Storytelling: Histórias que deixam marcas
Por que essa história toda agora?
Repare que uma mesma palavra híbrida aparece nas três definições. É que entendo ser inevitável a mistura de técnica com arte quando lidamos com histórias. O que não me impede de aplaudir opiniões diferentes, como a do espanhol Antonio Núñez, que, em seu livro ¡Será mejor que lo cuentes!, define storytelling como “uma ferramenta de comunicação estruturada em uma sequência de acontecimentos que apelam a nossos sentidos e emoções”. Acrescentando logo em seguida que essa ferramenta, “ao expor um conflito, revela uma verdade que aporta sentido a nossas vidas”. Sem dúvida, uma conceituação brilhante.
Quatro opções: três definindo storytelling como tecnarte, uma definindo como ferramenta. Escolha a que lhe soar melhor e siga em frente. Se tudo correr bem, ao final do livro você terá elementos para formular sua própria definição, e provavelmente estará convencido de que ninguém precisa de definições para ser um bom contador de histórias.
Por que essa história toda agora?
Junho de 2014. Copa do Mundo acontecendo no Brasil. Festival Internacional de Criatividade acontecendo em Cannes. Embora ainda predominantemente frequentado pelo mundo da propaganda, o festival atrai crescente presença de empresários de vários setores em busca de comunicação mais eficaz e aborda outros tipos de criatividade além da estritamente publicitária. Como acontece com cada vez mais intensidade, os seminários e debates ganham espaço sobre a mostra competitiva.
De que tratam essas apresentações que lotam os auditórios do Palais? Pensou em futebol, marketing esportivo e assuntos afins? Errou.
Disputando a atenção de milhares de delegados do mundo inteiro, destacam-se os temas: #Live Storytelling (apresentado em duas sessões diferentes pelo Twitter), Meet The Disruptors: Spike Jonze And Gaston Legorburu On Building Worlds With Technology And Story (apresentado pela Sapientnitro), Is Mobile The First And Ultimate Storytelling Screen? (apresentado pela MMA), The Extended Story (apresentado pela The Project Factory), Storytelling With Story Creators (apresentado pelo The New York Times), The Art Of Storytelling On Youtube, With Dreamworks Animation And Vice Media (apresentado pelo YouTube em duas sessões), The Power Of Story (apresentado pela Time Warner Inc.), The Truth About Universal Storytelling — How And Why Creative Ideas Travel (apresentado por McCann World Group e The Paley Center for Media), Combining Stories, Technology And Cultures: An Experiment In Different Creativity (apresentado pela Party), How To Become A Visual Storyteller (apresentado pelo Tumblr em duas sessões), Bands, Brands And Fans — How Collaboration Is Driving Music Creation And Brand Storytelling (apresentado pela Moxie). Onze temas tratando de storytelling no título, fora os que também passaram pelo assunto sem enunciá-lo, como Art, Copy & Code Create The Future Series: Creating Mobile-First Film (apresentado pelo Google) e Alan Rusbridger In Conversation With Ralph Fiennes (apresentado pelo The Guardian), entre outros. Concentração bastante expressiva para apenas uma semana de evento em que tantos aspectos da criatividade e da comunicação desfilam pela Croisette.
Não é por acaso que a mais antiga forma humana de troca de experiências tornou-se a quase-novidade que tanto interesse tem despertado em gente de tão variadas profissões. Criadores e produtores de conteúdo de entretenimento e cultura, profissionais de marketing, de publicidade, de vendas, de jornalismo, de ensino, de política, de qualquer atividade que lide com apresentações de ideias ou projetos de repente percebem no storytelling uma questão de fundamental importância. Esse clique coletivo, abrupto como todo clique que se preza, coincide com o momento em que as narrativas clássicas dão sinais de fragilidade, criando confusão em nossas histórias individuais e consequentes crises de identidade.
Nosso cenário, antes restrito a pequenas localidades, ficou do tamanho do mundo. As famílias assumiram configurações múltiplas, deixando de ser o ambiente inviolável onde atuavam os personagens mais importantes. As religiões ou se imediatizam ou perdem terreno para necessidades mais imediatas, que se multiplicam alucinadamente, sufocando as buscas transcendentais. As escolas sofrem para despertar o interesse dos alunos, insistindo em velhas fórmulas que não acompanham a velocidade contemporânea. Profissões e negócios desaparecem, outros surgem.
As relações de trabalho passam a ter menos envolvimento, menos duração, menos segurança.
As relações afetivas, profissionais, sociais, políticas, ideológicas e espirituais, que historicamente deram nitidez ao perfil de cada pessoa, esfumaçaram-se, tornaram-se instáveis.
