Storytelling: Histórias que deixam marcas
Capítulo 28: TELLERS, BUILDERS E DOERS
Capítulo 28
TELLERS, BUILDERS E DOERS
Independentemente da ancestralidade, o storytelling, ao reflorescer sua relevância em nossos dias, despertou ânsias de aprofundamentos que podem gerar confusões futuras. Normal. Tudo tende a se desdobrar em especialidades, até o ponto em que, ultrapassados os limites do razoável, começa o processo de assentamento conceitual. Expansão × concentração — a dinâmica do efeito sanfona.
Só o tempo é capaz de julgar se as especialidades são duradouras ou meros modismos. Escritores se especializam em determinados gêneros e se mostram fiéis a seus estilos há séculos. Roteiristas, além dos gêneros e estilos, às vezes delegam os diálogos a um profissional, que se dedica apenas a esse aspecto do roteiro. Em propaganda, fora a clássica separação dos criativos em redação e direção de arte, há os que se propõem a atuar prioritariamente no território on-line ou off-line, e os que só se dedicam ao below-the-line. Ainda nessa área, a vigorosa chegada dos planejadores no fim do século XX deve-se a uma especialização que se apossou de dois pedaços do que antes era atribuição compartilhada entre criadores e executivos de conta.
Junto com as especialidades nascem os jargões, que, entre diversas utilidades, servem para manter os intrusos a distância e dar aos frequentadores do mesmo nicho uma conveniente aura de inacessibilidade. Daí surgem os intermináveis neologismos tecnológicos, a proliferação de siglas e os apelidos de cargos, reuniões e processos dentro das empresas. Algo natural nas organizações humanas, quaisquer que sejam as atividades a que se dediquem. Tão antigo quanto as fartas doses de latim no vocabulário dos advogados.
Por que essa volta enorme?
Porque o Storytelling já começa a ter filhotes.
No capítulo dedicado à Red Bull, falamos de Storydoer — aquele que faz a história acontecer na vida real através da ação, e não da narração. A questão é se estamos nos referindo a um protagonista de sua própria história, que precisaria de um storyteller para contá-la, ou de alguém que deliberadamente age de forma a compor uma história. Neste caso, a ação, mais do que um exercício do protagonismo, seria uma forma de narrativa, perfeitamente integrada ao elenco das possibilidades de se contar uma história. Ou seja, puro storytelling.
O problema do storytelling, e das atividades humanas em geral, está na interpretação restritiva, ao pé da letra. Reduzi-lo ao “contar” destrói a essência do seu significado. É como atribuí-lo a quem conta uma piada sem sequer saber de onde veio a ideia da piada. Definitivamente não estamos falando de meros contadores de histórias, mas de pessoas com talento e domínio técnico para construir e comunicar histórias. Pronto, quem mandou definir? Esse “construir” motivou uma terceira expressão: Storybuilder — a pessoa que monta a história, a cabeça pensante por trás da narrativa. Ou seria ele apenas o editor, dando margem ao nascimento do Story-architect, este sim a cabeça pensante original? Cansativo demais lidar com tantas variáveis.
Enquanto o tempo não exerce seu papel depurador, faz mais sentido concentrar todas as vertentes sob o guarda-chuva do Storytelling. Os builders e doers são essencialmente tellers, sem firulas. Assim fica mais fácil entender que, no objetivo maior de fazer uma história acontecer, são storytellers de um filme tanto o roteirista quanto o diretor, os intérpretes e editores. Se o roteiro é baseado em um livro, incorpora-se ao grupo o autor da obra literária, que em relação à obra escrita inicial é o único storyteller a ser considerado. Nada tão misterioso assim: obras coletivas têm vários storytellers (cada um na sua especialidade, que não precisa ter um novo nome), obras individuais têm apenas um.
Para quem trabalha com marcas e propaganda, não há o que discutir: todas as obras nessa área são, a princípio, coletivas, multidisciplinares, portanto com grande diversidade de storytellers.