Storytelling: Histórias que deixam marcas
Pelas ruas, páginas e telas
Artes plásticas, música, arquitetura, tudo se une em um mosaico que faz os grandes relatos do cristianismo presentes ao longo do tempo e nos mais diversos pontos do planeta. As cidades históricas mineiras com sua enorme quantidade de igrejas barrocas, onde desponta o trabalho do Aleijadinho; Salvador, na Bahia, com suas centenas de igrejas; todas as grandes cidades do mundo ocidental com suas catedrais; todas as pequenas cidades com suas igrejas como ponto de referência. O que isso traz de awareness é imbatível. Com o apoio de cada igreja com seus sinos, não há história mais badalada que a dos católicos. E dentro dessas igrejas saltam aos olhos as imagens dos principais personagens, as cenas da via-crúcis, uma intensa recapitulação da narrativa-mãe, através de esculturas, pinturas e vitrais.
O que acontece no interior das igrejas? Missas e sacramentos, onde são lidos trechos bíblicos, são repetidos salmos, são cantados hinos que consistentemente reforçam a história. Nas missas, celebradas diariamente e obrigatórias nos domingos e dias santos de guarda, além das leituras, reflexões e orações, reencena-se o episódio da Última Ceia, com a consagração de pão e vinho, que são distribuídos sob a forma de hóstia aos participantes, fazendo-os atuar como os apóstolos que estavam recebendo o alimento das mãos de Cristo em sua derradeira refeição. Que outra história é introjetada em seu público de forma tão significativa?
Há que se destacar o brilhantismo dos redatores litúrgicos e seu poder de síntese. A oração do Credo é o mais perfeito exemplo de sinopse confessional, onde se repassa o mistério da Santíssima Trindade, o resumo da vida de Cristo e o papel da Igreja na intermediação de seus fiéis com as forças celestiais. Essa oração está em todas as missas, garantindo que ninguém se desvie do trilho narrativo. Em número menor, mas ainda assim expressivo, os mais devotos rezam o rosário, que é dividido em terços que sublinham determinados mistérios. A cada segmento de dez ave-marias, esses mistérios convidam à meditação sobre as principais passagens da vida de Jesus.
Pelas ruas, páginas e telas
Os eventos públicos (shows, festivais, exposições, bailes, competições esportivas) que proporcionam a experiência de marcas encontram equivalência com o catolicismo nas festas religiosas como Natal, Páscoa, o Círio de Nazaré, as procissões, as celebrações em homenagem a santos padroeiros e até festas populares, como as juninas, que — não nos esqueçamos — acontecem em nome de Santo Antônio, São Pedro e São João. Ano após ano, cumpre-se o calendário litúrgico cujos pilares são o nascimento do protagonista (Natal) e o clímax de sua trajetória, onde se sucedem sofrimento, morte e ressurreição (Semana Santa), ambos precedidos de intensos períodos preparatórios: Advento e Quaresma. Junto com essas festas estão os símbolos cuja presença desencadeia a lembrança da história, dois deles com absoluto destaque: a cruz, logomarca mais reproduzida e impactante do mundo, exibida nas fachadas das igrejas, nos cemitérios, em joias e peças de adorno em geral, tornada gesto identificador/protetor ao ser traçada com a mão direita sobre cabeça e tronco do cristão (desfecho da biografia de Jesus, associada à sua morte e ressurreição); e o presépio, presente em paróquias, residências, shopping centers e praças no período natalino (representação do nascimento de Jesus). Na esteira do presépio, protagonizado evidentemente pela Sagrada Família, apresentam-se novos símbolos, como a manjedoura e a estrela-guia, e são introduzidos personagens sazonais, como os pastores, o galo (que dá nome à mais famosa missa natalina), os burrinhos, ovelhas e bovinos que pontuam a simplicidade da cena, e os Reis Magos (Belchior, Gaspar e Baltazar), estes com direito a uma festa específica celebrada em 6 de janeiro, que enseja encenações folclóricas e comidas típicas em muitas regiões. “É o Dia dos Santos Reis”, que Tim Maia deixou tão bem marcado na música brasileira.
Na literatura são abundantes os trabalhos que aprofundam a fé católica, alguns escritos por Papas, outros por teólogos, por escritores leigos como Luiz Paulo Horta e Reza Aslan, ou padres, entre os quais verdadeiros fenômenos de popularidade como Marcelo Rossi.
E no cinema? Ao lado das muitas versões da vida de Cristo, temos Irmão Sol, irmã Lua, de Franco Zeffirelli, falando-nos de São Francisco de Assis; temos Sansão e Dalila, Os Dez Mandamentos, Ben-Hur, Jesus Cristo Superstar, Godspell (os dois últimos baseados em espetáculos de teatro musical) e um sem-número de filmes tratando de milagres, conversões, aparições de santos. Acrescente-se a eles os filmes que, embora sem pretensões religiosas, têm o cristianismo integrado à trama. É o caso dos que tratam de exorcismo, conflitos entre o sagrado e o profano, anjos que assumem forma humana etc, sem limite de gênero, como bem exemplifica O Livro de Eli, violenta história de ficção científica em que, no futuro pós-apocalíptico, um último exemplar da Bíblia é alvo de disputa entre o protagonista, interpretado por Denzel Washington (que se dedica a levar o livro a um lugar seguro, onde servirá a bons propósitos), e o vilão interpretado por Gary Oldman (que pretende se apossar do livro para, amparado em seu poder de influência, dominar o que restou do mundo).
Você pode estar pensando que os filmes bíblicos já tiveram sua fase, sendo substituídos pelos que apenas aludem à religião sem realmente mergulharem no tema, e que pouco a pouco o assunto estará ultrapassado. Não é o que parece. Em 2014, constatamos que, no rastro do sucesso da minissérie A Bíblia, produzida pelo History Channel, Hollywood se mobiliza para lançar uma inédita safra de filmes com temática religiosa. Depois de Noé, sobre o grande dilúvio e a famosa arca (dirigido por Darren Aronofsky, protagonizado por Russell Crowe), vem Exodus, sobre a fuga dos hebreus do Egito (dirigido por Ridley Scott, com Christian Bale no papel de Moisés). E vem Mary, sobre a vida de Maria desde sua adolescência até a morte de Jesus (dirigido por Alister Grierson); Son of God, sobre a vida de Cristo, extraída da minissérie do History Channel (dirigido por Christopher Spencer); East of Eden, recriando o conflito entre Caim e Abel na atualidade (dirigido por Gary Gross); Ressurrection, sobre um centurião romano que investiga a ressurreição de Jesus (dirigido por Kevin Reynolds); Jesus de Nazaré, apresentando uma hipótese diferente para a gravidez de Maria (dirigido por Paul Verhoeven); além de Gods and Kings, sobre Moisés, e Pôncio Pilatos, sobre o governador da Judeia na época de Cristo. Um volume significativo de produções a atestar a vitalidade do tema, tanto no cinema quanto na TV.