Tudo o que era sólido se fragmentou e está virando líquido. Até conceitos como nacionalidade perdem substância quando a globalização espalha as mesmas marcas, modas, hábitos e gostos por todos os cantos do planeta, quando a homogeneização nos priva do prazer de sermos surpreendidos, deixando em nós uma fome ambivalente, de individualidade e coletividade.
O clique deflagrador da revitalização do storytelling acontece no momento em que o mundo digital se estabelece definitivamente entre nós, trazendo novas conexões, novas oportunidades de expressão, novos poderes, novas incertezas: uma realidade em que todos se tornam geradores de conteúdo e unidades de mídia ao mesmo tempo.
Diante de um computador, tablet ou smartphone, cada um de nós registra sua história via redes sociais, narra o que está vivendo, testemunhando ou inventando, o que quiser. Milhões e milhões de histórias lutando por um lugar ao sol na bombardeada memória das pessoas, buscando ser lembradas, admiradas, compartilhadas, multiplicadas. Histórias de indivíduos, grupos, nomes e marcas, tudo misturado.
De uma hora para outra, passamos a ter duas vidas: uma real, outra virtual. E elas se entrelaçaram de tal maneira que já não temos certeza dos limites que as separam. No trio dos instintos básicos de preservação da espécie, a conexão (gregarismo) vê ampliada sua relevância ante a sobrevivência e a procriação. Sai de pauta o controle da natalidade, chega com força máxima o descontrole da conectividade, e todos se deliciam com a fartura nunca antes experimentada de momentos de comunicação, em uma corrida de regras ainda não claras que, como sempre, só tem lugar no pódio para os mais aptos e adaptáveis. Apenas um fato parece indiscutível nesse complicado cenário: os melhores contadores de histórias vencerão.
Altos e baixos
O QUE SOBE O QUE DESCE
Tecnologia Afetividade Opções de entretenimento Tempo disponível Volume de informação Capacidade de retenção Superficialidade Profundidade Expectativa Atenção
Dentre os muitos altos e baixos da vida moderna, são esses os que nos interessam mais de perto. Abundância de um lado, escassez do outro — balança difícil de equilibrar, mas que se aproxima do ponto ideal quando agrupamos vários ingredientes no mesmo movimento. Não é difícil imaginar, por exemplo, que tecnologia, entretenimento e informação, se reunidos em um mesmo pacote, podem favorecer a captação de atenção, a otimização do tempo, a capacidade de retenção e até mesmo a análise em profundidade. Diminuindo a dispersão, aumenta a concentração, o que não chega a ser uma grande novidade.
Nesse exercício concentrador, apenas dois aspectos, exatamente os mais íntimos, ficam de fora: a expectativa em alta e a afetividade em baixa. “Quanto mais se tem, mais se quer”, sabemos desde sempre, o que coloca sobre a expectativa alta o peso do seu não atingimento: frustração, insatisfação.
No lado da afetividade baixa, a consequência é semelhante: frustração, insatisfação. Há uma natural expectativa de afetividade em todos nós, o que acaba juntando essas duas pontas. Não por acaso, uma encerra a lista dos altos enquanto a outra inicia a lista dos baixos.
A fartura de recursos, opções e informações parece acelerar uma crescente sensação de tédio e aumenta a certeza de que nosso problema está longe de ser quantitativo. Repare que os itens em alta no mundo contemporâneo pertencem mais ao quadrante objetivo/quantitativo. Portanto, o bom senso recomenda que façamos melhor uso desses aspectos ascendentes e concentremos esforços nos aspectos que estão em baixa, a começar pela atenção.
Pergunte a um professor qual é seu maior problema no exercício do magistério. A resposta mais ouvida certamente será o binômio desinteresse/desatenção.
Converse com profissionais que precisam trocar textos com seus colegas de trabalho, qualquer que seja a atividade, e descubra que quase todos reclamarão de suas mensagens não lidas com a devida atenção, das respostas recebidas questionando sobre o que já foi dito na mensagem inicial, da baixíssima probabilidade de leitura até o final de textos com mais de dez linhas.
Consulte jornalistas, escritores, roteiristas, publicitários, e os relatos de desatenção serão assustadores.
A simples existência de uma Economia da Atenção, popularizada em 2001 pelo livro de Thomas Davenport e Michael Goldhaber, e antevista por Herbert Simon em 1971, evidencia a gigantesca dimensão do problema. Simon enxergou o óbvio: “O que a informação consome é a atenção dos seus recipientes, ou seja, a riqueza de informação cria uma pobreza de atenção.” Desde então, a situação só tem se agravado, levando um número cada vez maior de pessoas a concordar com a frase de Nicholas Negroponte, do Laboratório de Mídia do MIT: “Não quero quinhentos canais de televisão. Só quero aquele único canal que me oferece o que quero ver.”
