Storytelling: Histórias que deixam marcas

Adilson Xavier · Capítulo 7 de 85

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Storytelling: Histórias que deixam marcas

Capítulo 2: HISTÓRIAS QUE NOS EXPLICAM O QUE SOMOS

Capítulo 2

 

HISTÓRIAS QUE NOS EXPLICAM O QUE SOMOS

 

A Bíblia está cheia delas. Não por acaso tornou-se o maior best-seller de todos os tempos. A inveja levando ao fratricídio entre Caim e Abel, a vaidade e a luxúria exaurindo a energia de Sansão, a valorização da paciência em Jó, a superação da força bruta de Golias pela coragem e inteligência de Davi, nossa origem divina, a insistência em comer do fruto proibido nos criando dificuldades... um sem-número de lições arquetípicas que culmina com o relato da vida de um herói salvador, que enfrenta inimigos poderosos, é entregue a eles por ação de um traidor, torturado até a morte pelos antagonistas, abandonado pelos amigos na hora crucial, e, nos últimos capítulos, premia o público com uma grande virada redentora. Um livro contendo histórias inspiradoras nos diz de onde viemos e para onde vamos, organizando o caos de nossas inquietações com “explicações” sem respaldo racional, mas que, pelo simples enunciado de conceitos alinhados com nossas expectativas mais profundas, vem, há mais de um milênio, funcionando como guia e bálsamo para as ansiedades existenciais que nos perseguem.

Não me alinho com os que classificam a Bíblia como um romance, embora não veja como necessariamente ofensiva a opinião dos que assim a consideram. Religiosidade à parte, é incontestável que se trata de uma coletânea de textos transmitidos oralmente ao longo de um amplo período de tempo, selecionados com a finalidade de compor uma ideia central e escritos em uma enorme variedade de estilos literários. Ensaios filosóficos, poemas, cartas, textos legislativos, fragmentos de epopeia, listas genealógicas, narrações históricas, narrações romanceadas, sermões, oráculos proféticos e até um canto de amor, tudo se mistura no livro cujo título “Bíblia” sinaliza sua vocação de representar todos os livros. Nele são descritas desde cenas de sensualidade, violência, incesto, uma extensa gama de homicídios e barbaridades múltiplas, até milagres, e exemplos de sacrifício pessoal, generosidade, sabedoria, astúcia, perseverança e bravura. É com essa diversidade de histórias que a Bíblia se mantém viva como manual de instrução do cristianismo. E, se considerarmos que sua primeira parte, o Antigo Testamento, é também a base do judaísmo e do islamismo, fica patente seu status de grande balizador ético-religioso da humanidade.

Assim, uma forma de barro esculpida no Éden, sob o efeito do sopro divino, tornou-se Adão (nome derivado de “adama”, terra em hebraico). Da costela retirada desse primeiro homem fez-se Eva, e, criado o primeiro casal, a narrativa nunca mais parou de render filhotes. Uma história fantástica que, convenhamos, só os muito radicais podem assumir como factual, a ponto de contrapô-la a teses científicas como a Teoria da Evolução. Mas, antes de tudo, uma história que veio para ficar, através dos séculos, em sucessivas gerações de corações e mentes. Não por necessariamente acreditarmos em seus detalhes, mas por sua essência. Ali, no capítulo de abertura do Gênese, se encontra a matriz de nossa autoimagem transcendental: No princípio, Deus criou. Autoimagem, aliás, é o benefício mais buscado na literatura, segundo Henry James. Em 1884, ele já definia que “a constante exigência humana pelo que o romancista tem a oferecer é simplesmente a carência comum por um retrato. O romance é, de todos os retratos, o mais abrangente e elástico”.

Mas, afinal, a Bíblia foi ou não escrita por inspiração divina? Claro que sim. Aos não religiosos, basta considerar que todo trabalho criativo advém dessa inspiração que nos vem do alto, ou de dentro, de onde quer que julguemos ser a localização de Deus, e absorver o quanto de complexidade e sabedoria salta de seus capítulos e versículos. Nunca é demais relembrar que a fé está para a certeza assim como a imaginação está para o conhecimento. Ou seja, acreditar em algo é uma confissão de incerteza; fé e imaginação pertencem, portanto, à mesma família. E, para arrematar nossa reflexão com poesia, nada como relembrar Fernando Pessoa, através de seu heterônimo Ricardo Reis, nos ensinando que “nada se sabe, tudo se imagina”.