Storytelling: Histórias que deixam marcas

Adilson Xavier · Capítulo 68 de 85

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Storytelling: Histórias que deixam marcas

Volkswagen

Brindando o mercado brasileiro por um extenso período com momentos de alta inspiração, como o famoso jingle de Zé Rodrix nos anos 1980 (É no silêncio de um Chevrolet que o meu coração bate mais alto...), tanto a Ford quanto a GM tiveram suas trajetórias atingidas por fatores de mercado e narrativas talvez mais instigantes de concorrentes europeus, notadamente um alemão e outro italiano.

A partir da era Collor, vieram os japoneses, ingleses, franceses, coreanos, suecos... O mercado se fragmentou, ficou mais complicado e competitivo. Mas as boas histórias cumpriram brilhantemente o papel de manter os protagonistas em evidência.

 

Volkswagen

 

Todo publicitário venera o anúncio criado pela DDB nos Estados Unidos para o fusca. Contrariando a grandiloquência dos carrões americanos, em 1959 (mesmo ano em que a montadora chegou ao Brasil) ele teve a coragem de recomendar: Think Small. Com maior ou menor intensidade, a Volkswagen sempre apelou para o pensar. Sua história tem viés predominantemente racional e se fundamenta na confiança. O famoso slogan Você conhece, você confia e a antológica campanha inglesa Se tudo na vida fosse tão confiável como um Volkswagen não deixam dúvidas a respeito desse foco. Algo tão forte que levou a marca a se assumir como Das Auto, assinando suas mensagens mais recentes em alemão, na plena convicção de que já é percebida com suficiente consistência para se afirmar como O carro, ainda que em um idioma tão distante dos brasileiros. Claro que há um segundo fio condutor nisso: a reputação germânica de excelência e rigor tecnológico, especialmente no campo automobilístico. Ou seja, uma história (da Volkswagen) confirmada e apoiada por outra (da Alemanha).

Mas o que salta aos olhos nesse cenário de racionalidade é a maneira inteligente e criativa como ele é explorado. Não é sempre que marcas tradicionais e baseadas na confiabilidade se atrevem, por exemplo, a reapresentar ao público uma famosa sequência de Forrest Gump, nela inserindo um de seus produtos. Também não é comum que empresas desse perfil nos contem histórias como a de um cachorro-peixe, para ilustrar que em um determinado modelo de carro cabe tudo o que se possa imaginar.

Foi a Volks que nos deu a Kombi, modelo que criou uma categoria à parte entre os utilitários. Também da Volks veio a Brasília, espécie de fusca tamanho família, batizada em homenagem à capital brasileira, para não deixar dúvidas de que o Brasil é importante para a empresa, e cantada na cor amarela pela banda de rock humorístico Mamonas Assassinas. Tivemos o Santana, com seu ar executivo, o nobre Passat, e tantos outros com longo tempo de estrada e muita história para contar.

Voltando ao fusca, que outro modelo conseguiu algo tão radical como virar protagonista de um longa-metragem? O Herbie, de Se meu fusca falasse, produzido pela Disney em 1968, continua imbatível como caso mundial de branded content.

Criando seus próprios enredos ou acoplando-se às histórias que circulam ao redor, a Volkswagen consegue aliar tradição e inovação, em uma química muito particular que privilegia o cérebro, mas não deixa de falar ao coração. Só assim foi possível ao fusca passar tantos anos como o primeiro carro da grande maioria dos motoristas — o carro da iniciação, para retornar na forma do New Beetle, repaginado, cool e com o preço nas alturas. Só assim foi possível emplacar no ano de 1980 outro modelo popular em substituição ao fusca: o Gol, cujo formato mais flexível possibilita variações de sofisticação e preço na medida certa para um carro que se baseia em praticidade e resistência. E que, a exemplo de seu antecessor, registra notável longevidade e performance de vendas. Gol, assim mesmo, aportuguesado. Aparentemente inspirado no Golf europeu, mas sem cair na tentação do “Goal”, que o afastaria da posição conquistada como legítimo craque nacional em popularidade. Simplesmente o modelo mais vendido do Brasil desde 1987 até 2013.