Storytelling: Histórias que deixam marcas

Adilson Xavier · Capítulo 38 de 85

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Storytelling: Histórias que deixam marcas

Capítulo 12: PEQUENOS GRANDES MUNDOS

Capítulo 12

 

PEQUENOS GRANDES MUNDOS

 

As marcas alavancadas por contextos históricos se beneficiam em moldes semelhantes aos das cidades? Certo.

Quer dizer, então, que não podemos lhes creditar o mérito por seu storytelling? Errado.

Antes de mais nada, cidades também são marcas. Têm histórias de percurso: fundador e data de fundação, episódios e pessoas que se destacam, proezas, heróis, características de que se orgulham. Assim como têm histórias de sustentação atitudinal, com sua cota de mitologia construída. Todas as cidades convivem com essas duas narrativas; umas com mais evidência em certos aspectos, outras com menos; umas narrando com mais competência, outras com menos.

Varginha, no sul de Minas Gerais, cujos primeiros documentos datam de 1780, é cidade com forte vocação agrícola, destacando-se na produção de café, produto do qual se tornou importante exportadora. Indústria e serviços gradativamente aumentaram sua participação na economia local, mas nada que a impulsionasse além da posição de simpático município de médio porte, ou lhe trouxesse fama especial. Até que, em 1996, surgiu seu grande alavancador de notoriedade: um ET. Falso? Verdadeiro? Testemunhado? Imaginado? Não importa. Estejamos nós diante de um fenômeno a ser celebrado por ufólogos, uma alucinação, um delírio, ou não mais que um interplanetário mal-entendido, o fato é que o ET de Varginha tornou-se o grande personagem da cidade, astro de várias versões, suposições e especulações. Graças a essa misteriosa história, Varginha tem hoje um monumento em forma de disco voador e uma estátua de seu famoso ET, atraindo a atenção de visitantes e estimulando a fabulação em torno da cidade.

OK, não é sempre que uma cidade recebe um protagonista descido do céu. Vamos continuar no mesmo estado, visitando agora Ouro Preto. Ah, não! Covardia, dirão alguns. Ouro Preto é a essência da cidade histórica, Patrimônio Cultural da Humanidade, berço da Inconfidência Mineira, respira história em cada detalhe arquitetônico. Tudo isso é verdade, como também é inegável que a cidade faz excelente uso de seu potencial e se mantém encantadoramente jovem. Comparando-a com outras cidades históricas brasileiras, sem julgamentos mais complexos, podemos perceber que o percurso histórico sozinho não faz milagres. Os bons resultados dependem essencialmente de como a história é narrada e preservada.

Mudemos então de categoria, partindo para Itu, no interior de São Paulo. Não há registro de fatos extraordinários, nem de ETs encontrados na cidade. Mas houve um importante personagem que transformou sua percepção, chamado Simplício. Em 1967, o ator Francisco Flaviano de Almeida, que atuou no primeiro programa de humor da televisão brasileira (A praça da alegria, na TV Tupi), chegou à TV Globo. Na nova emissora, seu personagem, Simplício, passou a se referir a Itu como a terra onde tudo é grande. A partir da brincadeira humorística com sua cidade natal, o ator fez com que Itu adquirisse essa fama, que se tornou seu principal patrimônio de comunicação, gerando inúmeras histórias e produtos de tamanho exagerado que continuam até hoje realimentando o mito.

No outro extremo do mundo, a milenar Pequim se dá o luxo de ter dentro de si uma outra cidade. Diante da Praça da Paz Celestial, ergue-se imponente a Cidade Proibida, antigo reduto imperial. Andar por ali é como voltar no tempo, ou passear pelo famoso filme de Bernardo Bertolucci, O último imperador. Sim, independentemente da bagagem histórica trazida por qualquer cidade, seu envolvimento em quaisquer outras narrativas tem grande efeito potencializador. Que o diga Los Angeles, abrigando em seus domínios a máquina narrativa de Hollywood. Ali, uma história puxa outra, os bastidores são trazidos para o primeiro plano, como se fossem estrelas arrastadas para um passeio interminável na calçada da fama.

Através dos filmes, muitas cidades se tornam tão íntimas que passam a fazer parte de nossa história pessoal. Não há como visitar Nova York e não se sentir dentro de várias cenas, não perceber que existe ali uma proximidade construída a distância. Muitos cineastas fizeram de Nova York seu campo de trabalho. Woody Allen o fez com mais intensidade, e o resultado foi tão positivo que outras cidades passaram a lhe encomendar narrativas. Graças a isso, os cinéfilos foram brindados com Vicky Cristina Barcelona, Para Roma com amor e Meia-noite em Paris. Sem contar com a obra anterior a esses filmes, Match Point, que, mesmo sem foco na cidade, nos mostra uma Londres contemporânea e sedutora raramente apresentada nas telas.

Enfim, Londres. Sherlock Holmes parece ainda morar em Baker Street, os Beatles parecem atravessar diariamente a faixa de pedestres de Abbey Road, a troca da guarda em Buckingham segue acontecendo como em um ritual de conto de fadas, enfeitado por carruagens, reis, rainhas e casamentos de sonhos principescos. Pergunte a uma menininha de 5 anos como ela gostaria de se vestir em uma festa à fantasia e a probabilidade de ouvir “princesa” é enorme. As histórias infantis estão repletas de princesas, a ponto de fazer com que a palavra se tornasse sinônimo de beleza, e em nenhum outro lugar a monarquia é mais celebrada do que em Londres. Graças à literatura, ao cinema, às tradições mantidas, aos símbolos que desfilam pelas ruas, como táxis diferenciados, cabines telefônicas, ônibus pitorescos, e até aos grandes assassinos, a começar por Jack, o Estripador, Londres é um caldeirão de histórias. Algumas reais, outras fictícias, todas se misturando em uma atmosfera que permite sair de um museu ultramoderno para fazer uma excursão por lugares mal-assombrados, passar no Globe Theatre para reverenciar Shakespeare e depois assistir a performances experimentais em algum recanto hi-tec.

Voltando à importância da música no storytelling, nunca é demais recordar os clássicos como “New York, New York”, “I Left My Heart in San Francisco”, “Garota de Ipanema”e “Sampa” e, entre outros, que tanto enriquecem a imagem e as histórias das cidades homenageadas.

Cidades de todos os tipos e tamanhos podem se beneficiar do storytelling. Basta consultar seu histórico em busca de algo relevante. E se nada houver que possa resultar em uma boa história, sempre existe a possibilidade de criar um mito, desenvolver uma narrativa e, a partir daí, fazer com que seus habitantes vivam felizes para sempre.