Storytelling: Histórias que deixam marcas
Conexão
Por que eles, e não outros povos? Talvez pelas dificuldades que lhes foram impostas em sua trajetória através dos séculos, acentuando a necessidade de uma coesão especial que só o compartilhamento de histórias consegue proporcionar. Talvez por características específicas, como seu longo nomadismo, o convívio constante com a aridez, a diáspora demandando um terreno de histórias em que pudessem pisar sem sobressaltos. Talvez por esses e outros aspectos somados, ou mesmo — por que não? — por terem sido realmente “escolhidos” para essa nobre tarefa.
E a vocação narrativa judaica tem sido exercida em toda sua plenitude. Luis Fernando Verissimo, em crônica publicada no jornal O Globo de 14 de julho de 2013, compara dois escritores judeus muito afastados um do outro, histórica e geograficamente: Moacyr Scliar e o nosso já visitado Franz Kafka. A partir da declaração de Moacyr de que Kafka fora sua maior influência literária, Verissimo analisa:
Como as histórias do Kafka e como, no fundo, toda a literatura judaica tradicional ou
moderna, as histórias do Scliar têm um tom de parábola, de ensinamento bíblico, se
você conseguir imaginar uma Bíblia sem religião. São parábolas sem uma moral no fim.
Têm a forma de uma narrativa didática, inspiradora ou aterrorizadora, mas sem uma
clara lição no final.
O Scliar e o Kafka têm em comum não apenas o fato de serem ambos judeus urbanos
com um pendor para o fantástico e o insólito, mas por compartilharem desta
compulsão, característica da cultura judaica, de contar histórias que significam mais do
que elas mesmas, histórias que significam outras histórias, escondidas, e brincam com
analogias e símbolos antigos desta cultura.
Tanto domínio narrativo só pode ser atingido por quem conhece a fundo a alma humana, e nessa hora não podemos nos esquecer de Sigmund Freud, pai da psicanálise, que buscou um significado único para todos os males que atingem nossa psique.
A extraordinária performance dos judeus no campo do storytelling, independentemente dos fatores que a antecedem e tentam justificá-la, converge para o mesmo ponto perseguido por Freud que, no final das contas, é a razão de ser de toda história: a busca por significado. Dar significado à nossa existência, às pessoas e coisas que nos cercam é a meta que buscamos desde sempre. Quanto mais nos aproximamos dela, mais perto chegamos da felicidade.
Conexão
Palavra muito repetida em nosso dia a dia informatizado, a conexão a que nos referimos aqui vai muito além do que a tecnologia pode oferecer. Elo imprescindível para a construção de histórias poderosas, ela é pressuposto de qualquer espécie de comunicação que funcione. A conexão acontece em dois polos simultâneos: o emocional e o cultural. Sem emoção, qualquer que seja (humor também é emoção, vale relembrar), não existe boa comunicação nem boa história. Em Lovemarks, Kevin Roberts registra que “a emoção tornou-se assunto legítimo de pesquisas sérias. Quando os cientistas se envolvem com a emoção, não demora muito para provarem o que era óbvio para qualquer um que tenha se interessado em observar”. E conclui:
As pessoas estão à procura de conexões novas e emocionais. Elas procuram algo para
amar [...] Só existe uma forma de prosperar como profissional de marketing na
Economia da Atenção: parar de correr atrás de modismos e dedicar-se a estabelecer
conexões consistentes e emocionais com os consumidores. Se você não representa nada,
falha em tudo.
No polo cultural, que também traz em si alguns volts de carga emocional, verificamos que, sem elementos de referência que acrescentem relevância e identificação ao que se está dizendo, nada acontece. Uma boa história nos fisga nesses dois pontos e nos mantém conectados com ela.
As histórias contadas por Jesus aconteciam em uma região onde predominavam atividades agropastoris. Daí as alusões ao bom pastor, às sementes lançadas na estrada, à videira com seus ramos etc. Uma realidade totalmente distante da nossa, mas que nem por isso nos desconecta.
Por quê?
Primeiro, porque revela autenticidade, não tenta uma amplitude imediata que poderia levá-la a se perder. Segundo, porque não trata em última instância daqueles elementos circunstanciais, mas da natureza humana e dos significados que tanto desejamos encontrar.
O filósofo espanhol Ortega y Gasset resume muito bem a questão da autenticidade e identidade quando diz que “eu sou eu e minha circunstância”. E outro espanhol, Miguel de Unamuno, vai mais fundo na aplicação desse princípio da identificação ao universo literário, propondo a seguinte reflexão: “Por que, ou seja, para que se escreve um romance? Para se escrever o romancista. E para que escrever o romancista? Para escrever o leitor, para se tornar um com o leitor. E é só se tornando um que o romancista e o leitor do romancista se salvam, ambos, de sua solidão radical. Na medida em que se tornam um, eles se atualizam e, atualizando-se, eternizam-se.”
Impossível precisar o momento exato em que a conexão deve acontecer. Quanto mais cedo, melhor. Como em qualquer contato humano, estamos falando da primeira impressão, do olhar provocador, do sorriso cativante, do gesto que atrai e nos faz sentir à vontade com o outro. Na escassez de tempo e fartura de opções em que vivemos, é fundamental cativar o público logo nas primeiras linhas, prometer com um bom começo que há algo muito interessante nos aguardando no final da história. Sedução, convite, promessa de uma experiência especial são elementos essenciais de uma boa história. Feito isso, resta cumprir a promessa.