os modelos, vale ter sempre em mente a recomendação de Luis Buñuel:

 

O essencial em um roteiro parece-me o interesse mantido por uma boa progressão, que

prende a atenção dos espectadores o tempo todo. Pode-se discutir o conteúdo de um

filme, sua estética (se a tem), seu estilo, sua tendência moral. Mas ele nunca pode

entediar.

 

Os muitos meios de se contar uma história

 

No capítulo de abertura deste livro, vimos a definição de storytelling formulada por Antonio Núñez, e como ele defende estarmos lidando com uma ferramenta. Embora prefira a tecnarte usada em minhas definições, concordo que fica mais natural usarmos a ideia de “ferramenta” neste momento específico.

Pois bem, os meios disponíveis para uso dessa ferramenta são praticamente ilimitados. Histórias podem ser contadas em conversas pessoais, por escrito em meios impressos ou eletrônicos, através de peças teatrais, filmes, transmissões em telas de cinema, TV, computador, tablet, celular, ou qualquer outra capaz de nos mostrar imagens e sons. Histórias também são contadas através das artes plásticas, da música, dos enredos de escolas de samba, das celebrações populares e religiosas. Renato Russo, ao compor “Eduardo e Mônica”, talvez não adivinhasse que a história contada na música seria encenada em um curta-metragem de muito sucesso na internet, em campanha publicitária da Vivo para o Dia dos Namorados. Talvez também não imaginasse que seu “Faroeste Caboclo” se tornaria um excelente longa-metragem dirigido por René Sampaio.

Mas não é necessário ser tão explicitamente narrativo. Todas as canções, de alguma forma, contam histórias, algumas até fazendo questão de colocar isso no título, como “Minha História”, de Chico Buarque.

O famoso Guernica de Picasso é um quadro extremamente narrativo. Pinturas e esculturas, aludindo a personagens reais ou fictícios, integram-se imediatamente às histórias que envolvem aqueles personagens. A Festa da Uva, as Bierfest, o Rock in Rio, as procissões católicas, as homenagens a Iemanjá no Réveillon, os rituais da Semana Santa, do Natal, do Yom Kippur, do Halloween, de Cosme e Damião, do Dia do Trabalhador, de Finados, de Ação de Graças, do Dia das Mães... tudo tem narrativa própria e pode ser encaixado como capítulo de outras narrativas. O ritual do casamento é história, como também é o das debutantes, dos aniversários em geral, das formaturas. Cantar “parabéns”, mentalizar um desejo, apagar as velas, jogar o buquê, estourar o champanhe, brindar com taças cheias e tomar um gole em seguida... haja história, boas lembranças e expectativas.

Histórias se valem de mitos e ritos, recheiam de significado os momentos marcantes de pessoas, grupos sociais, cidades e nações.

Com storytelling, a velha estrutura do circo foi transformada em Cirque du Soleil. E as marcas que usamos no dia a dia se tornam parte do enredo de nossas vidas.