Storytelling: Histórias que deixam marcas
Franz Kafka — Babel em versão estendida
Foi em um conto, “Das Stadtwappen”, vertido para o inglês como “The City Coat of Arms” e sem tradução conhecida para o português.
Publicada postumamente em 1931, a visão de Kafka sobre a famosa torre acrescenta elementos muito interessantes ao fracassado processo de construção.
Era Praga que o autor tinha em mente com sua crítica, mas, como costuma acontecer com tudo que é honestamente focado, o micro se aplicou ao macro, e sobrou para todo o mundo.
A Babel de Kafka começa enaltecendo que tudo estava bem organizado, talvez até excessivamente, para o início do empreendimento. Ressalta, por exemplo, a grande atenção dada a guias, intérpretes, acomodação de trabalhadores e sistemas de comunicação, como era de se esperar em um inédito projeto multinacional que pretendia marcar de forma indelével a história da humanidade.
Da estrutura, passa-se ao conceito: “Construir uma torre que chegue até o céu.” Cem por cento alinhado com o que diz a Bíblia, exceto por não aludir à participação de Deus no enredo. O rigor focal é sublinhado na frase que vem logo após o enunciado do conceito: “Beside that idea everything else is secondary” (Perto daquela ideia, tudo o mais é secundário).
Tudo bem, até que surge o primeiro entrave. O pessoal envolvido no projeto considera que o conhecimento humano está aumentando, que a arquitetura tem progredido e continuará evoluindo, que dali a cem anos um trabalho que na época levava um ano para ser feito poderia talvez ser executado na metade do tempo, e mais, executado com maior qualidade e segurança. A obra só faria sentido, portanto, se a torre fosse erguida dentro de uma única geração, o que, dada sua complexidade, estava fora de questão. Justificavam esse veredicto pressupondo que a geração seguinte, com seu know-how aperfeiçoado, acharia insatisfatório o trabalho da geração anterior e derrubaria o que até ali fora construído para começar do zero.
Criado o impasse execucional, as pessoas acabaram se preocupando menos com a torre do que com a construção da cidade que abrigaria os trabalhadores incumbidos de construí-la. E, nesse processo, cada nacionalidade (não nos esqueçamos de que se tratava de um empreendimento global) tratou de pleitear para si os melhores pedaços da cidade, o que deu origem a disputas e conflitos sangrentos.
Perdida a necessária concentração na tarefa principal, a torre seria construída muito lentamente. Melhor adiá-la até que chegassem a algum acordo de paz.
Assim se passou a primeira geração. Da mesma forma se passaram as gerações seguintes. E nada mudou de uma geração para outra, exceto o aumento da capacidade tecnológica e da beligerância entre os povos.
Kafka ressalta que, lá pela segunda e terceira gerações, o absurdo de se construir uma torre até o céu já era amplamente reconhecido. Mas, àquela altura dos acontecimentos, todos já estavam tão ligados ao projeto que ninguém conseguia deixar a cidade.
Se o relato bíblico soa como maldição, Kafka o complementa com maestria, ampliando a maldição a níveis facilmente reconhecíveis como verdadeiros. É assim que a humanidade vem caminhando desde sempre, metendo-se em labirintos que, de tão trágicos, resvalam no cômico. Cada avanço traz consigo novas complicações, acrescentando mais curvas ao imenso labirinto em que nos movemos. No fundo, nada realmente muda, exceto, como bem pontuou o gênio tcheco, a tecnologia e o grau de violência. Será mesmo?