Storytelling: Histórias que deixam marcas

Adilson Xavier · Capítulo 74 de 85

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Storytelling: Histórias que deixam marcas

Capítulo 24: HISTÓRIAS CRUZADAS: EU, VOCÊ E NOSSAS MARCAS

Capítulo 24

 

HISTÓRIAS CRUZADAS: EU, VOCÊ E NOSSAS

MARCAS

 

Sempre foi assim. Mas agora está mais assim do que nunca.

Cada pessoa carrega consigo sua própria história, que invariavelmente é a mais importante do mundo, pelo menos na “imparcial” opinião do protagonista-narrador. Essa história se cruza com outras, que, por mais paralelas que sejam, exercem múltiplas influências sobre a trama principal. Dentre as influências, interessam-nos particularmente as que dizem respeito às marcas. Donas também de suas histórias (voluntárias ou não), as marcas fazem de tudo para se conectar aos milhões de protagonistas que povoam o planeta, ora mostrando-se como coadjuvantes ideais para acompanhá-los pelas aventuras da vida, ora inspirando-os a participar do universo narrativo criado por elas. Por mais que todo ser humano seja capaz de criar, a criatividade não é um bem distribuído com essa fartura toda. Por isso, uma boa moldura temática sugerida por qualquer marca pode salvar a pele do angustiado consumidor que precisa se inserir na enxurrada de histórias que alaga as relações humanas pós-internet. É só embarcar no clima, e pronto: você já é um astro.

Mesmo nas histórias originais, cem por cento autênticas, não há como negar a necessidade de elementos de apoio. Nossas melhores cenas jamais funcionariam direito se não acontecessem no local ideal (cidade, restaurante, shopping, teatro, avião, carro...), sem que nosso figurino fosse da grife que mais gostamos, sem que usássemos os adereços certos (celular, bolsa, cartão de crédito, relógio, óculos, joias...), o desodorante e o perfume ideais, e naturalmente estivéssemos com o corpo, o cabelo e a textura da pele em sua mais exuberante forma. Considerando que essas cenas podem acontecer em situações domésticas, românticas, profissionais, esportivas, sociais etc, e que cada uma delas requer indumentária, equipamentos, posturas e pessoas diferentes para contracenar, é evidente a magnitude dos cruzamentos possíveis e a vantagem que uma narrativa sedutora e consistente leva sobre suas rivais na dura missão de atrair para si o maior número possível de personagens com suas histórias a tiracolo.

Nas sociedades primitivas, isso acontecia apenas no âmbito da tribo, movido a inter-relações pessoais. Com o advento da mídia, a influência foi canalizada pelos grandes dutos dos veículos de comunicação, ganhando dimensões, primeiro nacionais, depois globais. Coincidindo com a globalização, vimos a chegada da internet, criando atalhos, possibilidades de interações rápidas entre personagens de realidades sócio-político-econômico-cultural-geográficas tão diversas que algumas delas há bem pouco tempo seriam simplesmente impossíveis. De uma hora para outra, começamos a conviver com um boca a boca planetário, onde todos podem emitir opiniões sobre qualquer assunto, inclusive sobre a história do outro, independentemente de o conhecermos bastante ou não. E o conceito de “outro” inclui pessoas e marcas.

Com a internet, todas as barreiras foram derrubadas, concedendo-se a cada indivíduo um poderoso canal de mídia, onde podemos registrar nossa emocionante passagem pela Terra, cena a cena, com as imagens e palavras que mais nos favorecem, para que nenhum habitante do planeta desconheça que conquistamos um prêmio, festejamos o aniversário de um parente, estamos felizes com a atuação de nosso time, passamos as férias em um resort paradisíaco ou tomamos um sorvete que nos proporcionou sensações gustativas reservadas aos deuses. Sim, a tecnologia colocou nas mãos do protagonista que habita em nós a mais possante metralhadora giratória jamais manuseada pelos humanos, capaz de disparar narrativas em todas as direções, podendo tanto criar celebridades instantâneas quanto causar danos a reputações que talvez se julgassem a salvo por se manterem longe das redes sociais.

A única certeza na web é a de que ninguém está a salvo. E, já que a onda é essa, melhor surfar que resistir.