Storytelling: Histórias que deixam marcas
Tudo a partir de um livro
No Vaticano, os Papas atraem as atenções do mundo, atuando como chefes de Estado em privilegiada situação. Basta dizer que a revista Time já elegeu três Papas como Personalidade do Ano: João XXIII em 1963, João Paulo II em 1994 e Francisco em 2013, para confirmar o status pop dos pontífices. Visitas papais costumam mobilizar multidões, e a Jornada Mundial da Juventude equipara-se aos grandes eventos esportivos globais na quantidade de público que atrai. Nada mais benéfico para a propagação de uma narrativa do que pessoas que a encarnem e eventos que a celebrem.
De onde vem tudo isso?
Tudo a partir de um livro
A história aclamada, repassada e infinitamente reinterpretada da Igreja Católica se concentra na Bíblia. E o que tem esse livro de tão interessante? A saga de um povo que caminha, cai e se levanta em busca da liberdade e de um relacionamento bem resolvido com seu Deus, repleta de profetas, patriarcas, guerras e intrigas das mais diversas (Antigo Testamento). E a culminância dessa saga com a chegada ao mundo do Filho de Deus, o herói que, por se diferenciar do comportamento sócio-político-cultural da época, apesar de ter se dedicado a fazer o bem, é mal interpretado, preso e condenado. Para espanto de todos, esse herói ressuscita, vencendo o mais temido adversário da humanidade: a morte (Novo Testamento). Resumindo, essa é a história que vemos desdobrada há mais de dois milênios em incontáveis fragmentos. E sua ação sobre a vida de algumas pessoas faz com que elas sejam consideradas santas, gerando tramas paralelas que a realimentam.
Com as novas tecnologias, ela continuará em expansão, mostrando-nos que, do alto de sua situação ímpar, tem muitas lições a nos dar sobre storytelling e transmídia. E essa continuação acontece espontaneamente, surgindo de diversas fontes, sem que sobre elas haja necessariamente alguma interferência ou supervisão da Igreja. Dada a história, fixadas suas bases e estimulada sua propagação, as narrativas passam a caminhar sozinhas, gerando impressionantes desdobramentos.
Sim, todas as religiões são construídas sobre histórias, esse não é um privilégio dos católicos. Os países predominantemente budistas, por exemplo, são repletos de imagens e relatos de Buda. Baseadas na mesma Bíblia, as diversas faces do protestantismo, através de datas comemorativas, leituras, debates, sermões ou canções gospel, interagem com o catolicismo na macronarrativa cristã. Seguidores do islamismo e judaísmo, que compartilham com o cristianismo apenas a primeira parte do livro — Antigo Testamento —, também cultuam seus símbolos particulares, suas datas, seus líderes etc.