Em Muito além do merchan!, de Raul Santa Helena e Antonio Jorge Alaby Pinheiro, há um parágrafo que, embora dirigido à publicidade, se aplica a todas as áreas ligadas à comunicação e ao entretenimento:
Se somarmos os fenômenos da ‘dispersão de atenção’ e da ‘fragmentação da audiência’,
temos desenhado um pesadelo para todos nós publicitários e profissionais de gestão e
marketing. Estes fenômenos somados vêm consolidando a crescente crise de atenção
que a publicidade vem enfrentando há alguns anos de forma cada vez mais intensa.
Não é preciso ser um grande expert para perceber que todos os itens “em baixa” de nossa lista estão interligados e são, até certo ponto, interdependentes. Tudo começa com atenção, sem a qual o restante se inviabiliza. Se logo após a atenção inserirmos algum grau de afetividade (ou, se preferirmos, de emoção), estará aberto o caminho para uma identidade mais profunda entre comunicador e público.
Cabe aqui mais uma expressão traduzida para o linguajar econômico dominante em nossos dias: Capital Emocional. Matematicamente falando, nada mais é que o resultado da soma da publicidade com o entretenimento. Foi Steven J. Heyer, presidente da Coca-Cola, quem criou a expressão e afirmou, em discurso na abertura de evento promovido pela revista Advertising Age, em 2003: “Vamos utilizar um conjunto de diversos recursos de entretenimento para entrar nos corações e mentes das pessoas. Nessa ordem... Vamos nos deslocar para ideias que tragam à tona a emoção e criem conexões.”
Completando a aquarela do economês planetário, surge uma outra economia que, lastreada no Capital Emocional, divide espaço com a Economia da Atenção. Trata-se da Economia Afetiva.
Não desista ainda. Prometo que as variações em torno da economia se encerram aqui.
Procurando compreender a base emocional que motiva a tomada de decisão do consumidor tanto para consumo de mídia como para fazer compras, a Economia Afetiva coloca seu foco no ponto onde grandes histórias e grandes vendas se encontram — o botão que, uma vez acionado, faz tudo acontecer ao mesmo tempo.
Pois bem. Ultrapassada a barreira da superficialidade, é natural que nos seja concedido mais tempo, o que resulta em ainda mais atenção. E com esse reforço de atenção, qualificado pelo afeto, ganhamos ainda mais profundidade, chegando ao último e glorioso item: capacidade de retenção, que traz a reboque os três grandes prêmios de ser compreendido, ser amado e ser lembrado.
A maneira de cumprir esse difícil percurso é contar uma boa história, que prenda a atenção, envolva com emoção, crie laços profundos com o público, una todas as pontas em um relato compreensível, seja apreciada e lembrada. A ironia do jornalista Joel Achenbach, do The Washington Post, é contundente quando ele observa que “a overdose de informação não é o apocalipse que alguns imaginaram que sobreviria ao início do milênio. O mundo não está acabando, simplesmente está se tornando incompreensível”.
Vivemos um momento de grandes novidades, que provoca reflexão e exige a tomada de novos rumos: apreciar o quanto de passado se reflete no futuro, redescobrir as histórias que estruturam nossas vidas há tanto tempo e que podem continuar nos ensinando; aprender a degustá-las, criá-las e contá-las de maneira cada vez mais agradável e eficaz.
Histórias dão sentido à vida. Sustentam nossos valores básicos, as religiões, a ética, os costumes, as leis, os múltiplos aspectos culturais que nos cercam. Histórias nos dão segurança, estabilidade grupal, erguem celebridades, empresas e nações. Soa exagerado, mas até isso faz parte das histórias: acentuar os traços para impressionar o público e reforçar pontos de vista. Sem cerimônias, sem preocupação com questões dogmáticas ou controversas de fé, raça, política, o que quer que seja. Sem permitir que nada se interponha entre nós e a análise objetiva das histórias que nos levam a acreditar mais em um modelo do que no outro, mais em uma linha de raciocínio do que na outra, mais nesta marca do que naquela.
Antes de seguirmos em frente, esclareço que uso a palavra “história” tanto para o ficcional quanto para o factual. “Estória” (story, em inglês) nos livraria de eventuais confusões, mas empobreceria a estética e o conteúdo do texto em um de seus pilares mais interessantes: a íntima complementaridade entre realidade e ficção na revelação da verdade. Para todos os efeitos, portanto, história e estória são partes indivisíveis de uma única necessidade de narrar.
Isso posto, vamos à história.